O futuro sustentável nas nossas mãos
Ações
do consumidor, tanto no seu cotidiano como na mobilização da sociedade, são
fundamentais para preservação ambiental
Durante a Semana Mundial do
Meio Ambiente, diversos dados que denunciam a degradação ambiental foram
lembrados com o objetivo de sensibilizar as pessoas para a necessidade de
preservação e da busca de um modelo de desenvolvimento mais sustentável.
Mas, se a semana dedicada
ao meio ambiente costuma ser mais de lamentos do que de comemorações, há pelo
menos indícios de que é possível frear esse avanço devastador sobre os recursos
naturais dos quais dependemos para viver. E o consumidor tem um papel
fundamental nesse processo em que todos são importantes, desde os que praticam
pequenas ações cotidianas até os que mobilizam a comunidade ou procuram
influenciar políticas públicas.
A pesquisa “Como e por que
os brasileiros praticam o consumo consciente”, divulgada pelo Instituto Akatu
em 2007, aponta que 33% dos brasileiros adotam atitudes mais conscientes em
seus atos de consumo. Esses consumidores não se preocupam apenas com os
impactos sobre si próprios ou com os benefícios imediatos, mas pensam nos
impactos positivos que suas atitudes têm sobre os outros e sobre o futuro. São
pessoas com histórias semelhantes à da consultora pedagógica Bianca Castilho,
de 34 anos.
Desde janeiro deste ano,
quando leu um folheto com dicas de coleta seletiva e sua importância para
preservação ambiental, Bianca começou a separar lixo para reciclagem dentro de
casa, no bairro Água Fria, zona norte de São Paulo. O material era depositado
no posto de coleta do supermercado Pão de Açúcar. Meses depois, Bianca fez uma
pesquisa na internet e descobriu que um caminhão da prefeitura recolhe o
material reciclável toda semana em uma rua próxima à sua casa.
“É tão gostoso saber que
você pode fazer alguma coisa pelo meio ambiente que vira um vício, e você quer
saber sempre mais”, revela a consultora, que diz evitar os produtos com
embalagens descartáveis durante as compras. Dentro de casa, Bianca pratica
ações simples como buscar reduzir o tempo do banho tanto dela como do marido,
apagar as luzes acesas desnecessariamente e reaproveitar os alimentos. “Só não
reaproveito roupas porque não sei costurar. Mas, para cada peça nova, sempre
repasso uma similar antiga para alguma pessoa próxima que precisa”, conta.
Do individual ao
coletivo
As atitudes de
Bianca são apenas o primeiro passo para uma ação conjunta dos consumidores em
defesa do meio ambiente. “Em geral, os consumidores começam a praticar o
consumo consciente evitando desperdício dentro de casa e separando resíduos
para reciclagem. O passo seguinte tem sido a mobilização de mais pessoas”,
explica Helio Mattar, diretor presidente do Instituto Akatu.
Foi assim que aconteceu com
a advogada Célia Marcondes. Como consumidora, procurou dar destinação correta
ao óleo de cozinha — que jamais deve ser jogado na pia, e sim armazenado em um
pote e encaminhado à reciclagem. Depois de trilhar o caminho das pedras,
Marcondes descobriu uma cooperativa que recolhe o resíduo. Mas, ela não parou
por aí e se aproveitou da sua posição como presidente da Associação dos
Moradores do Bairro Cerqueira César, em São Paulo, para mobilizar mais pessoas a
encontrar uma solução para o destino do óleo.
A mobilização resultou na
instalação de pontos de coleta nos condomínios residenciais e comerciais. O
volume de trabalho para coordenar o processo aumentou tanto que, há dois meses,
a advogada fundou a ONG Ecoleo, que já recolhe mais
de 1 milhão de litros de óleo de cozinha usado por mês.
“É a lógica da logística
reversa, pois estamos devolvendo às indústrias o que compramos delas e
garantimos a eliminação de resíduos sem danificar o meio ambiente. Ainda por
cima, geramos renda”, comenta a advogada. Hoje, a Ecoleo
trabalha com oito beneficiadores — entidades que recolhem e limpam o óleo antes
de vender às indústrias.
Influenciando a
legislação
Além da
sensibilização, educação e mobilização dos consumidores para o consumo
consciente, políticas públicas viabilizadas por meio de leis são ferramentas
que podem garantir uma escala maior às ações em defesa do meio ambiente e da
sustentabilidade da vida no planeta.
Foi o que percebeu o arquiteto Sérgio
Prado, que desde 2002 trabalha na criação de processos de construção de casas
populares a partir do reaproveitamento de matérias-primas como resíduos
plásticos, orgânicos e minerais pós-consumo. Sua própria casa, construída na
Baixada Santista é, segundo ele, 100% sustentável e de baixo custo. Mais da
metade do processo de construção do modelo dispensa o uso de eletricidade. Os
tijolos e paredes estruturais são feitos de taipa de pilão (terra crua socada)
e parte das paredes são de garrafas PET, o que garante iluminação natural. A
cobertura usa estruturas de madeira e resíduos plásticos. O custo é de R$ 650
por m², uma economia de mais de 25% em relação
ao custo das casas convencionais.
“Se as novas metas traçadas
recentemente pelo Governo Federal para construção de casas populares
considerassem esses projetos alternativos, seria uma oportunidade para dar uma
reposta positiva ao problema do aquecimento global, já que daria utilidade
àquilo que chamamos de lixo” alerta o arquiteto, também presidente da ONG Verdever.
Sua proposta, hoje
devidamente patenteada, já foi aprovada em diversos órgãos municipais e
estaduais como um “sistema de construção interessante a todas as cidades do
país ao funcionar como modelo sócio e ambientalmente correto”, segundo
certificado do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).
Em conjunto com várias
entidades, Sérgio Prado discutiu a proposta com Célia Leão, deputada da
Assembléia Legislativa de São Paulo, que a transformou no Projeto de Lei
1269/07 “Lixo Zero, Arquitetura Sustentável, Energia Renovável”. A proposta
prevê, entre outros itens, a obrigação de reaproveitamento do lixo urbano em
projetos sob responsabilidade de órgãos públicos. Protocolada em outubro de 2007, a proposta está
pronta para ser discutida e encaminhada à votação pela Assembléia.
“Tenho certeza que a
proposta será aprovada, visto que ela não tem caráter punitivo. A proposta tem
como objetivo principal conscientizar as pessoas de que lixo não existe. Além
disso, prevê a construção de moradias de baixo custo e gera empregos. Outro
fator que considero determinante é que o projeto prevê incentivos
e convênios especiais às prefeituras que adotarem à proposta”, explica a
deputada Célia Leão.
Você também pode ajudar a
construir um mundo mais sustentável. Veja abaixo algumas ações simples e
cotidianas que, quando são realizadas por todos, têm um grande impacto positivo
no meio ambiente e na sociedade:
- Planejar suas compras
- Fechar a torneira ao escovar os dentes
- Usar integralmente os alimentos, evitando o
desperdício
- Apagar a luz ao sair de um ambiente
- Desligar um aparelho eletrônico quando não está
sendo necessário
- Ler um rótulo atentamente antes da compra
- Usar os produtos até o final de sua vida útil,
só comprando um novo quando for realmente necessário
- Dar preferência a produtos com selos de
certificação, que indiquem uma qualidade diferenciada do produto seja
ambiental, social ou de qualidade
- Compartilhar informações sobre empresas e
produtos com amigos e familiares
- Não comprar produtos piratas ou contrabandeados
- Separar o lixo para reciclagem.
http://www.akatu.org.br/central/especiais/2009/o-futuro-sustentavel-nas-nossas-maos