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junho/2001 - Em tempo integral - Revista Você S.A.

EM TEMPO INTEGRAL

Deixar temporariamente o trabalho para cuidar do filho é o sonho de muitas mulheres. O segredo: cuidar das finanças com antecedência

Adiar o sonho de tornar-se mãe em nome do trabalho tem sido a dura realidade de inúmeras mulheres hoje em dia. Algumas, sem coragem para deixar o bebê aos cuidados de uma babá ou de alguma escola infantil, preferem abandonar de vez a idéia da maternidade, já que não podem se dedicar exclusivamente à criança nos seus primeiros anos de vida. Essa história, no entanto, pode ter um final feliz: com um pouco de planejamento e disciplina é possível para a mulher ficar fora do mercado por dois ou três anos (ou ao menos reduzir a carga horária de trabalho pela metade) sem que isso prejudique a carreira ou desestabilize a vida financeira do casal.

É curioso observar que a maioria das pessoas tem plena consciência da necessidade de manter uma reserva para realizar o sonho da casa própria ou do carro novo. Raramente, no entanto, esse mesmo princípio é aplicado quando o assunto é a chegada de um bebê, embora, nesse caso, haja aspectos importantes que não podem deixar de ser avaliados e planejados com antecedência: - a reforma para preparar o quarto do bebê - os gastos fixos mensais com fraldas, roupas e medicamentos - as despesas da mãe com vestuário, médico, dentista e cabeleireiro durante o período de afastamento do trabalho - a possibilidade de o marido assumir a maior parte ou a totalidade das despesas da casa, como água, luz, telefone, supermercado, condomínio etc.

Não é à toa, portanto, que em boa parte dos casos ocorra uma total desestruturação das finanças pessoais do casal depois que o médico anuncia a boa nova. Sem uma programação adequada, os futuros pais acabam perdendo o controle dos gastos. Pior: muitas vezes descobrem, assustados, que não conseguirão manter o mesmo padrão de vida caso a mulher realmente pare de trabalhar. "Filho é um comprometimento com um projeto de vida vitalício, e o casal deve sim se preparar financeiramente para essa realidade", diz a consultora Betty Kitner, do site de finanças pessoais Financenter (www.financenter.com.br).

Betty sabe muito bem do que está falando. Ela é mãe de Carolina, uma robusta menina que nasceu há nove meses. Sua preparação para a chegada do bebê foi exemplar. Casada há dois anos, ela e o marido, Leonardo, já tinham definido, antes mesmo de subir ao altar, quando o primeiro filho do casal nasceria: cerca de 18 meses após o casamento. Foram, aos poucos, montando uma reserva que permitisse comprar os móveis novos para o quarto do bebê e montar o enxoval. O casal levou em consideração também o futuro financeiro de Carolina. "Fizemos um seguro de vida (100 reais mensais) que garantirá, em caso de morte do pai, cerca de 1 000 reais mensais até ela completar 21 anos", explica Betty. A consultora e o marido optaram ainda por um plano de previdência privada, com custo mensal de 100 reais e uma expectativa de acúmulo de capital de aproximadamente 40 000 reais quando Carolina chegar aos 18 anos.

Betty nunca pensou em para de trabalhar, mas reduziu a carga horária diária de 12 para 6 horas. Para isso, conversou com antecedência com seus sócios e organizou um esquema que não prejudicasse os negócios. “Quando há necessidade, trabalho até mais tarde em casa. O importante é que tenho o tempo que realmente necessito para cuidar da Carolina”, diz ela, que em breve será mãe novamente. Sua segunda gravidez, aliás, também foi cuidadosamente programada. Para Betty, um bom planejamento deve começar muito antes de o bebê nascer – dois, três, quatro anos ou mais, se necessário. Eis algumas dicas da consultora para antes e depois do nascimento do bebê:

As despesas médias de uma criança até o terceiro ano de vida giram em torno de 350 reais por mês (valor que não inclui gastos com babá e escola). Se o casal tiver condições de guardar 400 reais mensais durante os dois anos que antecedem a chegada do bebê, conseguirá reunir cerca de 10.800 reais (considerando-se uma rentabilidade bruta mensal do investimento de 1,2% e inflação projetada de 5% ao ano). A quantia é praticamente suficiente para custear os gastos básicos por três anos.

Se o futuro quarto do bebê necessitar de uma reforma, a economia deverá começar ainda mais cedo. Na hipótese de a obra custar 2000 reais, o que é bastante razoável, o ideal é guardar 400 reais mensais cinco meses antes do início da poupança para o bebê – ou seja, com 29 meses de antecedência.

O passo seguinte é garantir o atendimento médico, pois os custos com o parto podem chegar a 8.000 reais. Se o casal não tiver convênio, deverá contratar um plano com pelo menos dez meses de antecedência, período de carência para parto. Há também a opção de contratarem um plano-maternidade diretamente com o hospital. Esses contratos permitem o pagamento em várias parcelas sem juros, garantindo assim a hospitalização da mãe e do bebê. Mas atenção: raramente cobrem os honorários médicos.

