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Consumo Consciente do Dinheiro e do Crédito

Consumo Consciente do Dinheiro e do Crédito


Honrado em ter sido convidado em  Agosto próximo a debater este tema  com  outros convidados do Instituto Akatu, uma conhecida e reconhecida Ong que se preocupa com o consumo consciente, acedi imediatamente.

Como o tema  a ser desenvolvido é muito atual, resolvi   dar o título do futuro debate   a esta matéria.  Afinal este é um dos meus assuntos favoritos, mas ao contrário,  certamente  não é dos assuntos que as  entidades governamentais e privadas mais gostam de debater. Por que será? Eu mesmo respondo.

Porque “Consumo  consciente do dinheiro e do crédito” passa forçosamente  por aspectos e argumentações muito delicados que envolvem  sérios compromissos sociais e comunitários,  além de certamente, suscitar debates a respeito de  moral e   ética.

Estes assuntos costumam ser   abordados em belos discursos, muitas vezes de efeito bombástico, mas raramente acabam  sendo colocados em prática  no dia a dia.

Não faz parte do  meu estilo rodear um bom argumento e por essa razão entro diretamente  no âmago da questão.

Preocupar-se com o dinheiro e o crédito do povo  é dever do Estado, significando que é  um dos múltiplos  compromissos de nossos   governantes com os eleitores. Vejam bem. De  qualquer governo,  e não especificamente deste ou daquele partido que no momento possa estar no poder.

A  mais recente versão da nossa Carta Magna de 1988 não está sendo respeitada quando no capítulo II dos Direitos Sociais, artigo 6º  diz textualmente;

são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho , o lazer, a segurança, a previdência etc.” Vejamos porque.

A educação básica para nossas crianças está cada vez pior e para fugir  dela, podemos  até  dizer  “ em frangalhos” A classe média  com muito sacrifício ainda pode  buscar a escola particular, mas  como ficam as classes ditas   populares?  Professores que deviam ser honradas em sua elevada função social de educarem, estão fugindo  do magistério devido aos miseráveis salários que recebem.   Conseqüentemente, em concursos internacionais e nacionais, que medem as qualificações dos alunos de nossas escolas, ocupamos sempre os  últimos lugares.

A saúde pública  igualmente  está  desestruturada  para quem por falta de outras opções, tiver de fazer uso dela. Conseqüentemente a classe média gasta  uma boa parcela dos seus ganhos em planos de saúde emitidos pela iniciativa privada, também por falta de alternativas fornecidas pelo Estado. É melhor deixarmos de  falar do estado calamitoso das clínicas,  ambulatórios, hospitais populares etc.

Vamos à Previdência. Levantamentos feitos por  minha empresa, a Personal Financial Planning, demonstram que apenas 2% da nossa população chega aos 65 anos de idade com o minimamente suficiente para não ter mais de trabalhar. Conseqüentemente na velhice, as classes C,D,E e parte da classe B terão de depender de si mesmos ou da caridade de entidades beneficentes ou de familiares mais abonados, pois a aposentadoria ou pensão a ser recebida  do INSS será  insuficiente  para as sustentarem com um certo grau de dignidade.

Alguns mais afoitos dos leitores, a esta altura me perguntarão; mas o que tudo  isso tem a ver com  consumo consciente?

Aguardem que recém estamos nos aproximando do âmago da questão.

Ignorando os outros itens e benefícios que o Estado deveria fornecer, e citados no artigo 6º da Constituição, e  levando em conta apenas os três itens acima expostos, vou me referir aos absurdos tributos que pagamos, (incluídos obviamente aqueles cobrados  no âmbito Federal, Estadual e Municipal) que, indubitavelmente  deveriam nos proporcionar  o direito de receber todos aqueles serviços públicos gratuitamente.

Segundo o IBPT, (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário) entretanto,  aqueles tributos,  neste mesmo  momento já alcançam 41,42 % do   PIB nacional. Infelizmente a verdade é que o cidadão brasileiro  simplesmente não  recebe  os benefícios prometidos na Constituição pelo Estado, e portanto deverá  pagar  os mesmos serviços novamente, esta vez para a iniciativa privada.

Estará portanto pagando duplamente.  Ao Estado e à Iniciativa Privada!

E eis a pergunta que não cala;  pagando duplamente, de que maneira   poderá consumir conscientemente?

Com a dificuldade de empregar-se, com os elevados custos dos serviços públicos,        aumentando sempre acima da inflação, de que maneira  poderá consumir  conscientemente?  Infelizmente o poder aquisitivo da maioria de nos cidadãos, está diminuindo de ano para ano e estudos  acurados a respeito confirmam ste fato.

Nosso infortúnio e miséria não param por  aí.   Levantamentos atuais indicam que 85%  da nossa população está endividada, parte destes desamparados  estão totalmente inadimplentes segundo a Serasa e outros órgãos que medem estas desgraças.

O site da Internet, da qual sou sócio, www.financenter.com.br ,  praticamente quase todos os dias recebe pedidos de socorro de cidadãos que   se dirigem a nos   por não saberem como sair da embrulhada e nos pedem ajuda.

Uma das razões, mas sem dúvida não sendo a única, é a elevada taxa de juros  dos cartões de crédito, do cheque especial e do crédito ao consumidor  das instituições financeiras, administradoras de cartões, comerciantes etc.

Esta  taxa de juros, nos dias de hoje, é a mais elevada do mundo!  

Após expor acima algumas das razões  das dificuldades de nossa gente com o consumo  e crédito consciente,   faço agora a seguinte indagação: 

a culpa será da população que não sabe  como se defender ou de nossos governantes,  dos políticos  e de muitas de nossas  elites ?

Acredito sinceramente,  que uma grande parte da solução passa por algo chamado educação financeira das classes populares, que deveria ser  dada tanto nas escolas, como através de campanhas de esclarecimento pela TV e outros veículos da mídia.

Acredito também que os juros deveriam cair verticalmente, promovido pelo governo em primeiro lugar, ao baixar a taxa básica e os impostos incidentes sobre o crédito e em seguida pelos banqueiros, que deveriam se contentar  com lucros menores  sobre a concessão de crédito àqueles  que desejam iniciar  seus próprios negócios e adquirir bens de consumo, mas  que hoje  são sufocados pelas elevadas taxas  e despesas cobradas.

A ANEFAC, (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade) em levantamento feito em 2003 concluiu que em média 30% da receita mensal do trabalho das pessoas é utilizada para pagar  os juros de suas dívidas. Quanto então poderá sobrar para a obtenção de uma melhor qualidade de vida e ser gasta em itens fundamentais e indispensáveis do orçamento doméstico?

Termino perguntando, após expor  com total  franqueza  a real   situação da nossa população, se é dessa maneira  humanamente possível  consumir  e conscientemente  o dinheiro e o crédito?

Como Planejador Financeiro que procuro ser   há tantos anos, acostumado a dar palestras  a respeito de educação financeira, com  todas as classes sociais, a minha resposta é um categórico NÃO.

Alguma coisa deve ser feita urgentemente para reverter este   patético  quadro  de miséria e desesperança que a todos nos, que temos um mínimo de dignidade e consciência,  comove,  mas ao qual atualmente não é dada qualquer solução.

A palavra está com nossos governantes, legisladores e elites dirigentes do país!

Louis Frankenberg, CFP™


jul/2005

 

 

 





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