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Círculo de confiança


Dar autonomia aos funcionários gera mais inovação e qualidade do que a pressão por resultados.
É o que acredita – e recomenda – Marco Tulio Zanini, doutor em gestão empresarial e professor da Fundação Dom Cabral


Com base em estudos empíricos, alguns deles apresentados no livro Confiança – O Principal Ativo Intangível de uma Empresa (Ed. Campus/Elsevier), Marco Tulio Zanini, professor da Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais, desbanca o modelo de gestão que privilegia a pressão por resultados individuais no curto prazo. Para Zanini, que carrega um título de doutorado em gestão empresarial pela Universidade de Magdeburg, na Alemanha, os gestores precisam saber confiar em suas equipes – e tornarem- se confiáveis para elas – para gerar ambientes inovadores, criativos e de alta qualidade. A confiança, segundo ele, aumenta a satisfação e o comprometimento dos empregados, melhora a comunicação entre superior e subordinado, a aceitação e a delegação de autoridade e até a percepção de justiça nos julgamentos. “A consequência direta é a melhoria do desempenho individual e das equipes de trabalho”, afirma ele. E isso acaba tendo reflexos lá na ponta, na satisfação dos clientes.

Nesta entrevista, o professor questiona a eficiência do estilo tradicional dos gestores brasileiros, autoritários ao extremo, e não dá espaço para ilusões ao afirmar que o fato de atribuirmos maior importância às pessoas, hoje em dia, não se trata de humanismo. “Apenas faz parte da lógica econômica”, diz ele. Desde que o conhecimento provocou a transformação da natureza do trabalho humano, foi preciso buscar novos mecanismos de controle e motivação. “Passamos de uma lógica de motivação de pessoas baseada na obrigação e obediência para a lógica da vontade e do consentimento”, afirma. Conheça a seguir suas ideias e críticas, um tanto ácidas, mas com boa dose de realidade.

O que é um estilo de gestão baseado em confiança?
Ele é o resultado de padrões gerenciais baseados em valores compartilhados e princípios de justiça que promovam situações de vantagens e benefícios mútuos, incentivando os colaboradores a se engajar na criação de um valor econômico superior.

Quais são suas principais vantagens?
Num momento de grande comoditização de produtos, um diferencial competitivo de mercado é adotar uma gestão que privilegie a liberdade individual. Ou seja, que dê autonomia para o indivíduo, visando a incentivar a criatividade e a estimular processos de inovação. Falar em confiança é o mesmo que falar em autonomia. O grande diferencial desse modelo é que as pessoas passam a ter sua liberdade preservada pela confiança que lhes é depositada. Ele tem como princípios justiça e benefícios mútuos. 

A confiança atua, portanto, como mecanismo de motivação?
Boa parte da motivação para o trabalho vem da qualidade das relações humanas que existem na empresa. Uma atmosfera de confiança tem como principal função reduzir o medo e garantir o controle do nível de ansiedade nas interações humanas. Dependendo da intensidade, da constância e da qualidade das interações humanas, as pessoas podem aprender que é vantajoso apostar no longo prazo e tentar cooperar de forma espontânea. Ou o contrário, elas podem aprender a não confiar umas nas outras, a competir por seus próprios interesses, tentando tirar vantagem no curto prazo.

E essa segunda alternativa seria o oposto de uma gestão baseada em confiança?
O oposto da confiança é o medo, que se apresenta aos empregados de diversas formas. Há o medo de ser incapaz ou incompetente para realizar uma tarefa, medo de falar algo fora do contexto e ser punido, medo de ser humilhado, de perder o poder ou ser usurpado de suas melhores ideias. Há também o medo da exclusão, de não mais participar ou pertencer ao grupo. Sob a ameaça do medo, as pessoas deixam de oferecer espontaneamente sua contribuição e traçam outras estratégias pessoais de defesa. Geralmente, a ênfase nos mecanismos formais de controle e monitoração é acompanhada de pressão sobre os indivíduos, estimulando a competição interna. O fato não é novo. Governos, grupos religiosos e organizações fizeram largo uso de mecanismos coercitivos e se utilizaram do medo para governar sociedades.

