abril/2000 - Vamos tentar outra vez - Você S.A.
FINANÇAS DE UMA FAMÍLIA
VAMOS TENTAR OUTRA VEZ
As dívidas arruinaram o casamento de Luís Fernando e Maria Inês. Mas agora eles estão reatando. Seu maior desafio? Planejar direito as finanças
Há cerca de quatro anos, o analista de sistemas Luís Fernando Terenzi, 34 anos, e sua mulher Maria Inês Oliveira de Figueiredo, 33, entraram numa profunda crise financeira. Perderam quase todo o patrimônio da família, porque não conseguiram bancar o financiamento do apartamento que haviam adquirido em Belo Horizonte, cidade onde moram atualmente. Mas a crise não atingiu somente o bolso do casal. Ela arruinou também o casamento. No início de 1996, depois de se livrarem do financiamento e pagarem todas as dívidas, Luís Fernando e Maria Inês se separaram. Ela foi morar num apartamento alugado com as duas filhas, Mariana, 9 anos, e Luísa, 7. E ele voltou para a casa dos pais. Depois de vários encontros durante 1999, resolveram reatar o casamento no início deste ano. O problema é que, em função da experiência anterior, ficam aterrorizados só em pensar em organizar o orçamento do mês. Querem começar uma vida nova, mas sem repetir os erros do passado. Para isso, vão ter que se disciplinar e planejar melhor sua vida financeira.
Dúvidas envolvendo as finanças não faltam, e não é nada difícil entender o motivo. Além do passado atribulado, Luís Fernando e Maria Inês são completamente diferentes na maneira de administrar o dinheiro. Ele sempre foi um consumidor compulsivo. Chegava a retirar sete filmes na locadora nos fins de semana, sendo que só conseguia assistir um. Quando gostava de uma roupa, não pensava duas vezes antes de assinar o cheque e comprar. Prefere compras a prazo. "Até anoto os gastos no canhoto do talão de cheques, mas nunca uso as anotações para me controlar", afirma Luís Fernando. Maria Inês é o oposto. Controla todas as despesas. Paga tudo à vista. Sabe quanto pode gastar no mês. Mal recebe o salário, já deposita boa parte dele na poupança.
Nos primeiros anos do relacionamento, que começou em dezembro de 1985, essas diferenças eram administradas facilmente. Mesmo porque Luís Fernando sempre teve um bom salário, trabalhando como analista de sistemas. Ele começou a carreira na IBM, em Belo Horizonte. Depois, em 1991, já casado e com Mariana, a primeira filha, recém-nascida, foi transferido para Uberlândia. A adaptação foi fácil. "A cidade é pequena e tínhamos uma ótima qualidade de vida", afirma Maria Inês. Ela também acabou arrumando um emprego na cidade, na mesma área do marido. Maria Inês também é analista de sistemas. No entanto, em 1994, em função de uma reestruturação na empresa, Luís Fernando foi transferido para o Rio de Janeiro. Mesmo sob protesto, a família acabou se mudando para o Rio - mas não se adaptou. Maria Inês se sentia sozinha na cidade grande e não tinha estímulo algum para criar raízes ali. Em um ano, a situação ficou insustentável.
Foi nesse período, em 1995, que Luís Fernando pediu demissão da IBM e resolveu voltar para Belo Horizonte, onde moram os parentes do casal. Seu objetivo era retomar os negócios que Maria Inês havia iniciado em Uberlândia. Lá, ela trabalhava para a Amway, empresa que atua com marketing de rede (comércio baseado em vendas em domicílio, cujo objetivo é aumentar o número de pessoas que vão vender, consumir e trazer mais participantes para a rede). Além disso, Luís Fernando assumiria a empresa de treinamentos de executivos de seu pai.
Em Belo Horizonte, eles compraram um apartamento novo para fugir do aluguel. Como não tinham condições de bancar o valor total do imóvel, entraram num financiamento imobiliário. No entanto, os planos do casal não deram certo. As vendas da Amway não cresceram. O salário da empresa de treinamento de executivos não era suficiente para manter o padrão de vida da família. O resultado é que Luís Fernando e Maria Inês se viram rapidamente no vermelho. A renda não cobria mais as despesas do mês. Tiveram, então, que pedir dinheiro emprestado para os pais. Cortaram gastos. Venderam o carro. Mas nada disso foi suficiente. O casal teve que partir para a solução radical: vender o apartamento e se livrar do financiamento. Depois de pagar todas as dívidas, sobraram apenas 25 000 reais.
