Não é mais possível ficar de fora do debate da aposentadoria
Os
canadenses têm mais medo de procurar um investimento para garantir a
aposentadoria do que ir ao dentista. Já os neozelandeses pensam pouco sobre o
assunto, cerca de 30% das famílias daquele país gastam mais do que ganham.
Entre os americanos, quatro em cada dez não guardam um centavo para o dia em
que pararem de trabalhar. E entre os japoneses, 71% deles não têm nenhum
conhecimento sobre ações. E você, o que pensa sobre aposentadoria?
Bem,
se você tem seus 20 e poucos anos nem sequer está lendo a coluna. Já se sua
faixa etária é dos 30 aos 40 anos, está mais preocupado em trocar de carro,
comprar uma casa ou numa promoção que vai viabilizar essas duas conquistas.
Mas se já chegou aos 50, provavelmente está aflito com mais esse corte na
taxa de juro que o Comitê de Política Monetária (Copom)
sancionou na semana passada.
Os
brasileiros, a maioria eufórica com a oferta de crédito que
começa a se multiplicar no país, vão chegar ainda mais atrasados ao
importante debate sobre aposentadoria do que japoneses, americanos,
neozelandeses e canadenses. E provavelmente haverá algumas gerações que vão
sofrer mais por conta desse atraso do que se estivessem na cadeira do
dentista para a extração de dentes.
O
brasileiro, além de todos os tópicos do debate internacional, que inclui
longevidade, aumento da idade mínima e poucas reservas financeiras, terá de
acrescentar mais um: a taxa de juro no país está caindo depois de mais uma
década em que alcançou um nível médio de cerca de 20% ao ano! E um país com taxas de juro baixas, o que ainda não é o caso
brasileiro, embora o país esteja caminhando para este cenário, é um mundo
completamente diferente. Um mundo melhor, é bom que se esclareça, mas que vai
exigir de você uma sintonia com este novo cenário.
Silvio
Luís Samuel, consultor da diretoria de administração de carteiras do Banco
Itaú, fez uma pequena simulação para mostrar o grande impacto que essa
mudança nas taxas de juro vai provocar em sua carteira de investimento.
Uma
aplicação de R$ 300 mensais por 40 anos a uma taxa média real (descontada a
inflação) de 10% ao ano resultaria ao final do período num montante de R$ 1,8
milhão. Mas se essa taxa média cair pela metade, seu sonho de se aposentar
como um milionário ficará seriamente comprometido. A mesma aplicação pelo mesmo
período, mas com um retorno médio de 5% ao ano acima da inflação vai resultar
em R$ 460 mil.
Para
dramatizar o efeito da diferença nos valores, Samuel recorre à metáfora usada
por Robert Haugen no livro "The New Finance". É a
diferença entre se aposentar no "Diamond Head" (localidade de luxo em Waikiki)
ou no "Diamond Bar" (subúrbio pobre de Los Angeles). E Haugen
acrescenta: mesmo no "Diamond Bar", você
precisará de alguma ajuda do seu tio rico...
Nos
últimos anos, você só precisou se preocupar em ter os R$ 300 mensais. A
aplicação para entregar esse retorno era a renda fixa: compra de títulos do
Tesouro que pagavam taxas altíssimas. Agora é diferente. Você terá de dedicar
uma fatia a investimentos de maior risco para conseguir aumentar o retorno de
sua carteira e saiba que esperar uma média de 10% ao ano é extremamente
ambicioso. Mas esse é apenas um aspecto a que você terá de prestar atenção. O
debate sobre aposentadoria tende a ser maior e vai ter reflexos em vários
aspectos de sua vida. Prepare-se.
Na
semana passada, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE) divulgou estudo mostrando que o valor médio da pensão esperada para
aposentados em 17 países da OCDE caiu 22% depois que reformas na previdência
oficial foram feitas. Para mulheres, o corte chegou em
média a 25%. No México e em Portugal, a redução chegou a 30%.
A
medida mais comum nessas reformas foi uma mudança na idade mínima para a
aposentadoria. Quando as reformas forem finalizadas, a maioria dos países da
OCDE terá adotado como padrão idade mínima de 65 anos para a aposentadoria.
Contudo, em países como Dinamarca, Alemanha, Islândia, Noruega, Reino Unido e Estados Unidos, a idade mínima para a
aposentadoria deve chegar aos 67 anos. O estudo diz ainda que aposentadoria
precoce, abaixo dos 60 anos, é um problema em muitos países e tem sido
responsável por pressionar as finanças públicas dessas economias.
Simplesmente
já não é mais possível ficar de fora desse debate. Esperar que seu patrão ou
o governo paguem essa conta é de uma ingenuidade
tamanha que poderá levá-lo a passar dificuldades no futuro. Tem motivos,
portanto, os canadenses em ficarem estressados. Entre eles, diz a pesquisa do
Royal Bank of Canada em conjunto com o Ipsos,
numa escala de estresse, planejar o futuro financeiro perde apenas para
situações como pedir alguém em casamento (no topo do ranking), fazer uma
prova, fazer uma apresentação em público e pedir um aumento ao chefe.
Mara
Luquet é editora da revista ValorInveste e autora do livro O Assunto é
Dinheiro, escrito em parceria com o jornalista Carlos Alberto Sardenberg
Mara Luquet
Valor Econômico
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