Entrevista: Economista está preocupado com
"postura agressiva" do governo para ampliar presença na economia
"Defendo a reestatização do Estado." Com essa declaração
sintética e direta, Armínio Fraga, presidente do Conselho de Administração da Bolsa de
Valores, da Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central, expressou
sua preocupação com a "postura agressiva" do governo Lula na
ampliação da presença do Estado na economia. O que pode ser identificado na regulação
do pré-sal, onde o papel da Petrobras é "dominante", no avanço dos
bancos públicos no mercado de crédito, ou mesmo na ingerência que o governo vem
tentado estabelecer na Vale. "Algo", disse
ele, "na linha básica de que ou se adere a essa visão de Estado máximo ou
não se é patriota".
Armínio identifica nesse movimento de
expansão fortes indícios de patrimonialismo. "Em
geral, vejo com preocupação a sensação de que o Estado passou a servir a interesses
partidários, a interesses privados, sindicais. Acho que precisamos iniciar a
discussão de reestatização do Estado."
Em entrevista ao Valor, Armínio alertou para a necessidade de boas regras de
governança na gestão da nova riqueza que o pré-sal deve produzir,
que pode fazer do Brasil "um colossal gestor de ativos". Ele avalia
que é possível o governo brasileiro acumular de US$ 1 trilhão a US$ 2 trilhões
num prazo de dez a 20 anos. "Se gastarmos apenas a renda desse dinheiro,
uns 3% ao ano, já será algo equivalente ao nosso saldo em conta corrente."
São recursos que precisam ser bem administrados, com regras claras de
governança do ponto do vista cambial, orçamentário e
do investimento. "Defendo com entusiasmo levar mais a sério o orçamento,
que é o espaço mais natural e mais democrático para decidir o que se faz com
nosso precioso dinheiro."
A apreciação do real, que
tanto incomoda o governo, é uma realidade que vai durar um bom tempo e todas as
tentativas de intervenção nesse processo têm custos não desprezíveis. "O
melhor seria o país criar mecanismos mais permanentes e mais eficazes, que
certamente englobam a parte fiscal, do que ficar tentando recriar todo um
sistema cambial cheio de 'band-aids' mas que, no
fundo, não encara o bicho pela frente."
A seguir, os principais
trechos da entrevista:
Valor: Está em curso, no
pós-crise global, uma inflexão da política econômica?
Armínio Fraga: Eu diria que sim. Vejo hoje um
governo mais agressivo no posicionamento de defesa de uma presença grande do
Estado, inclusive em áreas que no passado nos levaram a concluir que seria
melhor mudar essa presença para uma ação mais reguladora e fiscalizadora do que
propriamente de um Estado executor, empresário. Gostaria de colocar uma
ressalva: a entrevista do Luciano Coutinho, presidente do
BNDES, ao jornal "O Estado de S. Paulo" no fim de semana, foi para
mim um divisor de águas, embora não esteja claro se ele está falando em nome
pessoal ou se são opiniões que têm peso no governo [Coutinho fala da necessidade
de controle do gasto público, de reformar a Previdência Social, de incentivar a
poupança doméstica, como uma agenda para o futuro próximo].
Valor: Onde o sr. identifica o avanço do Estado?
Armínio: É mais uma visão de discurso, de uma postura mais
agressiva de escolha. Tem toda a discussão do pré-sal, do papel não só
predominante, mas dominante da Petrobras. Há, também, uma postura mais
agressiva no mercado de crédito, onde é sempre difícil se traçar uma linha
divisória do que é subsídio e o que é uma ação mais competitiva.
Nesse caso, temos um histórico, com exceção do BNDES, bastante ruim. Os bancos
públicos estaduais e federais tiveram problemas gravíssimos ao longo da sua
história sempre que foram manipulados por interesses políticos. Talvez já seja
uma postura eleitoral, na linha básica de que ou se adere a essa visão de
Estado máximo ou não se é patriota.
Valor: Coloca-se o Estado máximo como
contraponto ao Estado mínimo. Quem defende a opção de um Estado mínimo?
Armínio: Não sei. Nem o Roberto Campos no auge do seu
liberalismo defendia isso. Aliás, ele próprio foi o pai do BNDES. Nunca ouvi
falar em alguém que defenda o Estado mínimo. Essa é uma tentativa de delimitar
o debate a partir de uma premissa falsa, o que é muito grave.
Valor: A posição do governo em relação à
Vale, a tentativa de influir no que a empresa deve ou não produzir, reforça
essa preocupação?
