O fim da classe média
De tempos em tempos, anunciam a morte da classe média.
Ramon Muñoz o fez recentemente num belo artigo do jornal espanhol El País.
Muitos outros "avisos de falecimento" o haviam precedido. Alguns anos
atrás, o francês Louis Chauvel falava das "classes médias à deriva",
e o sociólogo Jean Lopkine anunciava que as classes médias haviam desaparecido,
que elas continuavam a funcionar como "mito".
O ponto comum entre todos esses veredictos é o pessimismo, o medo e a
inquietação. Eles parecem elogios fúnebres. Consideram que o declínio da classe
média provocará grandes desordens sociais e políticas. E têm razão. Então, a
classe média não constitui a coluna vertebral da economia de mercado, um penhor
de estabilidade e o motor das mudanças? Se ela desaparecer, a sociedade entrará
em
parafuso. Aristóteles, este velho grego que viveu cinco
séculos antes de nossa era, nos havia prevenido: "A classe média é a fonte
da estabilidade democrática".
No entanto, embora todo o mundo esteja de acordo sobre essa agonia silenciosa
da classe média, um ponto continua obscuro: ninguém sabe exatamente o que é a
classe média. Mesmo a sua data de nascimento é desconhecida. Alguns a situam
após 1945, durante os 30 anos de grande enriquecimento dos países avançados.
Outros a remontam ao século 19, o século da máquina a vapor da burguesia. E
Aristóteles já a conhecia!
Há incerteza até no que concerne a seus contornos. Ela tem uma geometria
variável. Ela não é a mesma, não tem nem a mesma periferia, nem o mesmo
conteúdo na primeira revolução industrial, ou em 1960, no tempo dos colarinhos
brancos, ou em 2000, após a revolução informática.
Essa classe média muda também segundo o olhar dos observadores. Para uns, ela é
formada pelos que ganham 1 mil (R$ 2.755) por mês. Para outros, engloba também
os que têm uma receita mensal de 3 mil. É por isso, aliás, que durante muito
tempo se falou não "da" classe média, mas "das" classes
médias, a superior e a inferior.
Trata-se, portanto, de um objeto delicado, tão escorregadio como um sabonete
molhado.
Vamos ao mais simples, portanto: esse conceito designa simplesmente a classe
intermediária que se estende entre a classe rica e a classe pobre. Essa classe,
outrora abastada, honrada, respeitada, tornou-se quase indigente. Ela sobrevive
com 1 mil mensais, talvez.
De 1950 a
1975, essa classe intermediária cresceu bastante, pois era alimentada pelo
fluxo dos antigos operários, empregados, camponeses que asce ndiam graças ao
milagre econômico do pós-guerra.
Em compensação, de 1975 a
2000, assistiu-se ao movimento inverso: a classe média se esvaziou. O número de
ricos e de muito ricos aumentou incrivelmente, enquanto uma grande parcela da
classe média foi puxada para baixo e para a precariedade.
A classe média sofreu então duas mudanças: de uma parte, sua quantidade
diminuiu, e de outra, sua renda baixou. Em 2008, 48% das pessoas pertencentes à
classe média francesa não puderam tirar férias.
FENÔMENO ESTRUTURAL
E hoje? O declínio prossegue e se acentua. A pauperização também.
Hoje, os que ontem pertenciam à classe média estão, com frequência, pobres,
pessoas que recebem por mês, na Europa, apenas o suficiente para sobreviver:
700 por mês na Grécia, 1 mil na Espanha e 1.400 na Alemanha ou na França
(aqueles a quem chamam de "mileuristas", palavra forjada na Espanha
há alguns anos para designar os escombros dessa antiga classe média, em geral
jovens ou estudantes que não dispõem de mais de 1 mil por mês).
Será o caso esperar que essa regressão seja um fenômeno temporário, uma síncope
em vez de uma morte? Podemos supor que esse desastre esteja ligado à crise
econômica e financeira que, partindo dos Estados Unidos, devasta o globo há um
ano, essa espécie de morte cuja grande foice ceifa as fábricas, os bancos e as
vidas? Infelizmente, não temos nenhuma razão para acreditar nisso.
