Acerto de contas
Você já se sentiu enganado pelo gerente do banco ao seguir uma recomendação
de investimento furada? Milhares de investidores perderam dinheiro ao aplicar
em ações de empresas estreantes na Bovespa durante a febre dos IPOs (ofertas públicas iniciais) dos últimos quatro anos.
Dezenas de companhias, vendidas como ótimos negócios aos novatos da Bolsa, são negociadas hoje a preços inferiores aos do
lançamento de seus papéis. Os novos acionistas, que confiaram na empolgação
dos gerentes de bancos e de corretoras e ignoraram o risco dos investimentos
descritos nos prospectos de lançamento das ações, não podem fazer nada a não
ser lamentar as perdas. Ou quase - se quiserem, podem
ir a Roma reclamar com o Papa. E de quem é a culpa? Do banco de investimento
que coordenou o IPO e não deu ênfase suficiente aos riscos, do gerente que
recomendou a ação em busca de sua comissão ou do investidor incauto e
ganancioso? Não importa. A conta será paga por quem perdeu no final.
Quando os mercados vão bem e todo mundo ganha dinheiro,
quase ninguém reclama dos pequenos prejuízos no caminho. Mas quando as coisas
vão mal, como aconteceu nos últimos 12 meses após o estouro da bolha
imobiliária americana e a explosão dos preços das commodities, a caça às
bruxas é inevitável. Não aqui, mas nos Estados Unidos, onde o consumidor é
tratado com muito mais respeito do que no resto do mundo. Inclusive o
consumidor financeiro. O terremoto do subprime (o
crédito de alto risco) fez milhões de vítimas em Wall Street. Os prejuízos não se
restringiram às ações dos bancos, que derreteram e destruíram fortunas na
Bolsa, mas alcançaram outros mercados. Com a crise de confiança que atingiu o sistema
bancário, em fevereiro passado as instituições financeiras deixaram de dar
liquidez a títulos de longo prazo conhecidos como auction
rate bonds, que eram vendidos aos clientes como um
negócio sem risco. Os investidores aplicaram cerca de US$ 300 bilhões em
papéis considerados seguros, mas que na hora do aperto se revelaram um mico.
Porém, quem vai ficar com o prejuízo - ou uma boa parte dele - são os bancos.
Além de recomprar os títulos micados, eles pagarão
pesadas multas para se livrar de processos movidos por Estados como Nova
York, Missouri e Massachusetts.
As autoridades investigaram mais de 20 instituições que
teriam continuado a vender os famigerados títulos aos clientes, mesmo sabendo
que as condições de mercado haviam mudado. A rapidez dos acordos nas últimas
semanas mostra que muitos bancos resolveram assumir a culpa logo de uma vez e
evitar prejuízos maiores no futuro. O UBS e o Citigroup concordaram em
recomprar mais de US$ 25 bilhões em títulos e ainda pagar US$ 250 milhões em
multas. Na quinta-feira 14, o JP Morgan aceitou uma multa de US$ 25 milhões e
o Morgan Stanley encaixou uma de US$ 35 milhões, segundo o procurador- geral
do Estado de Nova York, Andrew Cuomo. Ambos se
comprometeram a dar liquidez aos investidores. E o Merrill Lynch admitiu a
recompra de US$ 10 bilhões. Outras
grifes, como
Bank of America,
Bank of New York-Mellon, Goldman Sachs, Lehman Brothers e Wachovia, estão sendo investigadas.
Se seus funcionários
cometeram os mesmos deslizes dos concorrentes, dificilmente escaparão da
Justiça americana.
No Brasil, os bancos suíços UBS e Credit
Suisse lideraram as emissões de ações nos últimos
anos. Agora, estão sendo questionados por terem indicado empresas que não
entregaram o que prometeram nas apresentações feitas aos investidores em seus
road shows. Como em alguns
casos eles fizeram empréstimos a essas companhias para acelerar as coisas e
viabilizar os IPOs, podem também ter a
responsabilidade cobrada na Justiça pelos investidores frustrados, especialmente
aqueles com domicílio nos Estados Unidos ou na Europa. Pelo menos 70% das
ações vendidas em IPOs foi parar
na carteira de estrangeiros. Cedo ou tarde, eles irão se entender. E os
pequenos investidores brasileiros continuarão na mesma.