Armínio: Penso que sim. A Vale é uma
empresa que tem tido muito sucesso, gerou muito valor para o país ao longo dos
anos - antes e depois da privatização - e sempre foi conduzida pensando grande.
Ninguém pode acusar a Vale de pensar pequeno. É uma empresa que tem mecanismos
de governança bem definidos, onde há espaços para se definir estratégias, para
se discutir investimentos. Uma politização desse processo,
confesso, me surpreendeu e incomoda. Vejo com maior preocupação ainda
quando profissionais de altíssimo gabarito são perseguidos porque, em algum
momento, fizeram parte de outro governo, aliás em
funções de natureza técnica e com altíssima exposição. São pessoas cujo
patriotismo, para usar uma palavra importante, está acima de qualquer suspeita.
Valor: A quem o sr. se refere?
Armínio: Ao Fábio Barbosa (diretor de Finanças da Vale e
secretário do Tesouro Nacional no governo FHC), à Carla Grasso (diretora de
Recursos Humanos e Serviços Corporativos, que também trabalhou no governo
passado).
Valor: O sr. considera isso menos como uma crítica gerencial e
mais como ingerência política do governo na empresa?
Armínio: Isso é o que está dito na imprensa. Se a realidade
não é essa, vou ficar mais tranquilo. Não tenho
procuração para falar, mas tenho a impressão de que essas pessoas sejam as
primeiras a defender que se faça uma avaliação objetiva do trabalho delas, com
base em critérios profissionais, de capacidade de cumprir uma estratégia, de
executar uma função.
Valor: Quando falei em inflexão, quis me
referir também a mudanças no tripé macroeconômico. Houve um afrouxamento
importante das metas fiscais e há a tentativa do governo de segurar o câmbio de
alguma forma. Isso mostra uma presença mais incisiva do Estado?
Armínio: Existe toda uma corrente no Brasil que vem de uma
postura mais ativa na área cambial, que nunca é explicitada de maneira
completa. Em geral as versões mais coerentes falam em controle na entrada de
capitais de curto prazo. Eu mesmo, quando fui diretor da Área Internacional do
Banco Central, em 1991/92, pus em prática alguns
desses mecanismos, como o IOF, que podem funcionar um pouco por um tempo e,
como tudo na economia, tem custos e benefícios. Há, também, a defesa de uma
ação mais "firme" na intervenção, no fundo uma espécie de
"tabelamento" do câmbio, que requer uma discussão mais ampla. Não é
só fazer. Isso exige pensar numa outra perna importante do tripé, a política
fiscal. Um modelo que pode dar certo para a China, país que poupa 40% do PIB e
tem juro real negativo, pode não necessariamente dar certo aqui.
Valor: Por quê?
Armínio: Teríamos um custo fiscal extremamente elevado e, ao
contrário de uma carta branca para gastar mais, isso recomenda o oposto: mais
cautela. Se esse é realmente o objetivo, o que hoje é essencial, que é uma
política de responsabilidade fiscal e disciplina, passa a ser mais do que
essencial. Passa a ser vital. Senão, a conta não fecha.
Valor: Há, na tentativa de deter a
apreciação do real, consequências sobre os juros?
Armínio: Quando se tem um modelo onde o câmbio pode flutuar
mais para um lado do que para o outro, cria-se pressão também sobre a taxa de
juros. Por arbitragem, quando o mercado - empresas, bancos, investidores - toma suas decisões, começa fazendo conta de em que moeda vai
financiar a sua empresa, e, ao se posicionar, vai levar essa assimetria em
consideração, produzindo impacto na taxa de juros. É um assunto complexo. Me incomoda quando, às vezes, vejo quem diga que isso é
óbvio, que basta aplicar um controle de câmbio e aumentar a política de
intervenção do BC. Tem outras consequências e é preciso pensar nelas. Aliás, o
Brasil é uma espécie de laboratório dessas coisas.
Valor: Como se dá mesmo a pressão sobre os
juros?
Armínio: Se o mercado trabalha comparando as alternativas de
juros e conclui que o câmbio só pode subir, que não vai cair,
isso significa que na comparação do juro local com a taxa internacional, tudo o
mais constante, vai demandar um juro local mais alto. Na área fiscal, com o
diferencial de juros ainda tão alto, uma política mais agressiva de intervenção
tem um custo enorme. Para não falar no que tem sido uma característica da
história das políticas de intervenção dos banco
centrais, onde sempre tem o risco de perda de capital para o governo.