Trata-se de um fenômeno profundo, lento e pesado. Ele opera no longo prazo,
como um movimento de placa tectônica. Foi acelerado pela crise, mas não nasceu
com ela. Já estava em ação antes dela. Ele começou bem antes da atual recessão.
Isso significa que ele não é conjuntural, mas estrutural, não é aleatório, é
fatal.
A prova? Ele é observado na totalidade dos países desenvolvidos, tanto na
Polônia como na França, tanto na Alemanha como em Portugal, ou nos Estados
Unidos. Acrescente-se a isso que ele progride mais ou menos com a mesma
velocidade, seja qual for a ideologia, o talento ou a prática dos governos que
estejam no comando. Direita, esquerda, centro, os governos podem mudar, mas o
encolhimento da classe média persiste. O processo se desenvolve segundo seus
ritmos e regras próprias. Ele prossegue seu curso imperturbável sejam quais
forem as armas que os poderes utilizam para sustá-lo ou desacelerá-lo.
Eu me pergunto se esse declínio das classes médias, longe de ser uma
consequência da crise financeira do ano passado, não seria, ao contrário, sua
causa. O que se passou? A classe média americana, reduzida e necrosada há anos,
havia conseguido maquiar sua própria agonia, mascará-la, apelando de maneira
irrefletida e delirante ao crédito, que os bancos aliás forneciam de bom grado.
A verdade é que "o rei estava nu", mas os bancos lhe emprestavam
roupas para camuflar sua nudez.
Um dia, porém, o sistema bancário, solicitado insensatamente por essa classe
média ávida por luxo e distinção, mas em via de pauperização, explodiu. Desde
então, a classe média se encontrou tal como ela era de fato havia já muitos
anos: nua, pobre e tiritando.
Se essa análise está certa, isso significaria que o fim eventual da crise (em
2010, 2011?) não teria por efeito ressuscitar, como por um golpe de vara de
condão, essa classe média naufragada? Não. Uma vez extinta a crise, as
sociedades retornarão à situação que prevalecia pouco antes dela, com, de um
lado, uma enorme classe indigente, de outro, uma classe de pessoas cada vez
mais ricas, mais indecentes, e entre as duas, os resíduos da antiga classe
média.
Essa extinção progressiva das classes médias terá efeitos devastadores sobre o
equilíbrio das sociedades. Uma coisa é importante: os novos pobres, cujo número
aumenta de maneira exponencial, são antigos homens e mulheres da classe média.
E eles conservam dela a lembrança, a nostalgia e os hábitos.
Pior ainda: esses novos pobres, provenientes das antigas classes médias, são
educados. Entre os "mileuristas", encontram-se jovens formados em
matemática, em ciências jurídicas, em letras, em belas artes. Espíritos
brilhantes, formados e refinados. Ora, após concluir seus estudos, eles ganham,
supondo que consigam emprego, 1 mil ou 2 mil. Portanto, amargura, desejo de
revanche, desestabilização social, revolta ou revolução. Quem fez a Revolução
Francesa de 1789? Os servos, os camponeses, os mendigos? Absolutamente. Esses
estavam acostumados demais ao sofrimento para se revoltar. Os verdadeiros
revolucionários foram os advogados sem causa, os intelectuais sem emprego, os
curas desdenhados pelo alto clero.
Esse desequilíbrio entre os diplomas e os empregos (ou as rendas) longe de se
reduzir só pode crescer. Hoje, em toda a Europa, os jovens aos quais não se
oferece alguma ocupação não têm outra escolha senão continuar seus estudos.
Temos, portanto, estudantes eternos, como nos romances de Dostoievski na
véspera de uma outra revolução igualmente radical. Um estudante de 30 anos de
idade é coisa corrente. E a cada ano chegam ao mercado novas multidões
desvairadas, carregadas dos mais sólidos diplomas, aos quais a sociedade
oferece situações grotescas, sombras de ofícios.
