Salários invioláveis: uma questão de liberdade
Os
bancos públicos falam num potencial a atingir de nove milhões de
pessoas no crédito consignado. Leia-se nove
milhões de pessoas com seus salários provisoriamente bloqueados.
Os refinanciamentos sucessivos são o triste resultado dessa camisa de
força do crédito consignado
Desgraças, às vezes, veem embaladas em boas intenções equivocadas.
O governo do P.T. ofereceu aos trabalhadores aposentados
empréstimos com desconto dos pagamentos diretamente em folha. Como
contrapartida, exigiu juros menores dos bancos, se é que juros de
até 3% ao mês podem ser considerados decentes. Este presente de
grego aos aposentados agraciou os bancos com o fim da inadimplência. Os
pagamentos das prestações dos empréstimos passaram a ser
garantidos diretamente pelo INSS que os descontam dos holerites dos aposentados
e os repassam contabilmente aos bancos. Isso permitiu também uma grande
redução de custos às entidades financeiras que não
precisam mais arcar com as despesas de cobrança sejam nos seus caixas ou
através de carnês. Já o aposentado não tem mais como
administrar seu pagamento. Ele já vem reduzido da prestação
contratada, diretamente na fonte, restando ao aposentado administrar apenas a
sobra do seu salário.
Estranho capitalismo brasileiro.
É inerente aos negócios capitalistas, tanto o auferir dos lucros
quanto o risco do negócio. Por aqui, o governo cuida de eliminar o risco
e garantir o lucro do sistema bancário e financeiro. Ou seja, o melhor
dos mundos possíveis para quem tem um banco ou uma financeira neste
país. Agora, os jornais anunciam outro futuro
“benefício” aos assalariados do país. Os empréstimos
da casa própria serão também descontados diretamente da
folha de pagamento dos mutuários. Ou seja, o risco do negócio, da
falta de pagamento, será mais uma vez anulado. O mutuário
pagará compulsoriamente quer possa ou não. Poderá passar
fome, deixar de comprar remédios e comida para seus filhos, mas as prestações
ao sistema financeiro estarão garantidas todo mês diretamente na
fonte. A modernidade acabou com a prisão por dívida, mas a
tendência atual de bloquear pagamentos diretamente nos holerites dos trabalhadores
os condena à penúria forçada até o final dos
contratos. Possibilidades de renegociação das dívidas
contraídas em valores mais acessíveis e prazos mais longos deixam
de ser uma possibilidade para o devedor. Uma propaganda maciça na
televisão e nos jornais cuida em convencer os aposentados desconfiados
do ótimo negócio que farão ao hipotecar e bloquear
parcialmente seus salários. Se os funcionários públicos e
os aposentados são os alvos preferenciais desses empréstimos, o
consignado para os empregados de empresas privadas é o próximo
mercado a ser ampliado e conquistado. Os bancos públicos falam num
potencial a atingir de nove milhões de pessoas no crédito
consignado. Leia-se nove milhões de pessoas com
seus salários provisoriamente bloqueados. Os refinanciamentos sucessivos
são o triste resultado dessa camisa de força do crédito
consignado.
Bem, isso é uma
violação da liberdade do cidadão brasileiro. Cada
cidadão deste país deve ter o sagrado direito de decidir o que
quer pagar no fim do mês com seu salário. Isso se chama liberdade!
Salário é o resultado da venda de sua capacidade de trabalho e de
seu talento a terceiros. Mais ainda, ao receber um salário ele trocou
horas e dias do seu tempo de vida em prol da produção de alguma
empresa privada ou estatal. É, portanto, um legítimo fruto que
lhe pertence por inteiro e não pode ser reduzido e fragmentado por
deduções compulsórias que anulam o direito de administrar
esse seu bem exclusivo e às vezes único. É uma
questão de liberdade civil fundamental que todo cidadão
brasileiro possa decidir sobre a totalidade de seu salário e onde e
quando ele deverá ser gasto, quais despesas e contratos honrar, pois no
caso de inadimplências já existe aparato jurídico adequado
protegendo os credores, leis essas à que os devedores estão
sujeitos. Os bancos e financeiras, portanto, contam com leis mais do que
suficientes para sua proteção, além dos seguros especiais
para enfrentarem inadimplências, perdas e quebra de lucros em seus
contratos e negócios. Ao permitir que prestações de
qualquer tipo sejam descontadas compulsoriamente dos holerites, passamos a ser
tutelados pelo estado sobre nossos ganhos de trabalho, como crianças que
não têm competência e discernimento para administrar suas
vidas. Pagar ou deixar de pagar, em face de contingências imprevistas que
possam surgir inesperadamente na vida de cada cidadão, é direito
legítimo da pessoa. Não cabe ao estado ou às
instituições financeiras decidirem sobre isso. Cabem a eles as
cobranças e execuções previstas em lei. Não
poderiam nunca invadir e seqüestrar valores no holerite de cada
trabalhador. Sobre isso, inclusive, há jurisprudência firmada
orientando que em contratos são proibidas cláusulas onde um dos
contratantes abra mão de seus direitos futuros. Salários
integrais são direitos futuros. Não se hipoteca o futuro.
É chegada a hora de se criar
um movimento de conscientização nacional contra qualquer
investida do governo e do sistema financeiro na folha de pagamento dos
trabalhadores brasileiros. Lamentável que seja um partido nascido das
lutas trabalhistas que faça esse assalto ao bem maior do trabalhador que
é o seu salário, expresso em seu holerite mensal. O
salário deve ser inviolável e constitucionalmente protegido,
sendo proibido nele efetuar qualquer desconto, sob qualquer pretexto,
principalmente os de origens contratuais. Caberá sempre à
liberdade de cada cidadão decidir como e quando gastá-lo ou
poupá-lo. É isso, entre outras decisões, que se chama
liberdade civil. Tanto a moradia como o salário de cada cidadão
deve ser sempre inviolável. O resto é mera proteção
e outorga de privilégios a segmentos poderosos da sociedade. Que se
termine com os empréstimos consignados em folha de pagamento neste
país. Pelo direito de todo trabalhador a um salário
inviolável como cláusula pétrea a ser inserida na
constituição brasileira. Trata-se de novo em delimitar até
onde pode o governo intervir no espaço de nossa vida particular, lugar
de autonomia e liberdade de cada ser humano. Espaço de cidadania e
direitos conquistados que não podem ser vendidos no balcão dos
negócios.
Walter Cezar Addeo
Le Monde Diplomatique
http://diplo.uol.com.br/2009-03,a2828