Como os chineses combatem a crise
Tudo é pintado de vermelho brilhante, desde o teto das
barracas protegendo a multidão de compradores, até os banners que os estimulam
a comprar. Wang Shiqin, um lavrador de 62 anos, chegou ao mercado nas primeiras
horas da manhã. Como muitos consumidores, já comprou um aparelho de TV, mas
quer também comprar seu primeiro refrigerador - tudo subsidiado pelo governo
chinês.
A atmosfera é uma mistura de carnaval e de comício nesse mercado em Feidong,
cidade da Província de Anhui, na zona rural, a três horas de trem de Xangai. Os
vendedores promovem a altos brados seus aparelhos domésticos, especialmente as
marcas internas, que se beneficiam da campanha do governo para combater a crise
financeira global.
Os chineses estão entre os mais disciplinados poupadores do mundo, economizando
quase cinco vezes mais do que sua renda disponível nas contas bancárias, como
os alemães fazem. Mas agora o Partido Comunista deseja promover o consumo
coletivo.
Os 800 milhões de agricultores do país são estimulados a se tornar os
necessários novos clientes da fábrica global da China. É a mesma opinião do
Ocidente, onde não se deixa escapar o menor grão de otimismo sugerindo que a
crise em breve vai acabar.
Na semana passada, o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet,
disse cautelosamente que a economia global estaria "perto de uma
reviravolta". Um artigo de capa do jornal de negócios alemão Handelsblatt
dizia que "o mergulho vertiginoso da economia alemã parece ter sido
controlado". As exportações da Alemanha podem estar saindo do vermelho
graças, em parte, à Ásia.
Mas mesmo os membros do governo em Berlim não se arriscam a uma previsão se
esta é uma tendência real de reversão ou apenas fogo de palha. A China parece
ser a principal responsável por essa ponta de otimismo. O Ocidente, por seu
lado, está esperando um aumento de interesse da China por seu maquinário, seus produtos
e know-how.
O Ocidente espera que milhões de consumidores chineses, como o agricultor Wang,
acabem substituindo os consumidores europeus e americanos, que estão comprando
menos e menos produtos "made in China", desde que a crise começou. Só
em abril, a exportações chinesas despencaram 22%.
REGIÕES ATRASADAS
Não é preciso muito para convencer as massas chinesas a gastar o seu dinheiro,
à medida em que se entusiasmam com suas compras, como em Anhui e outras
províncias - particularmente nas regiões relativamente mais subdesenvolvidas do
país - para onde Pequim atualmente vem canalizando enormes somas de fundos
federais.
"Jiadian Xiaxiang", ou "Aparelhos domésticos para os
povoados", é o título da campanha veiculada hoje na China. O programa de
estímulo econômico é direto: os compradores precisam se identificar como
agricultores. Depois de comprar seu novo aparelho de TV, máquinas de lavar
roupa ou celulares, os clientes recebem um desconto de 13% sobre o valor da
compra dos órgãos fiscais locais.
Pequim está usando programas de estímulo similares para promover a compra de
carros. Um imposto cobrado sobre a compra de alguns carros pequenos foi
reduzido à metade, chegando a 5%. O governo está gastando cerca de US$ 755
milhões, esperando estimular as vendas de veículos nas zonas rurais. E parece
que isso está funcionando. Só no mês de março, os chineses compraram 770 mil
carros novos, um aumento de 27% em relação ao mês anterior, e um novo recorde
de vendas.
O programa de estímulo ajudou a China a superar os Estados Unidos como o maior
mercado automobilístico do mundo. E esses programas, financiados com a ajuda de
reservas monetárias vigorosas, podem também beneficiar o Ocidente.
Dificilmente um outro país está injetando dinheiro de modo tão entusiasta num
ciclo econômico extenuado, e em nenhum outro lugar o governo está intervindo de
modo tão rigoroso e profundo no mercado como na China.
