Ele vai pegar o dinheiro de volta
No auge da crise de crédito,
Henrique Meirelles liberou R$ 100 bilhões para os bancos médios. Agora, é hora
de pagar a conta
Em outubro do ano passado, no auge da crise financeira, o governo anunciou uma
série de medidas para evitar que a fonte do crédito que gira a economia
secasse. Entre desonerações fiscais de um lado e a criação de programas de
financiamento do outro, o Banco Central decidiu reduzir a alíquota dos
depósitos compulsórios que recolhia dos bancos. Apenas isso foi suficiente para
colocar na praça R$ 100 bilhões, dinheiro que ajudou as instituições com
problemas de liquidez, especialmente as de menor porte, a sobreviver. Agora, a
conta começa a chegar. Segundo a DINHEIRO apurou, na última reunião do Comitê
de Política Econômica do BC, há duas semanas, dois diretores levantaram a bola
sobre a necessidade de pedir o dinheiro de volta. "Ou é isso ou seremos
obrigados a aumentar os juros em breve", disse um deles. O breve, no caso,
é 2010, ano de eleições.
Político (literalmente), o
presidente do BC, Henrique Meirelles, vaticinou que não teria condições de
conceder uma carga extra na taxa básica, a Selic. A
opção mais realista é voltar a recolher os compulsórios, tirando dinheiro da
economia. O comandante do BC, segundo a DINHEIRO apurou, avalia que a economia
brasileira mostra sinais de recuperação suficientes para que o crédito não
sofra após esse enxugamento de liquidez. Os bancos foram os primeiros a ser
beneficiados e serão os primeiros a sentir o fim do pacote anticrise,
teria dito Meirelles na reunião do Copom. A data da medida ainda não está
definida. O estudo está sendo tocado pelos diretores Alexandre Tombini e Alvir Hoffmann.
No mercado, dá-se como o
mais provável que já em dezembro o BC comece a recolher o dinheiro liberado.
"Com o crescimento da economia brasileira, principalmente no terceiro
trimestre, está claro que chegou o momento de se retirar os estímulos dados
pelo governo", avalia o economista Paulo Leme, diretor do banco Goldman
Sachs. "Já está claro para a diretoria do BC que, mais cedo ou mais tarde,
o crescimento da economia vai esbarrar na inflação", avisa Flávio Serrano,
do Banco BES Investimento. Para Ricardo Denadai,
economista sênior da Santander Asset Management, o
aumento dos juros pode ser precedido da elevação dos depósitos compulsórios,
como forma de enxugar a liquidez da economia e conter um crescimento muito
acelerado do crédito, que vem sendo puxado, principalmente, pelos bancos
públicos, cujas carteiras avançam a um ritmo próximo de 40%.
Os bancos acham melhor
aguardar um pouco mais. "Dá para entender que essa seja uma medida
alternativa a um aumento dos juros", afirma Rubens Sardenberg,
economista-chefe da Febraban.
"Mas, ainda assim, é uma medida contracionista.
O governo poderia esperar um pouco mais para ver como o crescimento da economia
e do crédito se sustenta". Apesar de o volume de crédito ter crescido pelo
sétimo mês consecutivo, alcançando R$ 1,3 trilhão, ele ainda não apresenta o vigor do período précrise. No
acumulado do ano, as novas concessões para pessoas jurídicas tiveram uma queda
de 8,9%. Em setembro, subiram 4,7%.
"Mexer nisso agora significa encarecer o dinheiro, resultando em mais
spread e menos crédito", adianta Sardenberg.
"O resultado é um só: paralisação do crescimento."
Tudo indica que todas as
benesses concedidas há um ano serão anuladas. A principal delas é a volta da
alíquota de parte do compulsório sobre depósito a prazo recolhido em espécie,
que sairá de 55% para 60%. A parcela recolhida em títulos volta aos 45%
anteriores - hoje é de 40% - e a alíquota sobre os depósitos a prazo salta de
13,5% para 15%. Traduzindo os percentuais em números, há um ano o volume em
compulsório retido pelo Banco Central era de R$ 257,9 bilhões. Caso não
houvesse as medidas anticrise, a retenção estaria,
hoje, em R$ 303,6 bilhões (veja gráfico). Mesmo que os percentuais aparentem
ser bastante próximos, o que se encontra depositado atualmente nos cofres do BC
ultrapassa pouco a casa dos R$ 186 bilhões, resultando numa diferença de R$
117,5 bilhões. "Obviamente, nem todo esse valor está distribuído no
mercado em forma de crédito", afirma um técnico do BC. "Mas ele dá
uma ideia de como os bancos vão utilizar isso como
argumento para retrair a concessão. Eles podem tirar do mercado, mas não do
bolso." É essa a única dúvida que ainda permeia a tomada da decisão.
Autor(es): GUSTAVO GANTOIS
Isto é Dinheiro - 03/11/2009