Nas empresas brasileiras, em geral, qual é o estilo predominante?
Nosso estilo de gestão ainda é influenciado pelos efeitos de uma cultura que, em sua história, perpetuou uma profunda relação de desigualdade social, como em Casa Grande e Senzala. O ambiente institucional do Brasil faz, muitas vezes, com que o executivo falte com respeito com seu subordinado, simplesmente porque acha que fazer pressão no curto prazo é uma forma de buscar resultado. Nosso modelo é extremamente relacional e político, mas é de baixa confiança. A gente usa de meios políticos para garantir posições de poder, para garantir o emprego. A gente, muitas vezes, tem de ser mais amigo do chefe do que apresentar resultados, e isso é ineficiência. Essas relações não estão baseadas em confiança, mas em lealdade pessoal. Você estabelece uma pretensa relação de confiança que, por trás, tem apenas uma estrutura de interesse pessoal.

Então a pressão por resultados não é eficiente?
Os estudos de neurociência estão provando que as pessoas, quando estão sob muito estresse e muita angústia, não conseguem resolver problemas, são ineficientes. Pode acreditar que os resultados são melhores quando as pessoas se veem como responsáveis pelo que entregam e se sentem parte da empreitada.No entanto, esse sentimento vai contra a visão do líder autoritário – se é que podemos chamar esse profissional de líder –, de que ele é o único ser capaz de realizar alguma coisa na empresa.

Há algum exemplo nacional de ambiente de confiança?
A Embraer é uma ilha de excelência. Ela tem um corpo de técnicos competentes, motivados e com uma missão nobre. Seria um grande peso para o Brasil não ter um modelo de gestão como esse, que salva o país de se perder numa visão apenas de curto prazo. Eu estive lá e vi que o primeiro valor da empresa, que é “Nossa gente é que nos faz voar”, continua presente, mesmo com as demissões que ocorreram recentemente. Nesse episódio, o RH teve um papel brilhante. O processo foi muito bem explicado internamente e o resultado demonstrou que é possível promover uma demissão de maneira muito ética e transparente. Não podemos confundir o modelo interno de gestão da Embraer com as notícias que circulam na mídia. As pessoas sentem que fazem parte daquela empreitada e querem virar o jogo. E vão virar – pode escrever.

Como é possível detectar se o estilo de gestão de uma empresa é baseado no medo ou na confiança?
Empresas que investem nas relações de confiança buscam o desenvolvimento de seus recursos humanos como forma de aprimorar seus sistemas de qualidade. Já as organizações que adotam a gestão sob a lógica do medo preferem trabalhar admitindo alta rotatividade de empregados e baixo investimento no treinamento das pessoas. O primeiro grupo busca a sustentabilidade e a construção de valor no longo prazo, enquanto o segundo tem foco nas oportunidades de curto prazo. Para saber qual é o estilo predominante, as empresas, ou os gestores, podem se perguntar se seus empregados são percebidos como dignos de confiança ou essencialmente oportunistas para tirar proveito pessoal de qualquer situação, se eles devem ser constantemente vigiados e monitorados ou se têm autonomia para escolher a melhor forma de realizar seu trabalho.

E é possível transformar uma cultura de baixa confiança?
Certamente, mas essa mudança não ocorre à toa, começa com uma demanda de mercado. Quer um exemplo? A Vivo, sob a gestão de Roberto Lima, fez um trabalho belíssimo. As empresas de telecom entraram no Brasil buscando market share. Agora, que o mercado está saturado, com 152 milhões de aparelhos celulares, o foco é fidelização. O Roberto Lima percebeu que era preciso investir na qualidade dos serviços. Ele mudou todo o sistema de incentivos, com aumento da transparência de remuneração, cargos e salários, do poder de feedback e com a criação de canais de comunicação. Com isso, a confiança veio naturalmente. É fundamental, no entanto, entender que a mudança de cultura deve respeitar o tempo humano. O Roberto começou esse processo há três anos e agora está colhendo resultados.

Como o RH pode participar de uma transformação assim?
Se o presidente quiser entregar qualidade e inovação ao mercado, a empresa vai precisar de uma gestão de pessoas baseada em confiança. Será preciso que as pessoas fiquem na companhia algum tempo e invistam energia no trabalho. A função do RH será traduzir essa linha estratégica em políticas de gestão e alinhamento de incentivos. Uma cultura de confiança não pode ter pessoas fazendo a mesma coisa com salários diferentes. Também é preciso haver interação face a face. As pessoas precisam conversar, discutir valores. E você constrói valor promovendo o diálogo. Isso não é perda de tempo.

http://revistavocerh.abril.com.br/noticia/entrevista/conteudo_481553.shtml

Por Fernanda Bottoni
VOCÊRH






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