Como já estavam no meio de uma crise, sem conseguir fechar as contas do mês, os 25 000 reais viraram pó em seis meses. Foi justamente neste momento, em julho de 1996, que o casamento não resistiu. "Nossas diferenças se tornaram insustentáveis", afirmam os dois. Maria Inês mudou-se para um apartamento alugado com as filhas. E Luís Fernando foi para a casa da mãe. Nesta altura o patrimônio da família já tinha ido por água abaixo. Tanto ela quanto ele tiveram que começar tudo de novo -- só que cada um do seu jeito. Maria Inês arrumou um emprego. Foi trabalhar numa empresa que presta serviços para a Telemar, como analista de sistemas. Luís Fernando foi para a Impsat Fiber Networks.
Apesar de estarem separados, sempre mantiveram um bom relacionamento - e talvez por conta disso, no ano passado houve uma reaproximação. Em junho, a família toda foi para Búzios. Mas Luís Fernando e Maria Inês não chegaram a um acordo em relação ao casamento. Em agosto, o casal voltou a conversar sobre a possibilidade de reatar. E no Natal, finalmente, tomaram a decisão.
É claro que muita coisa mudou nesses quatro anos. Luís Fernando se diz muito mais cauteloso em relação aos seus gastos. Até cancelou a compra das alianças numa loja de um amigo em Belo Horizonte porque Maria Inês havia conseguido a jóia por um preço mais acessível com uma amiga. "Se fosse em outra época ele jamais desistiria do pedido", afirma Maria Inês. Por outro lado, ela se diz muito mais flexível. "Não acho que temos que ser radical, é só preciso ficarmos atentos a cada decisão de gasto", diz. Na teoria, o casal está realmente afinado. O problema é a prática. Na verdade, eles não sabem como administrar a renda líquida mensal de 11 000 reais da família. Têm dúvidas de onde aplicar seu dinheiro. Como organizar seus gastos, o que priorizar no orçamento do mês. Sem falar nos planos para o futuro.
A partir deste mês, a vida dos Terenzi vai mudar significativamente. Maria Inês vai se instalar com as crianças na casa da mãe de Luís Fernando (nesse meio tempo nasceu a segunda filha, Luisa). O objetivo? Economizar o aluguel e o condomínio que ela estava pagando até que possam ir para o novo apartamento. Em julho, a família se muda para a cobertura duplex de 160 metros quadrados, que acabou de adquirir no bairro Carlos Prestes, em Belo Horizonte. Aliás, esse é seu primeiro negócio nesta nova fase. Eles deram uma entrada de 75 000 reais no imóvel (23 000 reais da poupança de Maria Inês, 7 500 reais da conta corrente de Luís Fernando, 4 500 reais da venda do carro de Maria Inês e 40 000 reais da venda do flat de Luís Fernando). E os 55 000 reais restantes serão financiados (130 000 reais é o valor do imóvel). O casal só não sabe que tipo de financiamento deve fazer.
Esse não é o único problema de Maria Inês e Luís Fernando. Por estarem num processo de transição, eles não sabem se a renda da família cobrirá as despesas. Não sabem se sobrará ou faltará dinheiro no final do mês. No total, suas despesas somam 7 280 reais. Os maiores gastos serão com o financiamento do imóvel, que será de 1 550 reais a partir de agora e com o leasing do automóvel de Luís Fernando, que é de 950 reais. Além disso, eles gastam 610 reais com cursos extracurriculares e 464 reais com despesas médicas extras, como psicóloga para as crianças. Outro problema da família diz respeito à poupança. Para comprar o novo apartamento, todas as reservas que tinham foram limpas. Hoje, eles não têm absolutamente nada aplicado. Se houver algum gasto extra para cobrir uma emergência terão sérios problemas.
