Os empregos verdes
Tenho acompanhado a grande discussão
sobre as medidas para a limpeza do planeta, de olho no que vai acontecer com a
oferta de empregos. Até o momento, vinha lendo as previsões das organizações
mais ligadas ao mundo do trabalho, dentre elas, a Organização das Nações Unidas
(ONU) e Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Os trabalhos que li nesse campo me convenceram que as medidas para reduzir o
CO2 e criar um ambiente mais limpo serão bastante benéficas para a geração de
empregos ao longo dos próximos 20 anos. Dentre eles, tem especial destaque o
Green Jobs: Towards Decent
Work in a Sustainable, Low-Carbon
World, publicado pela ONU e pela OIT em 2008. Só para a implantação de fontes
de energia renováveis, o estudo registra que 2,3 milhões de empregos já foram
gerados e muitos mais virão.
A eliminação dos combustíveis poluentes e o reaparelhamento
dos veículos de transporte abrem, igualmente, imensas oportunidades de emprego,
na medida em que isso envolve uma revolução nas tecnologias de produção de
carros, ônibus, aviões, etc. A reforma dos edifícios, da mesma forma, tende a
gerar milhões de empregos para que casas e prédios venham a ser poupadores de
energia e usuários de fontes limpas. Só para a União Europeia,
prevê-se mais de 2 milhões de empregos até 2030!
Na agricultura e no reflorestamento, então, nem se fala. Hoje 1,3 bilhão de pessoas que trabalham nessas atividades terão
de passar por profundas transformações. Os números projetados para novos
empregos são colossais.
Esse meu entusiasmo, porém, acaba de tomar uma ducha de água fria ao ler o
documento do The Property and Environment Research Center, Seven Myths about Green Jobs, Bozeman, Montana, 2009. O relatório critica severamente a
metodologia utilizada pela literatura sobre os empregos verdes, inclusive o
citado estudo da ONU e da OIT, assim como contesta frontalmente as decisões
tomadas pelo presidente Barack Obama
ao alocar bilhões de dólares em programas de novas energias com a esperança de
desaquecer o planeta e criar milhões de empregos.
Os seus autores afirmam que as projeções são exageradas, sendo, muitas delas,
baseadas em mitos, em modelos muito pobres e em pressupostos irrealistas.
A crítica é dura. Quando examinada com cuidado, dizem os autores, a literatura
sobre a explosão dos empregos verdes está repleta de contradições, terminologia
vaga, ciência duvidosa e um completo desprezo pelos princípios básicos da
economia.
Para ilustrar o forte ataque, selecionei alguns dos seus argumentos. Um deles
diz respeito à desconsideração da possibilidade de aperfeiçoamento das
tecnologias atuais. Os autores ponderam que essas tecnologias podem muito bem
ser modificadas ao longo dos próximos anos, dispensando, assim, a introdução de
outras.
Uma outra crítica se refere à desconsideração do custo
de oportunidade dos imensos recursos que terão de ser usados para descarbonizar o planeta. É o caso da maioria dos empregos
ligados à energia solar e eólica que decorrem de pesados subsídios - que terão
de ser pagos pelos contribuintes. Os 50 mil empregos criados nesses campos na
Espanha demandaram um investimento (subsidiado) de US$ 38 bilhões, ou seja, a
exorbitante quantia de US$ 760 mil por emprego.
Mais. Nos Estados Unidos, a produção de energia produzida pelo vento deverá
aumentar 20% até 2030, mas a sua contribuição será de um aumento de apenas 1,1%
do total de energia gerada naquele ano, em todo o país. Além disso, trata-se de
uma energia pouco confiável uma vez que os ventos são inconstantes e
eletricidade produzida não pode ser estocada.
E assim o estudo vai dissecando previsão por previsão, tornando todas muito
incertas.
É claro que a monumental tarefa de desaquecer a Terra vai demandar muito
trabalho, criando muitos empregos. Mas, ao que parece, estamos longe de poder
quantificá-los com precisão e muito menos de antecipar o tipo de qualificação
que vão requerer - sem falar nos postos de trabalho (atuais) que serão
destruídos em decorrência da própria limpeza do planeta.
Um pouco de prudência não fará mal aos que projetam melhorias automáticas na
oferta de emprego. Vou estudar melhor o tema já que estamos nas vésperas da
reunião de Copenhagen (7 a
18 de dezembro de 2009), que tem o objetivo de estabelecer metas para o
controle das mudanças do clima.
*José Pastore é professor de relações do trabalho da FEA-USP.
O Estado de S. Paulo - 27/10/2009
http://clippingmp.planejamento.gov.br/
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