Jogar para ganhar, e não para não perder
George Kohlrieser ensina não só como negociar em
situações com reféns, mas também como se aplica ao mundo dos
negócios.
Na primeira palestra da tarde desta
quarta-feira (30/09), durante o Fórum Mundial de Negociação, o professor George
Kohlrieser falou sobre a solução de conflitos com por
meio da conversa. Ao longo de pouco mais de duas horas de
exposição, usou exemplos práticos de sua experiência como negociador da polícia
e do FBI, nos Estados Unidos, envolvido em situações de risco como lidar com
reféns em prisões, em bancos, ameaças terroristas, além de ele próprio ter
sentido na pele o que significa estar sob a mira de uma arma e ter de usar a
conversa para reverter o jogo.
“Seja você um refém psicológico ou
físico, o importante é não se tornar vítima de si próprio”, afirmou, ao resumir
que o segredo para o sucesso envolve afinidade, foco, disponibilidade de ceder
e pensamento positivo. Ao final, arrancou aplausos de pé da plateia.
“Conflitos mudam o destino”. Foi com
essa frase que o professor abriu sua apresentação, antes de apresentar a
definição para o termo: uma diferença entre duas ou mais pessoas ou grupos,
caracterizada por tensão, emoção, discordância e polarização, em que a
afinidade é quebrada. “E negociação é a melhor ferramenta para se resolver e lidar
com conflitos”, continuou. Para isso, é fundamental
talento e habilidades de liderança para conduzir essas situações. “Grandes
líderes são aqueles que sabem superar episódios desse tipo. Todos eles têm em
comum o fato de terem chegado lá devido a seus erros, a suas derrotas, pois
quem não erra não aprende a atingir seu máximo”, diz.
Para se fazer a diferença na solução
de conflitos, em negociações ou conquistar a aceitação como líder, deve-se
jogar para ganhar, e não para não perder, como fazem 80% das empresas. Estar
ciente dos riscos de um tropeço faz parte do processo, mas o segredo para a
vitória é o pensamento positivo e foco. “Quem corre uma maratona não pode se
focar na dor. Quem faz isso para de correr. O importante é pensar no objetivo
final, que é completar a prova”, comentou.
Solucionar conflitos é um ciclo
vicioso, cuja solução passa inevitavelmente pela busca por afinidade com o
outro lado. “Isso, vocês, brasileiros, levam vantagem sobre muitos outros
povos, pois são alegres. E um sorriso no rosto é sempre uma excelente maneira
de se começar”, diz. O processo todo é precedido por uma perda, passa por um
desgosto e, para chegar a um final feliz para os dois lados, é preciso de
compreensão e conforto. Perceber esses dois processos, presentes todos os dias
na vida de qualquer empresa, faz parte do papel de um verdadeiro líder. Para se
chegar a um acordo, os dois lados precisam estar dispostos a ceder para receber
algo em troca.
Para ilustrar a situação, Kohlrieser usou o exemplo da primeira vez em que se tornou
refém em uma negociação policial. Em um hospital, um sujeito chamado Sam
mantinha uma mulher ameaçada por uma tesoura. Mal entrou na sala, Sam se
estressou, gritou e cortou o pescoço da vítima – por sorte sem risco a sua
vida. Em seguida, o agressor foi em sua direção. “Tinha de tomar uma decisão em
questão de segundos. Me jogo no chão e tento
impedi-lo? Faço um sinal para que a polícia entre? Ou fico aqui e tento
conversar?”, lembra, ao citar que optou pela terceira opção, mesmo que a tesoura
já estivesse em seu pescoço e Sam dissesse que queria matá-lo, se matar e que
não tinha mais motivos para se importar com a família.
Isso até ele começar a responder às
perguntas do negociador. “Se alguém te ataca, nem sempre atacar de volta é a
melhor saída. Fazer as perguntas certas é o segredo. Em vez de dizer: ‘largue a
tesoura!’, por que não ‘Sam, para que você precisa
dessa tesoura?” Aos poucos, disse o palestrante, a situação foi contornada, a
refém foi libertada, o agressor se entregou e, no final, agradeceu: “George,
obrigado por não me deixar matá-lo”. Entender a perda de Sam, os conflitos em
sua família foram fatores cruciais para o sucesso da negociação, diz o
palestrante. “Qualquer um pode fazer isso. Basta acreditar e se dedicar”,
finalizou.
HSM Online -
30/09/2009
http://br.hsmglobal.com/notas/54743-jogar-ganhar-e-não-não-perder