Valor: Como?
Armínio: Como está acontecendo potencialmente na China, onde
o governo acumulou uma posição enorme em dólares, o dólar se desvaloriza no
mercado internacional, e, eventualmente, como a esmagadora maioria imagina que
vá acontecer, o yuan está se
valorizando ainda mais. Nada disso vem de graça. São custos e benefícios que
precisam ser melhor avaliados e, com certeza, o
mecanismo mais razoável para se conter a valorização do real não está sendo
usado, que é preservar uma política fiscal mais responsável, tanto do ponto de
vista do superávit primário quanto do crescimento dos gastos, como colocou de
forma clara o Luciano Coutinho e eu mesmo já pareço um papagaio falando disso.
Valor: Apesar do ônus fiscal, a acumulação
de reservas até um certo ponto traz mais benefícios
que custos. A partir de certo patamar, a equação se inverte. O Brasil está
próximo ou já chegou no ponto onde o custo é maior que
o benefício?
Armínio: Talvez. Não dá para dizer com clareza que sim, mas
US$ 230 bilhões é muito. Se for para US$ 300 bilhões, US$ 400 bilhões, não sei
se valerá a pena com o diferencial de juros que se tem. Tudo isso tendo como
pano de fundo um país que está melhor, continuará melhorando, que vem
sinalizando um potencial de crescimento maior - se puder poupar,
investir e educar mais o povo será ainda melhor - e, portanto, atrairá capital.
O Brasil é, disparado, a maior fronteira agrícola disponível no mundo, e isso
traz a necessidade de investimentos em infraestrutura,
o país descobriu uma Venezuela ou mais [de petróleo] e isso é um choque
positivo que precisa ser administrado. Aí também entra o tema da governança,
que precisa estar presente no contexto cambial e orçamentário. São questões que surgem hoje, de natureza mais positiva do que tivemos nas
décadas de 80 e 90, que indicam que vamos ter que conviver com isso num
prazo mais longo.
Valor: Com a apreciação do real?
Armínio: É, com a apreciação do
real. Então, é melhor o país criar mecanismos mais permanentes e mais eficazes,
que certamente englobam a parte fiscal, do que ficar tentando recriar todo um
sistema cambial cheio de "band-aids" mas que, no fundo, não encara o bicho pela frente.
Valor: O sr. mencionou governança tanto na questão cambial
quanto orçamentária dos recursos do pré-sal. Qual é a
preocupação?
Armínio: Essa riqueza toda pode fazer do Brasil um colossal
gestor de ativos. É o dinheiro do povo, nosso e das gerações futuras. É
fundamental que esse dinheiro seja bem gasto. Como ele vem em moeda
estrangeira, é inviável gastá-lo à medida que for sendo levantado. Isso
inundaria o mercado cambial. Já há um consenso correto de se gastar apenas o
rendimento desses recursos. É possível que em uma a duas décadas o governo
brasileiro acumule de US$ 1 trilhão a US$ 2 trilhões. Se gastar 3% ao ano disso
já será algo equivalente ao nosso saldo em conta corrente.
Valor: O que deveria ir para o orçamento?
Armínio: O rendimento desses recursos deveria ir para o
orçamento. Defendo com entusiasmo levar mais a sério o orçamento, que é o
espaço mais natural e mais democrático para decidir o que se faz com nosso
precioso dinheiro. É um dinheiro que vai permitir uma alocação plurianual, que
pode financiar infraestrutura. É na discussão do
orçamento (no Congresso) que deveria se decidir se ele deve ser alocado para
projetos de infraestrutura, por exemplo, e não em
educação, saúde, nem para sustentar essa Previdência caríssima que temos. É um
ponto crucial.
Valor: Uma terceira dimensão de governança
diz respeito ao investimento desse dinheiro. Não seria para investir em ativos
no exterior?
Armínio: É, mas é preciso que sejam investidos com objetivos
muito claros, com transparência, com padrões técnicos de mensuração, critérios
de diversificação, com conselho, auditoria, enfim, toda uma governança
apropriada.
Valor: O que o sr. acha da proposta da Fazenda, de criar outro fundo
soberano, com emissão de dívida de longo prazo, para comprar dólares no mercado
interno e conter a sobrevalorização do real?