A China foi um dos primeiros países a anunciar um programa de estímulo
econômico. Em novembro de 2008, o governo lançou um plano de dois anos para
injetar quatro trilhões de yuans (cerca de US$ 608 bilhões) na economia. Ou
seja, quase sete vezes o que o governo alemão investiu na sua economia.
Desde o início da crise, Pequim lançou novos projetos de infraestrutura quase
que imediatamente. Alguns deles tinham sido planejados para longo prazo,
enquanto outros eram novos. Abrangiam a pavimentação ou consertos de 300 mil
quilômetros de estradas, como também um investimento de US$ 92 bilhões em novas
rodovias, duas vezes mais do que no ano anterior.
No ano passado, Pequim tinha congelado muitos projetos, de um lado para reduzir
a poluição durante os Jogos Olímpicos e de outro para esfriar um pouco uma
economia superaquecida. Como parte dessa estratégia, o banco central chinês
aumentou seis vezes sua taxa de juros antes da crise, mas depois reverteu
freneticamente o curso e reduziu as taxas cinco vezes consecutivas. Agora os
responsáveis pelos planos econômicos em Pequim estão pisando de novo no
acelerador, em todos os setores da economia.
O governo e o Partido Comunista estão rapidamente reduzindo a escala das suas
preocupações com a proteção ambiental e a sustentabilidade, que nos últimos
anos era muito grande, na China e no exterior. Em apenas dois dias, o
Ministério do Meio Ambiente do país aprovou apressadamente 90 projetos num
total de US$ 36 bilhões, incluindo usinas elétricas, fundições de alumínio,
fábricas de cimento e usinas de aço.
Esse processo de aprovação acelerado foi apelidado, sem qualquer ironia, de
"Passagem Verde".
Os comunistas da China estão, repentinamente, de novo no seu elemento. Eles se
acostumaram muito bem às campanhas do governo, e isso remonta ao tempo em que Mao Tsé-tung
invocou o "Grande Salto para a Frente", nos anos 50, e mais tarde
lançou a Revolução Cultural.
NO MESMO BARCO
Hoje, o inimigo público número um do partido é a crise global, que se propagou
a partir dos Estados Unidos, grande mercado exportador de Pequim. A China
também está inquieta com seus investimentos financeiros nos Estados Unidos. Com
cerca de um terço das reservas cambiais, de US$ 1,9 trilhão, investido em
títulos do Tesouro americano, a China é o maior credor da superpotência
ocidental. Em outras palavras, chineses e americanos estão basicamente sentados
no mesmo barco furado.
Para proteger seus devedores de um colapso, os chineses não têm outra escolha
senão continuar comprando títulos do Tesouro dos Estados Unidos. No entanto,
Pequim procura tirar vantagem da crise para se colocar como alternativa aos
Estados Unidos e uma futura superpotência. É gratificante para a liderança
chinesa observar como o Ocidente busca soluções que têm um cheiro de
capitalismo de Estado.
Os líderes chineses têm uma boa chance de vencer essa competição global, pelo
menos a curto prazo. Afinal, a economia de mercado planejada é o seu
território. Além disso, o Partido Comunista não tem um Parlamento eleito
democraticamente para se preocupar a respeito, um Parlamento que possa tentar
influenciar na sua "economia de mercado com características chinesas".
E podem ordenar que seus bancos estatais façam empréstimos para as empresas,
muitas delas também estatais.
Só em março, os bancos chineses aumentaram o volume de empréstimos para as
empresas em cerca de US$ 292 bilhões. Como resultado, os investimentos nas
fábricas e no setor imobiliário nas áreas urbanas subiram mais de 30% de
janeiro a abril.
OS GESTORES ONIPOTENTES
O partido também enviou seus funcionários para visitar empresas por todo o
país. A finalidade dessas visitas foi determinar quais empresas precisavam de
ajuda do governo e, ao mesmo tempo, pressionar os diretores de empresas locais
para não exonerarem trabalhadores nem fechar fábricas, o que já tinha
desencadeado uma onda inicial de protestos no fim do ano passado.
