A crise financeira fez as bolsas de valores despencarem e
tornou o preço das ações muito barato. Mas será que é hora de comprar ações? Ou
é melhor investir em fundos, fazer aplicações em ouro ou comprar imóveis? Para
explicar as vantagens e as desvantagens dos seis principais produtos
financeiros, a você s/a ouviu sete especialistas que
indicam alternativas para todos os bolsos e perfi s
de investidores. “Invista onde você conhece, agora não é um momento para
aventuras e apostas”, diz José Cláudio Securato,
vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças (Ibef) e professor da escola Saint Paul de Negócios, em São Paulo. Se
você quer começar a investir agora ou quer redefi nir suas aplicações, deve prestar atenção às dicas dos
especialistas.
Fique atento às notícias
Acompanhe o noticiário macroeconômico para descobrir
oportunidades de investimento. A tradicional caderneta de poupança ameaça
passar a perna nos fundos de renda fixa caso os juros, que estão em 11,25% ao
ano, continuem caindo.
Diversifique seus investimentos
“Essa é a principal recomendação neste momento”, diz Marcos Crivelaro, especialista em matemática financeira e
consultor independente de finanças pessoais.
Olho nos fundamentos
É hora de acompanhar dados das companhias de capital aberto
com lupa, olhar cada setor e ficar atento às mudanças políticas. Tudo pode
influenciar o mercado financeiro.
Negocie as taxas
Como as instituições financeiras estão disputando os
clientes é hora de negociar taxas de administração, prazos e aplicações em mais
de um banco ou corretora.
Ganhos passados não garantem rentabilidade no futuro
“Em ações é preciso ficar atento às empresas e analisar quem
vai perpetuar. Distribuir a carteira entre renda fixa, variável
e imóveis parece razoável”, diz André Salgado, diretor da Santander
Corretora.
Reavalie seu perfil
As instituições financeiras associadas à Associação Nacional
dos Bancos de Investimento (Anbid) se comprometeram a
fazer um levantamento minucioso do perfil do investidor antes de oferecer a ele
qualquer produto. O levantamento começa a valer a partir de janeiro de 2010.
“Teremos que definir as características do investidor por meio de um
questionário”, diz Marcos Villanova, diretor da área
de investimentos do Bradesco e presidente da Comissão de Distribuição de
Produtos ao Varejo da Anbid.
Ele já diversificou
Alexandre Aoki, 41 anos
O engenheiro Alexandre Aoki
começou a investir na bolsa e em imóveis há dois anos. “Peguei a euforia do
mercado de ações”, diz. O diretor da GE Fanuc,
divisão de plataformas da GE, comprou Petrobras e Vale e ganhou 70% de
valorização entre janeiro de 2007 e maio de 2008. “Perdi dinheiro na crise, mas
meu saldo ainda é positivo em 20%.” A perda de patrimônio fez Alexandre mudar
suas estratégias de investimento. Recentemente, ele entrou no mercado de
opções, fazendo operações casadas (compra e venda de opções) e protegendo as
ações de possíveis perdas no futuro. No mercado de imóveis, ele comprou um
apartamento de três quartos na planta para revendê-lo já valorizado quando
estiver pronto, daqui a um ano.
O que ele tem?
Imóveis - 20%
Ações - 20%
Renda fixa - 60%
AÇÕES
Depois de quedas assustadoras nos últimos meses, os preços
das ações começaram a se recuperar. A bolsa já subiu 10,45% neste ano, até 24
de março, e alguns papéis já recuperaram mais de 40% do seu valor. “O preço das
ações ainda vai continuar oscilando, mas o espaço para novas quedas é muito
menor”, diz Gustavo Cerbasi, consultor de finanças
pessoais e colunista da você s/a. Apesar da tentação
dos preços baixos, o investidor precisa ter muita habilidade e conhecimento
para operar no home broker e participar de operações
rentáveis, como o day trade,
em que se compra e vende papéis no mesmo dia. Se não for o seu caso, opte por
comprar papéis de empresas sólidas e ficar com eles por, pelo menos, quatro
anos. “Ações como Petrobras, Vale e os papéis dos bancos estão entre os mais
promissores”, diz José Cláudio, do Ibef.
DICAS
- Coloque apenas de 10% a 20% do seu dinheiro em
ações. “O melhor é ser conservador, comprar e esquecer os papéis”, diz o
consultor Marcos Crivelaro.
- Para diminuir os erros das operações no home broker, use informações de gráficos que cruzem dados
de P/L (preço versus lucro da empresa).
