A previdência e o risco
A
crise internacional dos mercados financeiros pegou os investidores de
previdência privada em pleno processo de aumento de risco de suas aplicações.
Com a taxa de juros no menor nível da história do país, muitos resolveram
diversificar com fundos que investem em ações. Dados
do relatório mensal do site financeiro Fortuna mostram que cresceu fortemente
em julho a captação em fundos de renda variável, ou seja, ações e multimercados, enquanto os fundos DI e renda fixa tiveram
saques pela primeira vez.
Diante
da correção atual dos mercados, no entanto, muitos se perguntam o que fazer:
manter as aplicações ou migrar? Os especialistas dizem que não há motivos
para pânico, já que, pela legislação, os planos de previdência podem aplicar
no máximo 49% dos recursos em ações, sendo o restante em renda fixa, o que
dilui as perdas. Outra razão para o investidor manter a calma é que esses
fundos têm uma tributação diferente e que pune os que sacam no curto prazo.
Portanto, o risco para os afobados é perder dinheiro no mercado e no imposto
de renda ao sacar.
Uma
das vantagens é que ninguém aplica uma parcela grande do patrimônio em previdência. Em
geral são aplicações menores e periódicas, que diluem as perdas ao longo do
tempo. E que têm de ter horizonte de longo prazo, lembra Antonio Cássio dos
Santos, presidente da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) e da Mapfre Seguros.
"Qualquer que seja a decisão de investimento, o objetivo é sempre
maximizar o volume acumulado, portanto, um portfólio
diversificado é muito importante", diz. "A experiência mostra que,
no longo prazo, a bolsa tende a superar a renda fixa".
A
queda da bolsa abre muitas oportunidades de investimento, pois as companhias
continuarão pagando bons dividendos, avalia Paulo Werneck, diretor da asset da Icatu Hartford. "Não dá para dizer por quanto tempo a
volatilidade vai continuar, mas não houve alteração nos fundamentos da
economia brasileira, o que faz da bolsa um ativo que continua
interessante", diz. E o executivo dá um conselho não só para quem tem
planos de previdência com renda variável, mas para todos os investidores de
ações: "Não adianta se desesperar, qualquer decisão emocional neste
momento corre o risco de ser equivocada." Para o executivo, se o investidor
ficar desesperado e atingir um determinado limite estipulado por ele mesmo
para perdas, é melhor realizar o prejuízo e voltar para a bolsa mais tarde.
"Para o investimento em bolsa, é preciso disciplina."
Dados
do relatório mensal do site financeiro Fortuna - feito com exclusividade para
o Valor - mostram que, somente em julho, R$ 1,234 bilhão ingressaram
em planos que aplicam em ações, classificados como balanceados ou multimercados. O número supera a captação de R$ 857
milhões desses fundos em junho, até então, o melhor mês para a categoria. Em
contrapartida, entre os DI e renda fixa, houve resgates de R$ 192 milhões em
julho, ante entradas de R$ 204 milhões no mês anterior.
Quando
se observa o levantamento geral pode-se ver, no entanto, uma diferença em
relação ao gráfico. Por exemplo, os DIs
apresentaram em julho resgates líquidos (entradas menos saídas de recursos)
de R$ 8 milhões enquanto na renda fixa a captação líquida somou R$ 435
milhões no mês. Segundo Marcelo D"Agosto, sócio do
Fortuna, essa diferença se deve porque muitos fundos balanceados ou multimercados dividem os recursos que recebem comprando
cotas de carteiras de renda fixa e de ações. Isso acaba inchando a captação
da renda fixa quando se olha somente a categoria geral, diz.
Os
saques nos fundos DI e Renda Fixa em julho no levantamento especial chamam
ainda mais a atenção quando se observa que essas carteiras representam cerca de 85% do mercado de fundos de previdência, para
apenas 15% dos fundos balanceados e multimercado,
diz o relatório do Fortuna.
Se
o mercado continuar muito tenso, essa tendência de aplicações em renda
variável poderá se reverter, afirma Marco Antonio Rossi, diretor-presidente
da Bradesco Vida e Previdência. "Mas ainda é muito cedo para
saber", avalia. O investidor de previdência tem um objetivo que é de
longo prazo, portanto, tem de olhar a aplicação num prazo maior, de 10 ou 15
anos. "Portanto, não faz sentido ficar olhando a rentabilidade no
mês."
Para
quem está mais próximo de se aposentar, os especialistas do setor recomendam
maior conservadorismo. Já para aqueles que permanecerão na aplicação durante
muitos anos, é possível arriscar um pouco mais, pois esses movimentos de
correção na renda variável tendem a se diluir no longo prazo, diz Rossi. O executivo conta que, no Bradesco, há dois anos, 90% dos
recursos em planos de previdência estavam em renda fixa e hoje esse
percentual é de 65%.
Normalmente,
quando o cenário não está muito bem definido, os gestores dos fundos de
previdência tendem a reduzir a parcela investida em bolsa, lembra Renato
Russo, vice-presidente de Vida e Previdência da SulAmérica. Se o gestor pode investir até 49% em
ações, isso não quer dizer que o tempo todo ele aplique esse percentual
máximo em renda variável. Outro alento é que, pela legislação, os planos
voltados para a aposentadoria são impedidos de se alavancar,
ou seja, aplicar mais recursos do que têm em
carteira, o que também limita as perdas.
Na
opinião de Russo, o momento pode ser de oportunidade, embora isso não
signifique que não haverá muita volatilidade. São os estrangeiros que estão
saindo da bolsa brasileira para gerar caixa para liquidar os problemas que
eles têm lá fora, mas por aqui a economia continua robusta e as companhias
mantêm lucros altos, diz. Para quem está num plano com ações, ele recomenda
ao investidor não fazer qualquer tipo de migração. "Por mais que o
cenário não esteja definido, não é o caso de se reposicionar,
principalmente quando se fala em previdência."
Mesmo com
as perdas registradas pelo Índice Bovespa, 6,37% só nesta semana, os
investidores continuam aplicando em fundos mais arriscados, principalmente os
clientes de maior poder aquisitivo, diz Cássio dos Santos, da Mapfre. Segundo ele, a recomendação para os planos com
ações tem partido de "family offices" (escritórios de gestão de grandes fortunas)
ou de private banks.
Luciana Monteiro
Valor Econômico
http://clipping.planejamento.gov.br/