De início, a crise pegou o Partido de surpresa na Província de Guangdong, polo
exportador a sudeste da China , na fronteira com Hong Kong. Quando milhares de
fábricas de propriedade privada que produziam produtos baratos, como sapatos e
brinquedos, estavam sendo fechadas, cerca de 20 milhões de trabalhadores
migrantes perderam o emprego. Mas as autoridades locais garantiram que os
desempregados receberiam seus salários de volta.
Em Xangai, os gestores da crise, do Partido Comunista, são virtualmente
onipotentes. Nessa cidade de arranha-céus, as autoridades comunistas controlam
as mais importantes e as maiores empresas, desde as cadeias de supermercados
até a maior montadora chinesa. Recentemente, um bilhão de yuans foi gasto para
salvar a SVA, fabricante de aparelhos de TV de tela plana. "O partido é a
chave para superarmos as dificuldades econômicas", disse Yu Zhengsheng,
chefe do Partido Comunista em Xangai.
A meta coletiva dos estrategistas econômicos chineses é chegar a um crescimento
de 8%, que a liderança em Pequim considera o nível mínimo necessário para
preservar a sempre invocada harmonia social nesse enorme país.
De fato, a China deverá anunciar uma estimativa de crescimento no fim do ano em
completa sintonia com o planejado - independente se o número real seja exatamente
8% ou, por exemplo, 7,8%.
DEPENDÊNCIA DA EXPORTAÇÃO
No primeiro trimestre de 2009,
a terceira maior economia do mundo cresceu 6,1%. Um
crescimento decepcionante, quando comparado com os dois dígitos registrados até
2007. No entanto, a República Popular ainda está em boas condições, em relação
ao Ocidente , que vem mergulhando numa recessão.
O primeiro-ministro Wen Jiabao já sugeriu que ainda tem "muita bala na
agulha" para proteger seu país contra um colapso econômico. Mas abrindo
novas estradas, rodovias e aeroportos, Pequim está somente aumentando a
nocivamente alta proporção desses investimentos na economia em geral, que já
excedia 40% em 2007.
Oferecer isenções fiscais para carros e aparelhos de TV não vai resolver o real
desafio da China, que é se libertar da dependência das exportações a longo
prazo e estimular o consumo interno.
Para alcançar esse objetivo, a China tem de acabar com as grandes diferenças
entre ricos e pobres. Nos anos 80, os chineses das cidades ganhavam duas vezes
mais do que os habitantes das zonas rurais. Em 2008, esses ganhos são 3,3 vezes
maiores do que os dos trabalhadores do campo.
A República Popular precisa urgentemente desenvolver um sistema previdenciário
sustentável, bem mais amplo do que o previsto nos planos. Muitas das 1,3 bilhão
de pessoas que vivem na China não têm nem uma assistência médica adequada e
nenhuma aposentadoria significante.
A China, que chegou por último à industrialização, precisa de empresários
privados dispostos a assumir riscos desenvolvendo suas próprias marcas de alta
tecnologia. Mas, em vez disso, os responsáveis pelo planejamento econômico
continuam a inflar essas apáticas e gigantescas empresas estatais com seus
empréstimos.
Até o banco central em Pequim, no seu mais recente relatório, expressou
preocupação de que a China precisa acelerar "em termos de inovação e
reformas".
Em vez disso, os chefões do partido nas províncias querem perpetuar a glória do
Partido, levantando edifícios suntuosos de aço e concreto. Ni Jinjie, conhecido
comentarista financeiro, alertou que, se Pequim continuar oferecendo dinheiro
indiscriminadamente, "a estrutura da nossa economia pode rapidamente se
desequilibrar".
A nova bolha da China já está começando, silenciosamente, a inflar os mercados.
Em Schenzen, onde o índice da bolsa disparou em mais de 50% este ano, os
reguladores do mercado sentiram a necessidade de lançar um alerta oficial para
os investidores chineses: "Cuidado com o perigo de se especular cegamente
com ações".
Wieland Wagner é correspondente da Der
Speigel desde 1995
O Estado de S.Paulo
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090524/not_imp375941,0.php
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