Armínio: Essa é uma medida em direção a um modelo cambial
mais híbrido. Eu também não sou religioso nesse assunto e acho que pode
funcionar, mas precisa de um certo cuidado, pois esse
sistema cria mais confusão, fica menos claro e requer mais e não menos
disciplina, especialmente fiscal. Seria um fundo sem esforço de superávit
primário, apenas com emissão de dívida. Pode-se fazer.
Valor: Na campanha de 2006, Lula colou no
candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, a pecha de privatista da qual ele não
conseguiu se desvencilhar, como se isso fosse uma falha imperdoável. Me parece que a sociedade brasileira gosta da presença do
Estado.
Armínio: Li recentemente um artigo extraordinário de um
professor de Chicago, Luigi Zingales, chamado "Capitalism After the Crises", publicado na "National
Affairs", que no fundo diz o seguinte: existe
uma defesa do Estado porque tipicamente os interessados conseguem identificar
onde vai estar a sua boquinha, e a esmagadora maioria da população sente pouco
ou vai sentindo aos poucos o custo disso, mas não consegue se mobilizar. Essa é
a marca de um Estado que a literatura chamava de corporativo, patrimonialista,
populista, que, infelizmente acaba desembocando num Estado hiperdimensionado,
pouco eficiente, injusto e corrupto.
Valor: A crise não produziu a lição de que
os governos erraram ao retirar o Estado de várias áreas e, agora, têm de
recolocá-lo? Isso não legitima as ações do governo Lula?
Armínio: De certa forma, o que está acontecendo no mundo é
uma chancela, sim, do que foi feito pelo governo anterior e de algumas coisas
que esse governo continuou a fazer, às vezes até melhor. Temos que partir do pressuposto de que cada governo que vem tem a
obrigação de fazer melhor do que o governo que sai. Mas não se deve ir além disso. Todo cuidado tem que ser tomado. Na linha do Zingales, por exemplo, tem todo um desenho de um Estado
"pro-business" que é um modelo muito
problemático, de privilégios, de estar próximo e de enriquecer de mãos dadas
com o governo.
Valor: O governo não deve se envolver?
Armínio: Tem de se envolver sim, mas de forma muito cuidadosa
e transparente. Tem o Estado que é a favor das empresas e não do mercado, é a
favor dos que conseguem fazer lobby, mas não da maioria. Esse é um modelo que
gera enorme concentração de poder empresarial em vários setores, inclusive na
área financeira, concentração que se mostrou catastrófica no mundo. E tem o
Estado "pro-market", que é a favor da
concorrência, do mercado, da igualdade de oportunidades, mais horizontal.
Valor: Mas não há, na sociedade
brasileira, a predominância de uma visão bastante pró-Estado grande, forte,
influente, que mesmo a oposição não consegue contestar?
Armínio: É por que ela vem embrulhada num discurso nacional
populista que ninguém tem coragem de refutar.
Valor: Mas a crise não expôs o fracasso do
modelo então vigente?
Armínio: Ela chancela um modelo de Estado forte, onde não se
acredita cegamente no mercado e coisas assim. Isso não é novidade. Não há nada além disso. A partir daí começa a se fazer uma apropriação
indevida de chancela.
Valor: O que o sr. vê como inquietante no governo Lula pós-crise?
Armínio: Vejo com preocupação a sensação de que o Estado
passou a servir a interesses partidários, às vezes ligados ou à política ou a
interesses privados, sindicais. Esses sinais não são de agora. Começaram bem
antes da crise, com as tentativas de controlar a imprensa (com a proposta de
criação do Conselho Federal de Jornalismo), os meios eletrônicos (tentativa de
criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual). Defendo uma reestatização do Estado.
Valor: Como?
Armínio: Muito do que vem misturado com nacionalismo e
presença do Estado me leva a considerar que precisamos iniciar uma discussão
sobre a reestatização do Estado. O próprio Itamaraty
me passou essa sensação, nas suas políticas de bater "bumbo" de forma
exagerada, colecionar derrotas que não eram necessárias nem honrosas. Não tenho
uma lista completa e não fico anotando essas coisas, mas vejo que o Estado
precisa ser tratado de uma maneira mais cuidadosa e, nesse momento, acho que
cabe se abrir essa discussão. É curioso ver que muita gente que hoje está no
governo, que fez oposição heroica contra a ditadura e
na época também defendia, de certa maneira, reestatização
do Estado, hoje olha para trás e se identifica com muita coisa da época da
ditadura.
Claudia Safatle,
de Brasília
Valor
Econômico
http://www.andima.com.br/clipping/clipping.asp