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O drama do achatamento de renda


Desvinculação da correção do salário mínimo para aposentadoria acima do mínimo, em 1991, aprofundou a perda

Há uma equação difícil de resolver nas contas de Konji Saito, 73 anos, aposentado. Seu plano de saúde custa R$500 por mês.

Ele recebe R$ 500 por mês de aposentadoria. A situação é um pouco melhor para Lindolfo Ribeiro da Costa, 78 anos. Ganha da Previdência R$ 1.700, mas gasta, com ele e a mulher, R$ 800 de plano de saúde e R$ 300 de remédio.Sobram R$600 para as despesas da casa, luz, água, condomínio e comida.

Outro aposentado, Antonio Simanavicius, 72 anos, fez as contas na ponta do lápis. De agosto de 1999 a agosto deste ano, seu ganho de aposentado cresceu 92,02%. No mesmo período, seu plano de saúde aumentou 854,41%.

O que ocorre com aposentados como Saito, Lindolfo e Antonio – e outros oito milhões no País – é um mesmo fenômeno:

Desde 1991 seus ganhos vêm derretendo e as despesas, se expandindo.

Naquele ano, a correção dos salários dos aposentados foi desvinculada do salário mínimo.

O mínimo sobe mais que o vencimento dos aposentados, que é corrigido pela inflação.

Com o novo sistema, a queda no valor dos reajustes foi inevitável. Cálculos da Federação das Associações de Aposentados e Pensionistas do Estado de São Paulo (Fapesp) apontam que a perda desses aposentados, de 1991 a 2008, foi de 60%.

Os aposentados que ganham um salário mínimo não têm esse problema. São reajustados pelo próprio mínimo. Daí para cima, vale a correção pela inflação. Este ano, o salário mínimo teve reajuste de 9,21%; as aposentadorias de quem ganha acima do mínimo, de 5%. Essas perderam 4,21% em um ano. Saito se aposentou com o equivalente a 2,5 salários mínimos, em1992. Dois e meio mínimos valem, hoje, R$ 1.037,50.

Mas ele ganha aqueles R$ 500. “Mais um pouco, vou estar com o salário mínimo (R$ 415)”, diz. Quando chegar a isso, terá pelo menos um pobre consolo: seu salário vai deixar de encolher. Este ano, comparados com os 5% de reajuste dos aposentados, os planos de saúde subiram 5,48%.  Parece confortável, mas o saldo dos últimos anos é desfavorável aos aposentados.

Os planos de saúde avançaram a partir de 2000, até atingir o pico de 11,75%, em 2004. Nesse ano, o reajuste dos aposentados foi de 4,53%. “Tenho o plano de saúde porque não sou eu quem paga, mas meus filhos”, diz Saito.

Ele entrou na Justiça com pedido de revisão da aposentadoria, mas não está otimista.Com razão. Lindolfo Ribeiro da Costa também entrou com um pedido, há dez anos. Até agora a questão corre na Justiça. “Há um ano e meio houve uma audiência e eu soube que iria receber R$ 38.600. Mas o INSS  só quis pagar R$ 8.000 e eu não aceitei.”

Mercedes Lopes Mendes, 75 anos, e mais 14 aposentados entraram com pedido de revisão, em grupo, há 21 anos (1987).Dos 15 impetrantes, 5 morreram.

“Não sai nem com reza brava”, diz ela. Lindolfo se aposentou em 1977, mas continuou trabalhando na mesma firma.

Naquela época, os que faziam isso recebiam 25% do valor da aposentadoria. Esse dinheiro, somado ao salário da empresa, possibilitou-lhe a

compra de um apartamento.  Em 1988, deixou a empresa. “Sempre paguei a aposentadoria pelo teto, de dez salários mínimos. Mas, quando me aposentei, só me deram oito.”Não estava mau. Em valores de hoje, seriam R$ 3.320. Mas, 20 anos depois, recebe a metade, o equivalente a quatro salários mínimos. Ou, R$ 1.700.“Dá para viver porque não pago aluguel.”

O plano de saúde de R$ 800 não é mais caro porque Lindolfo e a mulher figuram como dependentes da filha, que trabalha num banco estatal. “Já fiz 14 cirurgias; se não fosse o plano de saúde, estaria morto.”Só um de seus remédios de uso contínuo custa R$ 100.

Antonio Simanavicius, 72 anos, formado em administração de empresas, trabalhou durante 46 anos na mesma indústria.

Em 1997 saiu, recebeu indenização e aposentou-se. Pensando no futuro, usou o dinheiro da indenização para comprar uma casa com seis moradias, destinadas a aluguel. E aplicou o restante. Durante todo o tempo que trabalhou, contribuiu para a Previdência pelo teto, de dez salários mínimos. Achava que, assim, estava garantindo uma boa aposentadoria. Aposentou-se com R$ 945. Naquela época, pagava com tranqüilidade o plano de saúde, incluindo o da mulher, e todas as despesas da casa, alimentação, condomínio, e as do carro. Em agosto de 1999 recebia R$1.039,95. Desde essa época até agosto último guardou todos os dados de sua contabilidade doméstica.

Ela mostra o seguinte: nesses nove anos, o salário que recebe da Previdência passou dos R$ 1.039,95 para R$ 1.997, aumento de 92,02%. O plano de saúde foi de R$ 204 para R$ 1.947, crescimento de 854,41%. Despesas com alimentação, de R$ 270 para R$ 778 (188,14%).