Para custear as despesas pessoais da mulher no período de afastamento do trabalho, a saída é cortar os excessos o quanto antes. Gastos com restaurantes, por exemplo, podem ser reduzidos pela metade. Se o casal tiver dois carros, deve avaliar a possibilidade de manter apenas um deles, poupando assim a quantia obtida com a venda do veículo. Gastos com combustível e manutenção também cairão.

Após o nascimento do bebê, uma sugestão para a mulher é comprar apenas roupas básicas, já que passará a maior parte do tempo com a criança em casa. Não há necessidade de gastar com roupas caras, como blazers e tailleurs.

Ficar com a criança em casa nos primeiros anos de vida implica também menos gastos com medicamentos. Uma criança que está na escolinha tem muito mais chances de contrair doenças como gripes e resfriados. É uma economia que não pode ser desprezada.

É importante lembrar que, após o nascimento da criança, a mãe ainda estará empregada e gozando de estabilidade no emprego. Terá quatro meses de licença-maternidade e um mês inteiro de férias (caso tenha direito a elas). Se houver necessidade, poderá ainda solicitar um atestado médico e obter 15 dias extras para garantir a amamentação do bebê. Depois disso, de acordo com a legislação trabalhista, terá de voltar ao batente. É a hora, portanto, de pedir o desligamento da empresa. Os salários referentes a esse período de quase seis meses devem ser administrados com cautela e poupados em sua maior parte. O mesmo vale para o que a mãe receber na hora da homologação. Qualquer dinheiro extra que o casal receber, como 13° salário, bônus, participação nos resultados ou outros prêmios, deve ser utilizado para a formação de uma nova reserva.

A partir do terceiro ano, a família terá um gasto extra: a escola. A mensalidade, em média, é de 400 reais. A nova despesa poderá ser custeada com o salário da mãe, que estará retomando suas atividades. O retorno para a mulher, no entanto, nem sempre é fácil. O ideal é manter algum tipo de atividade ao longo dos três anos de afastamento, como fez Luciana Bittar, 40 anos, diretora do departamento jurídico do banco Merril Lynch. Ela deixou a carreira de lado duas vezes para cuidar dos filhos, Ivan, hoje com 17 anos, e Pedro, de 14. Ficou, na primeira vez, um ano e meio longe do trabalho. Na segunda, foram três anos. Nesses períodos, Luciana cuidava das crianças com grande dedicação, mas, sempre que podia, ajudava a irmã na produção de eventos culturais do grupo artístico Ânima, de Campinas, em São Paulo. "O fato de trabalhar com esse tipo de atividade, soube mais tarde, valorizou muito o meu currículo", diz. Luciana aproveitou também para aprimorar por conta própria idiomas que já dominava: inglês, alemão, francês, espanhol e italiano.

As duas interrupções na carreira, segundo ela, não atrapalharam em nada sua trajetória profissional. Em 1990, quando decidiu voltar ao mercado de trabalho, as propostas não demoraram a surgir. Passou pelos bancos Garantia e J.P. Morgan até receber, há um ano e meio, o convite do Merril Lynch. "Não me arrependo de ter parado duas vezes", diz ela. "Consegui compartilhar momentos importantes com meus filhos." Luciana não fez uma reserva financeira, mas garante que, se tivesse 24 anos e planos para uma nova gestação, certamente faria. Assim como ela, Viviane Marrese Marcato, 40 anos, assistente da diretoria de recursos humanos da Rhodia, não fez nenhuma poupança específica para custear as despesas que teria com a chegada de Catarina, hoje com 3 anos e meio. "Eu tinha uma reserva, mas não exatamente para esse fim", afirma. Em 1996, quando trabalhava na Europa como assessora de imprensa dos cavaleiros brasileiros Nelson e Rodrigo Pessoa, decidiu que era hora de ser mãe. "Eu precisava fazer uma pausa para curtir a gravidez e cuidar do bebê. Não há nada que supra a presença da mãe nessa fase da vida da criança", diz. Para poupar despesas, foi morar com o marido na casa dos pais -- onde permanece até hoje. Após o nascimento de Catarina, em 1997, Viviane dedicou-se integralmente a ela. Quando a filha completou 2 anos, decidiu que tinha chegado o momento de voltar à ativa. Matriculou Catarina em período integral numa escolinha e foi à luta.

Em outubro de 1999, recebeu o convite da Rhodia. "Sempre tive consciência de que voltaria numa condição inferior àquela que tinha na Europa, mas estou dando o máximo para mostrar meu talento. Sei que vou conseguir crescer aqui dentro." A hipótese de uma nova gravidez está descartada. Levando-se em conta sua idade e a posição em que se encontra atualmente, isso realmente seria prejudicial à carreira. "Agora é a hora de recuperar o tempo perdido e investir na carreira. Só há um detalhe: às vezes, sinto muitas saudades de quando tinha todo o tempo do mundo para cuidar da Catarina."

Mauro Silveira

Fonte: Revista Você S.A. – edição 36 – ano 4 – Junho/2001




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