E mais: Luís Fernando e Maria Inês têm planos para o futuro. No curto prazo, querem mobiliar o apartamento novo. Para isso, vão vender os móveis antigos, embolsar cerca de 2 000 reais e comprar tudo novo. A expectativa é que desembolsem cerca de 10 000 reais. O casal tem uma lista que batizou de "pequenos prazeres de consumo". Nela estão incluídas a compra de um home theater, de equipamentos de ginástica e tratamentos de estética para Maria Inês. A médio ou longo prazo, pretendem comprar um segundo carro, se possível, uma caminhonete. Também pretendem fazer uma boa viagem por ano. O próximo destino já está definido: será a Disney. Além disso, a longo prazo, pretendem criar uma poupança para pagar os estudos das filhas. Seja para garantir a escola particular a partir do segundo grau ou para cobrir os gastos de um intercâmbio. Os pais preferem esperar para decidir pelo intercâmbio quando elas estiverem um pouco maiores. Maria Inês também quer iniciar um novo hobby: fotografia. Para isso, terá despesas com cursos e equipamentos.
O QUE FAZER
"Luís Fernando e Maria Inês têm uma sobra razoável no orçamento, mas só conseguirão atingir seus planos se administrarem esse dinheiro com disciplina", afirmam Betty Kitner e Marcio Barreto, sócios do site de consultoria financeira www.financenter.com.br .VOCÊ s.a. levou o caso da família Terenzi para os especialistas. De acordo com eles, a melhor forma de colocar as finanças do casal em ordem é criar obrigações para cada etapa desta nova fase. Eis os detalhes da estratégia sugerida pelos consultores.
O FLUXO DE CAIXA
A notícia é boa para a família Terenzi. O fluxo de caixa de Luís Fernando e Maria Inês é positivo. Ou seja, há uma sobra mensal de 3 719,60 reais. Os gastos totalizam 7 280,40 reais. Eles ainda não perceberam que há essa sobra porque estão passando por um processo de transição. Vão morar juntos a partir deste mês e começam uma nova etapa. Mas em breve, se seguirem as sugestões dos consultores, poderão checar a sobra no próprio bolso.
A RESERVA FINANCEIRA
Ter a sobra no final do mês facilitará muito a vida do casal, mas não é suficiente. É preciso fazer um planejamento dos investimentos - e isso é urgente, já que com a compra do apartamento Luís Fernando e Maria Inês estão completamente desprotegidos. Não têm reserva alguma. Portanto, montar essa poupança deve estar entre as prioridades do casal nos próximos anos. E para isso devem separar inicialmente 30% da sobra mensal (aproximadamente 1 100 reais). Como Maria Inês é conservadora e Luís Fernando é mais arrojado, os consultores sugerem que eles dividam as aplicações da seguinte forma: 20% do valor deve ir para fundos de renda variável (ações) e 80% para fundos de renda fixa tradicional (com papéis prefixados). "Com isso, eles diversificam os recursos e obtêm rendimentos superiores aos da poupança", afirmam Betty e Barretto. Supondo um rendimento bruto de 1,2% ao mês e uma inflação anual de 6%, em um ano (maio de 2001) a reserva do casal será de 13 800 reais. Eles devem continuar investindo. Em três anos (2003), esse valor já será de 44 440 reais.
O FINANCIAMENTO DO IMÓVEL
Luís Fernando e Maria Inês já compraram o novo apartamento. Como pagaram apenas 75 000 reais, de um total de 130 000 reais, tiveram que fazer um financiamento do restante. Neste caso, os consultores sugerem que o casal opte pelo Sistema Sacre de amortização. "As parcelas são sempre fixas para um período de 12 meses e tendem a decrescer ao longo dos anos", dizem. Isto significa que eles teriam desembolsos maiores nos primeiros anos e aos poucos as parcelas diminuiriam. Vale ressaltar que, segundo os cálculos dos consultores, o total de juros no Sistema Sacre é menor que o do sistema de amortização da Tabela Price. Esse sistema, no entanto, só é oferecido pela Caixa Econômica Federal. Além disso, o casal não pode se esquecer de contratar um seguro que garanta o pagamento do financiamento em caso de morte do titular da conta. Eles custam, em geral, 15% do valor da prestação. Portanto, devem gastar cerca de 230 reais por mês com essa despesa.
