Saiba o que deve mudar na indústria de cartões
Novas regras começarão a ser
apresentadas em novembro
A indústria
de cartões deve movimentar, neste ano, 444 bilhões de reais em transações de
crédito, débito e outras modalidades. O setor vem se expandindo ao ritmo de
dois dígitos na última década e já representa 20% de todas as compras efetuadas
no país. Apesar de sua crescente importância, o mercado de cartões não conta,
ainda, com um conjunto unificado de regras para discipliná-lo. As normas e
resoluções que o regem atualmente estão dispersar por diversos órgãos do
governo, como o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional. Há dúvidas,
inclusive, sobre a quem cabe sua regulamentação. Essa situação levou a
distorções, como o surgimento de um duopólio nos serviços de credenciamento de
lojistas – hoje nas mãos da Redecard e da Visanet.
Para mudar essa situação, o governo
e os representantes do setor iniciaram, há mais de um ano, uma série de
discussões para criar regras claras. Para acelerar as mudanças, o governo
concordou em deixar a parte menos polêmica para a própria indústria, que vai
passar a se autodisciplinar – a exemplo do setor de
propaganda e marketing, que criou o Conar – Conselho
de Autorregulamentação Publicitária, a instância em
que são resolvidas as divergências do setor. A Associação Brasileira das
Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs)
espera apresentar, no início de novembro, a primeira
versão do código de autorregulamentação. O CMN também
se prepara para emitir as primeiras resoluções.
A parte mais espinhosa das normas
que regerão o setor de cartões será encaminhada ao Congresso. Os parlamentares
debaterão pontos polêmicos, a começar pelo básico: qual é a instância do
governo que deve regulamentar o setor? Por enquanto, as apostas são de que o
Banco Central receberá a incumbência. Outro item é a permissão de que os
lojistas cobrem preços maiores para quem pagar com cartões. O argumento é de
que isso servirá para pressionar os credenciadores e emissores a baixar as
tarifas das transações, dando mais fôlego ao varejo.
O último item é a desverticalização – a determinação de que parte das funções
hoje nas mãos dos credenciadores seja transferida para outras empresas, numa
tentativa de reduzir sua força e aumentar o poder de barganha dos clientes.
Essas propostas são recebidas com ressalvas pelo setor. “Incentivar a desverticalização vai prejudicar os lojistas, porque
aumentará o número de intermediários”, afirma um representante da indústria de
cartões. De qualquer modo, como em toda situação controversa, não há prazo para
que as medidas sejam enviadas ao Congresso. Além disso, nunca é demais lembrar
que, em 2010, os parlamentares estarão mais preocupados em garantir sua
reeleição do que em discutir temas difíceis.
Fim
da exclusividade
No início de outubro, o BC divulgou
uma breve nota com cinco recomendações para o setor. São esses itens que estão
mais próximos de ser implantados, via autorregulamentação
e resoluções mais simples do CMN. A primeira é o fim da exclusividade para o
credenciamento de pontos comerciais, dominado hoje pela Redecard e Visanet. A exclusividade é dessas
jabuticabas típicas do Brasil. Em outros países, as bandeiras trabalham com um
grande número de credenciadores, a fim de expandir ao máximo sua rede.
Por aqui, nos primórdios da
indústria de cartões, os emissores dos plásticos – em geral, grandes bancos –
entenderam que era estratégico também dominar a ponta do credenciamento.
Afinal, que cliente se interessaria em ter um cartão que não é aceito em nenhum
lugar? Para incentivar a aceitação dos cartões que emitiam, os bancos se
envolveram cada vez mais na captação de lojistas – o que culminou nos dois
grupos que hoje dominam esse mercado. Controlando a Redecard, que credencia a Mastercard, está o Itaú
Unibanco. No comando da Visanet, que opera a Visa, estão o Bradesco, Banco do Brasil e Santander, entre outros.
Até agora, a exclusividade não era
proibida por lei, mas a concentração de mercado nas mãos das
duas maiores credenciadores – que hoje respondem por 80% das transações
– atraiu a atenção de órgãos de fiscalização da concorrência. Neste ano, a
Secretaria de Direito Econômico (SDE), do Ministério da Justiça, investigou os
contratos da Redecard. e da Visanet. Das investigações, nasceu o
acordo para encerrar a exclusividade dos credenciadores com as bandeiras.
Agora, essa determinação deve constar da autorregulamentação.
Outros
pontos
Além do fim da exclusividade, o BC
também recomendou que uma mesma máquina possa captar
transações de qualquer bandeira. Atualmente, o lojista é obrigado a manter um
terminal para cada bandeira, já que o credenciador é exclusivo e não processa
os plásticos do concorrente. Além de pouco prático, isso tem um impacto direto
no caixa da loja, que precisa arcar com o aluguel de duas ou mais máquinas. A
chamada interoperabilidade deve constar do esboço de autorregulamentação
que será apresentado pela Abecs.
Outro ponto citado pelo BC é
transferência das liquidações financeiras para uma câmara independente. Hoje,
os credenciadores também são responsáveis pelo fluxo de pagamento dos cartões.
Com o fim da exclusividade, as empresas poderão processar transações de
qualquer bandeira. Para evitar conflitos de interesses – como o vazamento do
cadastro de um emissor de cartões para o concorrente – o BC e a indústria
concordaram que o melhor é deixar as liquidações para uma instância neutra. A
candidata mais forte é a Câmara Interbancária de Pagamentos (CIP), que pertence
aos bancos.
O BC também recomendou, em seu
comunicado, mais transparência nas tarifas de intercâmbio – aquelas
estabelecidas entre os credenciadores e as bandeiras. O objetivo é evitar a
concorrência desleal por meio de vendas casadas ou descontos que prejudiquem os
demais. Por último, o BC também citou a necessidade de fortalecer os cartões de
débito nacionais, que poderiam cobrar tarifas mais baratas em transações
locais.
Por Márcio Juliboni
| 30.10.2009 | 13h40
http://portalexame.abril.com.br/financas/saiba-deve-mudar-industria-cartoes-509218.html