- Prefi ra ações das empresas que atuam no mercado
interno, pois elas devem compensar as possíveis perdas em outros países.
- Comprar Ibovespa (índice das ações mais
negociadas) pode não ser um bom negócio. O índice é composto por várias
empresas de commodities, que estão no centro da crise econômica global.
- Grandes companhias de alimentos, logística e
bancos são boas opções de investimento, diz André Salgado, diretor da
Santander Corretora.
IMÓVEIS
Imóvel é um investimento conservador, mas pode ser bastante
atrativo já que os preços tendem a cair. “Tanto o preço dos imóveis
residenciais quanto o dos comerciais deve sofrer uma depreciação nos próximos
seis meses”, diz William Eid Júnior, coordenador do
Centro de Estudos em Finanças da Eaesp-FGV
(Fundação Getulio Vargas). É bom lembrar que os imóveis têm baixa liquidez —
são difíceis de vender. Se mesmo assim você decidir adquirir um, os
especialistas recomendam deixar entre 30% e 40% de seu dinheiro investido na
poupança ou na renda fixa.
DICAS
- Na compra, opte pelo imóvel na planta — com
maior desconto — e prefi ra apartamentos pequenos, mais fáceis de alugar.
- Aproveite os leilões de imóveis usados, que já
vão mostrar a elevação dos índices de inadimplência no setor. Observe a
obsolescência do imóvel, aqueles com mais de 20 anos têm preço muito
baixo.
- O rendimento dos aluguéis fi
ca entre 0,5% e 1% ao
mês sobre o valor do imóvel, tanto para os residenciais quanto para os
comerciais. “Há ainda o desconto de 27,5% de Imposto de Renda, a taxa de
corretagem e a possibilidade de o imóvel ficar vazio, o que implica gastos
de IPTU”, diz Fabiano Calil, sócio da Fabiano Calil Gestão de Riquezas, em São Paulo.
- Fuja do fi nanciamento. O ideal é comprar o imóvel à vista e
vendê-lo só daqui a três ou quatro anos, quando os preços voltarem a
subir.
POUPANÇA
Nos próximos meses, a caderneta de poupança poderá render
mais do que os fundos de renda fixa. O governo já admitiu que vai rever as regras da poupança, para não provocar um
desequilíbrio na indústria de fundos de renda fixa. Esses fundos usam como referência
a taxa Selic, que está em 11,25% ao ano e pode ser
reduzida ainda mais na próxima reunião do Comitê de Política Monetária do Banco
Central (Copom). Se a Selic cair, a rentabilidade
desses fundos também vai cair, provocando desinteresse do investidor. “Com a Selic em queda, a poupança pode ter rentabilidade melhor do
que alguns fundos de investimento que cobram altas taxas de administração e têm
cobrança de Imposto de Renda”, diz Marcos Villanova.
Se o governo não mudar as regras de rendimento da poupança, o próprio governo
não conseguirá mais emitir títulos públicos para se autofinanciar.
DICAS
- Para quem tem até 10 000 reais a poupança é a
melhor opção.
- A poupança tem rentabilidade anual de cerca de
8% (taxa referencial mais 6% de juros), não tem cobrança de Imposto de
Renda nem taxa de administração. “O risco da poupança é praticamente o
risco- país”, diz José Cláudio, do Ibef.
Ele é arrojado
Daniel Carrasqueira de
Moraes, 30 anos
Há oito anos, Daniel Carrasqueira
de Moraes, gerente financeiro da Lavill, fabricante
de quadros elétricos, negocia ações, investe em renda fixa e
imóveis. Ele tem uma carteira considerada arrojada pelos analistas
porque aplica 50% dos seus recursos no mercado acionário. “Antes eu aplicava
mais em bolsa”, diz. Daniel gosta de ações de primeira linha, como Petrobras,
Vale e BM&FBovespa, e
small caps (companhias cujas ações são pouco
negociadas), como Eternit. Do começo da crise para cá, Daniel perdeu cerca de
40%, mas ainda está em terreno positivo. “Vou continuar separando de 20% a 40%
de minha renda mensal para ações.” Apesar de ter registrado ganho nas
aplicações com DI, Daniel pretende migrar para o Tesouro Direto e comprar
títulos prefixados do governo.
O que ele tem?
