Desencontro entre escola e trabalho
Na sociedade do
conhecimento, as empresas se tornam cada vez mais exigentes. As modernas
tecnologias e os novos métodos de produzir e vender requerem
empregados com bom senso, lógica de raciocínio, competência na comunicação
escrita e oral, versatilidade, bom manejo da informática, capacidade para
trabalhar em grupo e, é claro, um rigoroso domínio dos segredos da sua
profissão.
Dados recentes da Relação Anual de Informações Sociais (Rais)
mostram que, no mercado de trabalho formal do Brasil, a participação dos
trabalhadores de menos instrução é declinante e a dos mais educados é
ascendente. De 2007 para 2008, as oportunidades de emprego caíram 3,9% para
os analfabetos; 3,2% para os que têm 4ª série incompleta; e 3% para os que
completaram a 4ª série. No outro extremo, as oportunidades aumentaram 3% para
os que têm ensino médio completo; 6,2% para os que têm ensino superior
incompleto; e 7,4% para os que se diplomaram em unidades universitárias.
A demanda por profissionais qualificados vem aumentando em praticamente todos
os setores da economia. Com crise ou sem crise, persiste o paradoxo: os
trabalhadores reclamam da falta de emprego e as empresas reclamam da falta de
qualificação.
O número de anos de escola tornou-se insuficiente para avaliar a competência
profissional. O que mais conta é a qualidade da educação recebida e a
competência efetiva para atender às necessidades do mundo do trabalho.
A maioria das empresas sabe que o profissional pronto e acabado não existe,
razão pela qual patrocina milhares de cursos de treinamento e reciclagem para
seus empregados. Tais cursos, porém, só dão resultado quando a educação
básica é de boa qualidade. As empresas especializadas em treinamento indicam
que, mesmo entre profissionais de nível superior, são poucos (10% a 15%) os
que têm condições de exercer as funções de média gerência na sua profissão.
As exigências do mercado de trabalho mudaram e as universidades não as
acompanharam. Algumas regrediram. Outras nunca foram boas.
A busca de melhor qualidade do ensino se tornou o maior desafio para as
escolas do Brasil. As medidas tomadas nos campos da avaliação, estimulação e
atualização dos professores estão na direção certa, mas o esforço ainda é
tímido.
O professor Martin Carnoy, da Universidade de
Stanford, ao apresentar resultados de pesquisas comparativas, diz que a maior
prioridade para o Brasil é a de preparar os professores para ensinar. Ele
verificou que os melhores docentes brasileiros têm um desempenho abaixo da
média do professorado dos países desenvolvidos. "Não basta saber a
matéria. É preciso saber como ensiná-la" (Professores brasileiros
precisam aprender a ensinar, Folha de S.Paulo,
10/8/2009).
O Brasil sofre dos dois males. Para a maioria dos docentes, o conhecimento é
precário e a pedagogia é pobre. Somem-se a isso a má direção da maior parte
das escolas, a indisciplina reinante e o excesso de mudanças de professores e
alunos de um ano para o outro.
Carnoy indica que os optantes pelo magistério estão
longe de ser os melhores talentos. Para inverter
essa tendência são necessários estímulos bem direcionados, um contínuo
aperfeiçoamento dos mestres e um rigoroso acompanhamento do seu desempenho.
Ele descobriu que filmar o trabalho dos professores nas salas de aula, por
exemplo, constitui uma ferramenta valiosa para identificar e corrigir
defeitos. Verificou também que, para diretores e supervisores, entrar na sala
de aula ajuda a ver os problemas e encontrar soluções.
Tais medidas são mais importantes do que dinheiro. É claro que dinheiro
ajuda. Mas não é o fator mais estratégico para melhorar o relacionamento
entre professores e alunos e, sobretudo, as condições de ensino nas salas de
aula. É daí que surgem as atitudes que vão levar os alunos a estudar por
conta própria, a cultivar o vírus da curiosidade e a desenvolver o amor e a
obsessão por sempre saber mais e bem usar as informações.
Só assim conseguiremos diminuir o hiato entre a escola e o trabalho, sem
falar na sua enorme importância para a cidadania. Temos de acelerar os
processos de melhoria no campo da educação, sob risco de as empresas perderem
competitividade e os trabalhadores ficarem sem emprego. A concorrência não
espera.
José Pastore é professor de relações do trabalho da Universidade de São Paulo
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