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Reflexões sobre o dinheiro de plástico


Há quase um ano a economia mundial foi sacudida pela mais grave crise financeira das últimas oito décadas. Em todo o planeta, empresas e instituições financeiras centenárias — consideradas sólidas — enfrentaram graves problemas. Algumas deixaram de existir e outras, se não fosse uma providencial ajuda governamental, já teriam fechado as portas. Em maior ou menor grau, empresas de todos os tamanhos e segmentos ao redor do globo foram afetadas. No mundo todo o problema era um só — a brusca freada na oferta de crédito, combustível indispensável para que o motor da economia continue girando.

O Brasil não passou incólume por essa crise, mas a economia local sofreu impactos bem menos severos do que a de outros países. Pesou aí a capacidade de aprender com os erros do passado e adotar medidas para não incorrer neles novamente. Um exemplo é que, quando a crise teve início, as reservas cambiais giravam em torno de US$ 200 bilhões, maior nível da história brasileira. Mais: o governo federal tratou de agir rapidamente para estimular e manter a economia aquecida, reduzindo a alíquota de alguns impostos e conclamando instituições financeiras públicas e privadas a manter abertas e sem redução as linhas de crédito.

Nesse contexto, a indústria de cartões deu e tem dado uma contribuição importante, especialmente no âmbito da oferta de crédito, que não sofreu qualquer tipo de redução. No Brasil, dois terços de todas as compras com cartão de crédito são feitas na modalidade parcelado sem juros, e o volume de crédito disponível tem crescido a taxas em torno de 44% ao ano, movimento mantido a despeito da crise; hoje, gira em torno de R$ 450 bilhões.

Tal decisão garantiu expressivo crescimento no volume financeiro negociado por meio de cartões, apesar da retração registrada em diversos segmentos econômicos. Ao longo de 2008 foram movimentados R$ 375 bilhões por meio dos plásticos e, ao comparar o resultado do primeiro semestre de 2009 com igual período do ano passado, o aumento médio tem girado em torno de 18%. Além de indicar claramente que o consumidor tem utilizado cada vez mais o cartão para antecipar decisões de consumo, esses números evidenciam que há um aumento da população bancarizada, que usa cada vez mais esse meio de pagamento em substituição ao cheque e dinheiro.

Ainda nesse contexto, pesa de forma positiva o prazo de até 35 dias dado ao portador de cartão para pagar a fatura sem cobrança de encargos. É importante destacar que esse benefício reduz o custo financeiro dos consumidores, pois, não fosse o período de carência, teriam de usar linhas de crédito onerosas para cobrir eventuais fluxos financeiros negativos existentes entre a data da compra e a da entrada de seus proventos mensais.

O lojista, por sua vez, recebe os recursos geralmente 30 dias após a venda e não corre o risco da inadimplência, que é integralmente assumido pelo emissor do plástico. A expansão no volume financeiro negociado com cartão significa que o comércio não perdeu vendas.

A indústria de cartões também colabora para o aumento da formalidade na economia, pois desestimula a ilegalidade pelo simples fato de que os dados de todas as transações nos estabelecimentos comerciais ficam à disposição dos órgãos de fiscalização.

É inegável a importância do setor de cartões no atual contexto econômico, e a Associação Brasileira da Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs) compartilha da opinião de que, sem dúvida, aprimoramentos podem ser promovidos. Um primeiro passo nesse sentido foi dado no início do ano, quando entrou em vigor o Código de Ética e Autorregulação da Abecs, que, entre outras coisas, zela pelas boas práticas comerciais. Mais recentemente, no fim de junho, a Abecs encaminhou aos cuidados do Banco Central, da Secretaria de Direito Econômico e da Secretaria Especial de Acompanhamento Econômico um estudo com uma série de proposições de melhorias para a indústria.

O objetivo tem sido contribuir para a discussão em torno de mudanças, com certeza necessárias, para que a indústria brasileira de cartões, considerada ainda jovem quando comparada com outros mercados mais desenvolvidos, continue crescendo e beneficiando de forma consistente os consumidores, o comércio e o governo. Para tanto, entendemos que o diálogo entre todas as partes envolvidas é fundamental para que as ações de melhorias sejam adequadas ao atual estágio da indústria, caminhando, assim, a um bom termo para todos.

Autor(es): Paulo Rogério Cafarelli - Presidente da Associação Brasileira da Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs)

Correio Braziliense - 13/08/2009
 http://clippingmp.planejamento.gov.br/



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