Eles estão de volta
Eles estão de volta" era a frase que expressava o terror que a volta
dos espíritos causava no filme "Poltergeist".
Esta expressão foi utilizada por Ricardo Caballero, ilustre professor de
economia do MIT, para descrever as preocupações com o retorno do fluxo de
capitais depois da crise da Ásia. Agora, em meio à pior crise dos últimos 50
anos, o fluxo de capitais está de volta, depois de ter se reduzido desde o
segundo semestre de 2007, para desaparecer completamente do auge da crise,
depois da quebra do Lehman Brothers. As suas consequências são previsíveis, com segurança: o real já
apreciou e desencadeou um ciclo de apreciação que deverá terminar bruscamente,
em algum momento, causando dramática reviravolta.
É surpreendente que o fluxo
de capitais tenha voltado tão rapidamente, pois o pânico causado no mercado
financeiro pela quebra do Lehman Brothers provocou
uma contração generalizada de crédito e uma paralisia nos fluxos internacionais
de capitais. E sabemos também que crises financeiras, que envolvem crise
bancária, são mais graves e o retorno da confiança e do crédito podem demorar
bastante. Esclareça-se de início que estes capitais não estão vindo para financiar investimentos produtivos, mas sim
capitais financeiros especulativos de curto prazo. Os investimentos produtivos
sofreram abrupta queda no último trimestre de 2008 em relação ao trimestre
anterior, a uma taxa anualizada de 45%. Não existem ainda sinais de recuperação
e o aumento generalizado de capacidade ociosa indica que a sua retomada deverá
levar algum tempo.
Como sempre, há fatores,
tanto de oferta como de demanda de capitais, atuando nesta nova onda de afluxo
de capitais financeiros para o Brasil. Do lado da oferta, não há dúvida de que
foi a rápida e forte reação do Fed, que injetou trilhões de dólares de liquidez
no mercado financeiro não só para socorrer os bancos, seguradoras e
instituições de crédito imobiliário, como o próprio setor não-bancário, a
exemplo do setor automobilístico. A reação do Fed foi tal que a base monetária
dos Estados Unidos chegou a expandir mais de 350% e a taxa de juros foi fixada
entre 0,0% e 0,25%. Se aos diversos programas do Fed somarmos os gastos fiscais
e demais socorros, a injeção total de recursos pelo governo americano atingiu, segundo estimativas do Deutsche Bank,
a astronômica cifra de US$ 14,9 trilhões, portanto mais do que o PIB. Onde
estão e para onde estão indo estes recursos? Uma parte evitou uma queda maior
na demanda agregada. O crédito ainda está travado e as reservas bancárias
ociosas atingiram quase U$ 800 bilhões e estão depositados no próprio Fed. Mas,
com taxas de juros próximas a zero no mercado de moeda e de curto prazo, os
bancos retomaram operações de mercado e uma parte está fluindo para países
emergentes, gerando recuperação nas suas bolsas de valores. Assim, do lado da
oferta, é a superabundância de moeda a taxas de juros próximos a zero que está
empurrando recursos de curto prazo em busca de alternativas de retorno maior e
risco menor do que nos EUA.
Do lado da demanda,
particularmente, os fatores de atração no Brasil são inúmeros. Desta vez,
diferentemente das crises financeiras internacionais anteriores, o contágio não
está ocorrendo pela restrição da produção, consumo e investimento pelo corte de
liquidez em dólar. O
contágio chegou com os bancos travando as operações de crédito em real. Com a crise, o
afluxo de recursos externos via mercado de capitais, e também através do
sistema bancário, paralisou completamente, mas o Brasil possuía mais de US$ 200
bilhões de reserva em moeda estrangeira. Além disso, o Fed, como provedor de
moeda em que se baseia o sistema internacional de pagamentos, estendeu uma
linha de crédito US$ 30 bilhões para o Brasil. Assim, com o gradual
restabelecimento da liquidez em real se iniciou uma lenta recuperação da
economia brasileira.
Neste quadro, o Banco
Central do Brasil reagiu com cautela excessiva, olhando a inflação pelo
retrovisor sem atentar que a contração de crédito bancário em real travaria o
circuito econômico. Além disso, quando sinalizou que os juros seriam reduzidos
em ritmo bastante lento, o diferencial entre os juros aumentou fortemente, já
que os demais países reduziram suas taxas mais agressivamente. O aumento no
diferencial da taxa de juros por si só foi um fator de forte atração, pois os
bancos e outras instituições podem captar no mercado monetário de curto prazo a
taxa de juros próxima a zero nos EUA.
Desta vez, o Brasil não
representa um risco elevado, pois foi afetado de forma completamente diferente
das crises financeiras anteriores. Os preços das commodities despencaram, mas
logo encontraram um piso e até alguma recuperação com a demanda de estoques
pela China, e ainda possui elevada reserva cambial.
Para o capital especulativo
existe ainda outro fator que torna o real extremamente atraente. O nosso regime
de "câmbio flutuante" é presa fácil de
profecias que se autorrealizam, pois não há nenhuma
sinalização firme de que o BC ou o governo não toleram a apreciação excessiva
da moeda, estabelecendo um piso tacitamente. E cada ponto percentual de
apreciação se soma ao diferencial da taxa de juros para compor o retorno do
especulador. Apenas no mês de maio os especuladores ganharam 10,6%, pois
apropriaram 9,7% de variação cambial mais 0,82% proveniente da Selic. Assim, o lento ritmo de queda na taxa de juros e a
expectativa de apreciação tornaram o real uma aplicação com altíssimo retorno
em meio a uma grande crise financeira. Quanto mais especuladores são atraídos,
mais o real se aprecia e maior é seu retorno. Desta forma, a taxa de câmbio
deverá se apreciar ainda mais de acordo com a convenção do mercado. No momento,
aparentemente, a convenção é de que a taxa de câmbio vai cair para R$ 1,80. Ao
chegarmos a esta taxa, novas quedas poderão ocorrer segundo uma nova convenção
e, numa profecia que se autorrealiza, atrairá cada
vez mais especuladores. Poderiam o BC e o Tesouro nacional evitar esta
apreciação? Com o regime de câmbio como o nosso, não. Mas com redução da taxa
de juros, que é mais do que necessária para retomarmos o crescimento, para
níveis próximos às taxas internacionais e sinalizando firmemente o mercado da
sua determinação em evitar a apreciação, sem fixar taxa ou piso, é possível
evitar a apreciação. Neste caso, o regime de taxa de câmbio deveria ser
assimétrico, permitindo a depreciação, mas não a apreciação. O custo de
carregar reservas também seria reduzido se a taxa de juros fosse próxima à
internacional.
Yoshiaki Nakano,
ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da
Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas - FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras.
Valor Econômico
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