Imóveis - 20%
Renda fixa - 30%
Ações - 50%
FUNDOS DE INVESTIMENTOS
Os fundos mais badalados do momento são os multimercado. Eles são indicados para quem quer correr um
pouco de risco, porque permite juntar ações, moedas e derivativos em uma única
carteira. “O ideal é entrar em um fundo de capital protegido, que tenha parte
das aplicações em derivativos e outra parte na bolsa de valores. Quanto mais
diversificado for o fundo, melhor”, diz José Cláudio.Os
fundos de previdência privada também são boas opções de investimento. Das sete
modalidades negociadas no mercado financeiro, cinco tiveram rentabilidade acima
de 10% nos últimos 12 meses. Os cobiçados fundos de ações só são recomendados
para quem não precisa usar o dinheiro em menos de três anos.
DICAS
- Os fundos de investimento são indicados para
quem tem mais de 10 000 reais.
- Não coloque mais que 50% do seu dinheiro nos
fundos e aplique o restante em poupança e imóveis.
- Descubra o seu perfil e diversifique seus
investimentos:
- Se você é conservador, coloque
70% do seu dinheiro em
fundo DI; 25% em renda fixa (CDB e títulos públicos) e
5% em fundos multimercado.
- Se você é um investidor de
perfil moderado, pode aplicar 60% da grana em fundos DI; 25% em
renda fixa; 10% em multimercado e 5% em ações.
- Se o seu caso é o perfi l dinâmico, prefi ra investir 50% em fundos DI; 25% em
renda fixa; 15% em multimercado; e 10% em
ações.
- Se você é arrojado, pode
colocar 40% do dinheiro em
fundos DI; 15% em renda fixa; 5% em fundos de renda
fixa com alavancagem; 20% em fundos multimercado
e os 20% restantes em ações.
Ele está de olho no futuro
Rodolfo Ohl, 31 anos
O administrador de empresas Rodolfo Ohl
é o típico investidor que foi fisgado como muitos pela avalanche de boas
notícias sobre os ganhos com o mercado de ações. Ele sempre investiu em renda
fixa, mas em janeiro do ano passado decidiu entrar na bolsa de valores.
“Coloquei 50% do meu patrimônio em Petrobras, Vale, Banco do Brasil, Natura,
Alpargatas e Bradesco”, diz. O problema é que no ano passado a bolsa despencou
42%. “Estou investindo no longo prazo, não vou mexer na carteira. Acredito que
esses papéis serão os primeiros a se recuperar.” Nos próximos meses ele
pretende comprar mais ações blue chips e migrar dos
fundos DI para um CDB prefixado. “Não descarto a possibilidade de colocar 10%
do meu dinheiro na poupança.”
O que ele tem?
Renda fixa
- 50%
Ações - 50%
CERTIFICADO DE DEPÓSITO BANCÁRIO
Muitos bancos ampliaram os juros pagos nos Certificados de
Depósito Bancário (CDBs) para aumentar o dinheiro em caixa. Quem ganhou foi
o investidor. A partir de 5 000 reais já é possível investir em CDBs, mas o
investimento só fica bom a partir dos 50 000 reais, quando o cliente pode
negociar rentabilidade maior. “Os CDBs prefixados são melhores do que os
pós-fixados devido ao declínio da Selic”, afi rma Marcos Crivelaro.
DICAS
- Os CDBs não sofrem a cobrança do come- cotas —
imposto que incide semestralmente sobre os fundos de renda fixa, DI, multimercado e cambial. A tributação ocorre só no
resgate da aplicação. “Deixe o dinheiro por pelo menos dois anos para que
seja cobrado o menor Imposto de Renda”, diz Marcos Villanova,
diretor de investimentos do Bradesco.
OURO
Os contratos de ouro negociados na BM&FBovespa não passam de oito quilos por dia —
já foram toneladas. Mesmo longe do apogeu, as negociações triplicaram desde o
início da crise entre os investidores que querem proteger seu capital. “Antes
recebíamos de cinco a dez ligações por dia de clientes interessados em comprar
ouro, hoje são 30”,
diz André Nunes, presidente do Grupo Fitta, líder no
mercado de ouro. A alta do dólar e a maior procura por ouro fizeram o preço do metal subir de 54 reais o grama, em setembro de 2008,
para 68 reais no dia 24 de março deste ano, alta de 26%. “O metal pode subir
mais 20% até o final do ano”, diz André.
DICAS
- O investimento mínimo é de 7 000 reais para
comprar 100 gramas
de ouro.
- O mercado tem baixa liquidez.
- Vale a pena para quem tem mais de 100 000 reais.
Por ROSELI LOTURCO
http://vocesa.abril.com.br/edicoes/0130/aberto/materia/mt_448186.shtml