02/agosto/2000 - Atropelados pelas dívidas - Revista Dinheiro
Atropelados pelas dívidas
Abuso do cartão de crédito, débitos da empresa, gastar antes de receber ... Saiba como sair dessa antes de ser massacrado
O advogado Luiz Vitor Luccas, 66 anos, nunca havia passado um cheque sem fundo em toda sua vida. Bem-sucedido na profissão, até 1992 ele possuía renda mensal de R$ 40 mil. Foi quando três pontes de safena o tiraram da ativa. Por seis anos ele trabalhou em ritmo lento e se manteve com a poupança feita durante a carreira. Em agosto de 1998, com as reservas esgotadas, Luccas recorreu ao cheque especial e fez uma dívida de R$ 7.000. “Era para manter meu nível de vida.” Foi o começo de seu inferno. Os juros fizeram a conta chegar a R$ 43 mil. Hoje, além de estar com o nome sujo na praça, ele está sendo processado na Justiça pelo banco credor.
A história do advogado paulista não é exceção. Uma pesquisa feita pelo site de finanças pessoais Financenter mostra que a maioria das pessoas está com a saúde financeira comprometida. Dos 2.849 internautas participantes, 44% estão endividados (em empréstimos e cheque especial), 21% perderam o controle das finanças e precisam de ajuda, 15% gastam tudo que ganham, 10% estão se organizando e apenas 10% não estão endividados e têm reservas. “Praticamente 90% dos participantes apresentam dificuldades financeiras”, avalia Betty Kittner, diretora do site. O desequilíbrio orçamentário não é exclusividade de quem não tem dinheiro. Segundo dados de um dos maiores consórcios de carros do País, 20% da inadimplência acontece na compra de veículos de luxo como Cherokee, BMW e Audi.
Muitos desses casos se assemelham ao do advogado Luccas. Imprevistos como uma doença ou a perda de emprego arrastam as finanças ladeira abaixo. “Há executivos que têm altos cargos com direito a casa, carro e escola pagos pela empresa”, diz a educadora financeira Cássia D’Aquino. “Acham que isso é garantido e não fazem reserva. Se perdem o emprego, o padrão de vida vai junto.” É claro que não é só falta de sorte que leva ao vermelho. Nem todo mundo aceita cortar despesas na crise (confira quadro). Muitos preferem sustentar, mesmo que só na fachada, um alto padrão de vida.
Cartões de crédito e cheque especial são dois dos maiores vilões quando se fala em dívidas. Isso porque muita gente usa os seus limites como se fossem renda. Grave engano. “São as modalidades com os juros mais caros do mundo”, adverte Rodrigo Moratelli, diretor da MCA Consultoria Financeira. Os juros do cheque especial e do cartão de crédito variam de 80% e 215% ao ano. “É mais barato pegar um empréstimo pessoal e saldar os débitos o quanto antes”, diz o advogado Carlos Ely Eluf. Outro erro comum é o do empresário que confunde suas finanças pessoais com as da sua companhia. Fazer retiradas sem controle em seu negócio pode quebrar a empresa e o dono. Achar que o compromisso da pessoa jurídica não vai atingi-lo também pode levar a conseqüências desastrosas. Pela lei brasileira o proprietário pode ter que arcar com as dívidas da empresa, caso a companhia esteja descapitalizada.
“O empresário que tem débitos está arriscando seu patrimônio”, alerta o advogado Ricardo Tosto. Há ainda quem “gaste por conta”. Antes mesmo de conquistar um cliente ou fechar um negócio faz uma grande despesa. Problemas à vista. Reconhecer as suas dívidas é um grande passo para contorná-las. Enganar-se dizendo que está apenas gastando um pouco mais por mês pode levar a uma situação fora de controle. Em tempo: empréstimos dentro da família – mesmo que sem juros e com prazo indefinido – também devem ser contabilizados. Não adianta apagar da memória.
Fabiana Godoy
Fonte: Revista Dinheiro - Edição 153 - 02 Agosto de 2000
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