Ora, também aí, uma espécie de véu de ilusão é jogado sobre suas misérias. A
sociedade técnica é de fato capaz de oferecer a esses jovens de alto nível
intelectual, mas privados de todos os meios financeiros, ilusões, engodos. Por
exemplo, todo o mundo dispõe de serviços gratuitos de internet, um verdadeiro
luxo. E seria possível citar também outros engodos, outras ilusões, como as
viagens a baixo custo que permitem ir até o fim do mundo quando as pessoas mal
conseguem se alimentar. Não é raro um rapaz que vai e vem entre dois
continentes ser constrangido, quando volta a seu país, a se alojar em
pardieiros ou locais improvisados, com amigos, com outros decaídos da classe
média.
Muitas vezes é a família que permite a esses jovens/velhos estudantes
sobreviver e manter uma aparência de dignidade. É usual em cidades como Paris,
Londres ou Praga, que um rapaz fique na casa de seus pais até os 30 anos de
idade ou mais. Mas o sistema não é eterno. Aliás, os próprios pais estão sendo
pouco a pouco vitimados pela pauperização. As aposentadorias diminuem, de sorte
que os pais não podem mais ajudar seus filhos a sobreviver decentemente.
Contudo, embora os pais sejam também vítimas do declínio da classe média, eles
continuam a desfrutar de uma vida mais digna e confortável que seus filhos. O
desaparecimento, ou ao menos o esgotamento da classe média, produziu essa
consequência perversa: hoje, os filhos sabem que não atingirão na sociedade um
bem-estar igual ao de seus pais.
Até recentemente, o esquema era inverso: o filho vivia com a perspectiva, a
promessa, de viver uma vida mais brilhante, mais bela, mais expansiva que seus
pais. Essa perspectiva era um dos incentivos que impeliam os jovens a trabalhar
para superar seus pais. Hoje, em lugar dessa esperança, ocorre um desestímulo,
uma resignação, que estende sua sombra sobre qualquer um, como a asa da morte.
Uma regressão real e durável da classe média provocaria outros desequilíbrios
na sociedade e, talvez, na civilização. Aristóteles falou corretamente quando
viu nessa classe média uma ferramenta de estabilidade democrática. Se essa
ferramenta se quebra, a sociedade corre o risco de ceder a todas as aventuras,
a todos os perigos, a todos os suicídios. Isso já se evidencia num país como a
França: a ampliação contínua do desemprego provoca reações epidérmicas muito
perigosas. As greves viram enfrentamentos. Podem-se temer uma conflagração e
revoltas selvagens.
Os sindicatos, essas "velhas raposas políticas", conseguiram até aqui
evitar a passagem à violência cega. Mas eles são a cada dia ultrapassados pelas
tropas que atingem tamanho grau de cólera que são tentadas pelo pior,
brutalidades, agressões, depredações, etc.
Será possível evitar convulsões? Nada o garante. No passado, os mineiros, os
operários metalúrgicos, os trabalhadores braçais menosprezados por seus chefes,
travaram lutas sangrentas. O perigo hoje é ainda mais grave, contudo. As
futuras revoltas poderão efetivamente nascer não dos que nunca tiveram acesso à
"mesa do banquete" (como foi o caso dos grandes movimentos populares
do século 19), mas dos jovens cujos pais tinham uma vida confortável, jovens
que trabalharam para atingir os altos escalões da sociedade e que vegetam no
submundo.
Esses jovens, massacrados pelo fim da classe média, veem a pequena camada dos
ricos, dos riquíssimos, engordar às suas custas, habitar mansões das "mil
e uma noites", levar uma vida de um luxo exagerado, exibicionista e vulgar
em meio a uma profusão de ouro e caviar. Seu rancor aumenta em proporção à sua
decadência. E algum dia, quem sabe, eles poderão optar pela revolta.
* Gilles Lapouge é correspondente em Paris
O Estado de S.Paulo
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090607/not_imp383544,0.php
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