Hoje, o dinheiro da aposentadoria vai todo para pagar o plano de saúde. Antonio acha que, na sua idade, saúde é prioritária. “Não posso me arriscar, passando para um plano mais barato, e a saúde pública não é confiável.” Com o dinheiro da aposentadoria comprometido, resta-lhe o aluguel das seis casas. Masisso não chega a R$ 2 mil. Desses, R$ 369 vão para a compra de remédios.Os R$1.631 restantes não cobrem os gastos mensais. “Todo mês eu avanço nas reservas que fiz na época da aposentadoria. Estou me descapitalizando. Vai chegar um ponto em que não sei o que vou fazer.”

Nessa situação, Antonio não pode realizar alguns desejos comuns de aposentados. “Depois de 46 anos de trabalho, eu gostaria de viajar com minha mulher, conhecer o País.” Também acharia bom trocar o carro, um Corsa 2004 (quando se aposentou, tinha um VectraCD do ano anterior). E fazer compras para a casa ou de uso pessoal dele e da mulher. “Mas não posso fazer nada disso.”

Em suas anotações de receitas e despesas, esses itens mostram valores inferiores aos de nove anos atrás. Justamente, diz Antonio, porque não pôde gastar com eles. Outro fato que o preocupa: “Se surgir algum imprevisto, não estou preparado para encará-lo.”

Em seus 75 anos, Mercedes Lopes Mendes recorda os bons tempos em que era caixa-contábil em um escritório. Em 1980 aposentou-se, mas as coisas Continuaram bem. No trabalho, ganhava 22 mil cruzeiros,a moeda da época. Aposentada, passou para 19.722.“ Achei que estava bom”, diz. Em quatro anos, o ganho começou a cair. “Em 1987 já não valia mais nada.” Em1988, a Assembléia Constituinte, que votaria a nova Constituição do País, definiu que o ganho dos aposentados  não seria menor que o salário mínimo. Mercedes passou a ter seu pagamento calculado no salário mínimo de quando se aposentou.

As coisas voltaram a ficar bem, mas só duraram três anos. Em 1991, como se viu, o salário dos aposentados que ganham acima de um mínimo foi

desvinculado deste. Mercedes deveria estar ganhando, hoje, R$2.792,95. Está com R$ 1.464. Como tempo, começou a trabalhar como voluntária em movimentos de aposentados e hoje preside um deles, o Fênix. Tem um plano de saúde, vinculado ao Fênix, de R$294, “barato para minha idade”. Remédio, usa pouco.

Mercedes tem um pequeno apartamento, que comprou na época da aposentadoria. Não tem carro. “Meu carro é o metrô.” Quando algum aparelho

ou máquina da casa quebra, “vou protelando”. “Só não protelo o conserto da máquina de lavar porque na minha idade não dá para lavar roupa.” Nos

últimos três anos, juntou R$ 5 mil para um cuidado especial: construiu seu túmulo, no Cemitério de Campo Grande, em Santo Amaro.

O marido de Rosália Pacheco Xavier contribuiu para a Previdência durante os 37 anos em que trabalhou como vendedor de livros. Pediu aposentadoria, mas três anos depois morreu sem tê-la conseguido.Em2004, Rosália, afinal, obteve o benefício: tornou-se pensionista.

“Concordei em receber menos do que teria direito.” Ficou com 2,5 salários mínimos, equivalentes a R$ 653. Nesses quatro anos, baixou para menos de dois salários mínimos, R$ 772.

“Vai chegar uma hora em que vou estar como salário mínimo”, diz Rosália. O que salva a situação é que os três filhos trabalham e a ajudam.


Valdir Sanches

ESPECIAL PARA O ESTADO
SEXTA-FEIRA, 3 DE OUTUBRO DE 2008

 

 

Fonte Financenter:
Evolução do Teto e do Salário mínimo

data

Teto do Salário-de-Benefício

Quantidade salários mínimos

Salário mínimo

julho-1989

NCz$ 1.500,00

10,0

149,80

julho-1990

Cr$ 36.676,84

7,5

4.904,76

julho-1991

Cr$ 127.120,76

7,5

 23.131,68

julho-1992

Cr$ 2.126.142,49

9,2

 230.000,00

julho-1993

 Cr$ 42.439.310,55

9,1

 4.639.800,00

julho-1994

R$  582,86

9,0

64,79

julho-1995

832,66

8,3

100,00

julho-1996

957,56

8,5

112,00

Caixa de texto: Período julho-1997

1.031,87

8,6

120,00

julho-1998

1.081,50

8,3

130,00

julho-1999

1.255,32

9,2

136,00

julho-2000

1.328,25

8,8

151,00

julho-2001

1.430,00

7,9

180,00

julho-2002

1.561,56

7,8

200,00

julho-2003

1.869,34

7,8

240,00

julho-2004

2.508,72

9,6

260,00

julho-2005

2.668,15

8,9

300,00

julho-2006

2.801,56

8,0

350,00

julho-2007

2.894,28

7,6

380,00

julho-2008

3.038,99

7,3

415,00

 

 

 

 

Valor de jul/89 corrigido monetariamente até jul/08

Pelo IGP-M

5.184,56

 

517,76

Pelo INPC

3.611,78

 

360,70

Pelo IPCA

3.535,24

 

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