A APOSENTADORIA
O objetivo de Luís Fernando e Maria Inês é se aposentar com um rendimento mensal de 5 000 reais. E devem começar já a se preparar para isso. Afinal, quanto mais cedo iniciarem o investimento, menores serão os desembolsos mensais. Considerando a idade atual de 33 anos, contribuição de 22 anos (aposentariam aos 55 anos) e uma renda de aposentadoria de 5 000 reais durante 20 anos, o casal deveria contribuir desde já com 1058,13 reais mensais. A simulação feita pelos consultores estimou um rendimento mensal do investimento de 1,2% e uma inflação anual de 6%. Mas esses valores podem mudar um pouco de acordo com cada seguradora do mercado. De qualquer forma, o produto disponível no mercado mais adequado as necessidades do casal é o PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre).
O SEGURO DE VIDA
Hoje Luís Fernando e Maria Inês têm juntos três seguros de vida. O que resulta numa cobertura de 76 000 reais para morte natural, 167 000 reais para morte acidental e 135 000 reais para invalidez. Apesar de gastarem muito pouco com eles, por serem subsidiados (um deles é até gratuito), não são adequados para o casal. O total do seguro para morte acidental (167 000 reais), por exemplo, geraria aproximadamente uma renda de 2 000 reais mensais por 16 anos, o que seria insuficiente para manter o padrão de vida da família, de acordo com os consultores. Dessa forma, o casal deveria renovar ou comprar apenas um seguro com uma cobertura para morte acidental de 500 000 reais. Isso garantia uma renda de 7 500 reais por 16 anos, suficiente para garantir as despesas de Mariana e Luísa até que completassem 23 e 25 anos. De acordo com as simulações realizadas por Betty e Barretto, com esse novo seguro o casal teria um acréscimo mensal nas despesas de 462 reais.
A VIAGEM PARA A DISNEY
O dinheiro da viagem para os Estados Unidos poderá ser retirado também da sobra mensal. A previsão do casal é de gastar cerca de 3 500 dólares (aproximadamente 6 000 reais) com esse programa. Os consultores acham esse valor baixo. Mas, de qualquer forma, eles poderão iniciar uma poupança específica para esse objetivo. De acordo com as simulações do site www.financenter.com.br , eles teriam que desembolsar 482 reais mensais durante 12 meses, considerando que o dinheiro seja aplicado num fundo de renda fixa tradicional (rendimento médio mensal bruto de 1,2% e inflação anual de 6%).
OS OUTROS PLANOS
Somando todos os novos gastos da família, com seguro de vida, poupança para a Disney, aposentadoria, seguro para financiamento imobiliário e reservas, ainda sobrariam cerca de 375 reais todo o mês. Esse valor pode ser usado primeiramente para que Luís Fernando e Maria Inês mobiliem o apartamento novo. Depois pode ser usado para montar a academia em casa, comprar o equipamento de fotografia de Maria Inês, ou home theater. É claro que isso precisa ser feito ao longo dos anos. Poderão eventualmente até usar uma parte da reserva de emergência para isso também. Mas com muita cautela. Sempre deve haver um colchão de proteção financeira para situações inesperadas.
Após a viagem para a Disney, daqui a um ano (abril/maio de 2001), o casal não terá mais a despesa de 482 reais. Até junho de 2001, Luís Fernando também terá terminado a pós-graduação. Portanto, haverá mais uma sobra de 275 reais mensais. Essa sobra, que totaliza 757 reais, também deve ser aplicada em fundos de investimento de renda fixa (80%) e variável (20%). "Eles podem utilizar essa parcela da poupança para a educação das filhas, que poderiam ir para uma escola particular no início de 2002 ou mesmo para bancar o intercâmbio mais tarde", afirmam. Se preferirem, podem continuar a usar uma parte dessa sobra para as viagens, que também estão em seus planos.
O SEGUNDO CARRO
A caminhonete deve ficar para o médio prazo. Ou seja, para depois de 2004. "O casal poderá pensar no carro quando estiver acabando de pagar o financiamento do apartamento", afirmam.
INTERNET
Os consultores afirmam que todas as simulações apresentadas no caso de Luís Fernando e Maria Inês foram feitas no site www.financenter.com.br . Antes de tomar as decisões, o casal pode (e deve) acessar a página na Internet e fazer novas simulações. "Esse exercício vai ajudá-lo a tornar-se mais disciplinado em relação às suas finanças", dizem.
Dalen Jacomino
Fonte: Revista Você S.A - Edição 22 - Ano 3 - Abril/2000
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