Vai um risco aí?
Fundos
de previdência privada com parcela em renda variável voltam a receber
aplicações, com incentivo das empresas seguradoras.Uma valorização de mais
de 50% no Ibovespa fez com que o setor de previdência privada começasse a
incentivar de forma mais direta o poupador a voltar para o mercado de renda
variável. Instituições como HSBC e Itaú selecionam clientes que têm mais
disposição ao risco para aumentar sua exposição na bolsa
Desde maio, a captação dos fundos PGBL e VGBL que têm fatias em renda
variável tem sido positiva e somava, até julho, R$ 1,15 bilhão. Nos quatro
primeiros meses do ano, a movimentação era negativa, em R$ 909,78 milhões. No
ano, a captação acumulada era de R$ 248,71 milhões.
No HSBC, os consultores começam a selecionar um público seleto, mais jovem, e
que tenha maior propensão ao risco e a realocar seus investimentos. "Nós
escolhemos um público restrito, que só tem renda fixa em seu perfil, mas que
ainda pode migrar", conta o diretor de Varejo e Seguros, Edson Lara. O
incentivo pode vir do desempenho da aplicação. Enquanto a rentabilidade dos
fundos que aplicam 100% em renda fixa foi de 4,72% até junho, o retorno dos
portfólios de renda variável mais arrojado, com 49% em ações, ganhou 21,70%.
O resultado é que, no primeiro semestre, a captação líquida dos fundos de
previdência do HSBC ultrapassou os R$ 151,5 milhões, segundo dados de uma
pesquisa feita pelas consultorias Net Quant e Towers Perrin.
No entanto, para o banco, ainda é arriscado e prematuro fazer uma ação de
grande alcance. No ano passado, migraram para renda variável de 20% a 30% dos
clientes. Este ano, o percentual ainda não atingiu 10%. "O mercado
precisa se estabilizar", diz Lara. Já os novos clientes são levados a
colocar parte de seu patrimônio nessas aplicações. O consultor monta cenários e ajuda o cliente a decidir a exposição, de 10% a
49% do fundo em renda variável. "O brasileiro é conservado e precisa de
apoio e informações sobre o futuro", diz Lara. "Além disso, depois
da crise, os clientes ficaram mais medrosos."
O Itaú vê a renda variável como uma importante aplicação no portfólio do
investidor. Osvaldo Nascimento, diretor-executivo da área de Investimentos
Pessoa Física e Previdência, explica que o banco agora faz uma consultoria
financeira do perfil do investidor como um todo. "Não vendemos mais
previdência privada isoladamente", afirma. Para ele, quem não tem
projeto de curto prazo deve alocar até 20% dos recursos em renda variável.
Mas para um prazo de mais de quatro ou cinco anos.
Conforme exemplifica, um investimento de R$ 10 mil num fundo com taxa de 1% e
já descontando o imposto, renderá em torno de R$ 250 no ano pelas taxas de
juros atuais. Mas se fossem separados R$ 2 mil para aplicar em renda
variável, imaginando um período valorização de 50% da bolsa, como no primeiro
semestre, o rendimento pularia para R$ 1,180 mil -
R$ 1 mil das ações e R$ 180 da renda fixa. "Não adianta, o investidor
vai ter que assumir riscos para ganhar um pouco mais", diz o diretor.
O Itaú tem procurado os clientes com renda de mais de R$ 3,5 mil para fazer
essa alteração de portfólio. E está voltando suas forças na educação desse
cliente, para mostrar a importância da renda variável para aumentar seus
ganhos no longo prazo.
Um produto diferente da BrasilPrev é o Ciclo de Vida. O fundo começa com uma
exposição maior à renda variável que vai se reduzindo ao longo do tempo. Ele
é o carro-chefe para novos clientes da seguradora. "Notamos que o
cliente faz sua opção no momento da contratação e depois acaba estático e só
volta a se mover se provocado", diz Márcio Matos, superintendente de
investimentos da Brasilprev. Os fundos de renda
variável da casa também tiveram captação líquida positiva no semestre de R$
252,7 milhões, segundo a pesquisa das consultorias.
A empresa só oferece a modalidade para quem tem perfil de tomador de risco,
apesar de enxergar a necessidade de um aumento da exposição á renda variável
no futuro. "O peso nas carteiras vai ser modificado no longo
prazo", afirma Matos, sem ainda, pensar em uma campanha específica para
atrair as pessoas para a renda variável. Hoje, na Brasilprev,
84% do estoque está investido em renda fixa e 16%
nos fundos de renda variável.
Na SulAmérica, o
vice-presidente de Vida e Previdência, Renato Russo, diz que há um movimento
para oferecer renda variável que atinge de 10% a 15% dos participantes, na
maioria de alta renda, com aplicações acima de R$ 500 mil. "Se fizermos
um movimento abrupto, podemos ter um problema sério no atendimento na
rede." No último ano, até julho, o crescimento da renda variável foi de
30%. Segundo Russo, a orientação de investir em renda variável para o cliente
é constante no longo prazo. "Falamos antes e depois da crise, não
mudamos a orientação." O maior desafio do setor, diz, é acertar os
cenários para que o investidor mantenha a poupança e aceite aumentar o risco.
O movimento também ocorre no Bradesco. Segundo Lucio Flávio Conduro de Oliveira, diretor geral da Bradesco Vida e
Previdência, a migração é natural do período de alta do mercado e também consequência da queda dos juros. O banco, no entanto, não
está fazendo campanha para que a migração ocorra e, segundo Oliveira, antes
de permitir a mudança, os consultores fazem um teste de perfil com o
participante para ver se ele tem capacidade de exposição ao risco.
A regra básica é, quanto mais jovem, mais disposição ao
risco, e quanto mais velho, mais próximo do alvo, menor é a exposição
à volatilidade. "Mesmo assim, ainda vemos o perfil do investidor",
diz Oliveira. O banco também oferece produtos que consideram a etapa da vida
dos clientes para definir se há espaço para uma parcela de investimento em
renda variável.
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