As pessoas sabem que não podem dever tanto quanto antes
A maior
economia do mundo está refém de seus consumidores - e eles estão feridos,
assustados e imprevisíveis. Isso faz os economistas e políticos ponderarem duas
grandes questões. Primeiro, essas pessoas
traumatizadas jamais vão gastar tanto quanto antes? Segundo, deveriam?
As pessoas em geral voltam às lojas após períodos de recessão para fazer todas
as compras que adiaram quando os tempos estavam difíceis, o que ajuda a
economia a retomar seu crescimento, gerando os satisfatórios gráficos em forma
de V. Na crise de 2001, o consumo arrefeceu, mas voltou rapidamente. Na
anterior, no início dos anos 90,
a queda foi maior, mas retornou aos níveis anteriores em
poucos trimestres.
Desta vez é diferente. Milhões
perderam seus empregos e outros milhões temem ser os
próximos; suas casas e aposentadorias não valem nada perto do que pensavam
valer; o crédito é escasso e caro. "A recuperação econômica vai ser
diferente de qualquer outra devido às mudanças nas preferências do
consumidor", diz Richard Curtin, diretor da
pesquisa de confiança do consumidor da Reuters/Universidade de Michigan.
Essa pesquisa mostra que os consumidores estão quase tão reticentes com as
perspectivas da economia de longo prazo quanto estavam em outubro do ano
passado - mês em que o mundo ruiu.
Apenas 12% dos entrevistados disseram que sua renda havia aumentado - o menor
recorde na pesquisa de 60 anos, o que não surpreende, já que o desemprego nos
EUA está próximo de 10% e a extensão da semana de trabalho em sua baixa recorde.
Pela primeira vez na história da pesquisa, a maioria das famílias disse que
achava que sua renda ia permanecer igual ou cair nos próximos 12 meses.
A maior parte dos economistas acredita que esse pessimismo, junto com a queda
na renda e o aperto no crédito, vão manter os gastos
anêmicos no ano que vem. De fato, o consumo caiu novamente em setembro após
quatro meses de ganhos.
O crescimento observado no verão se deu ao custo da redução da poupança de 4,9%
no segundo trimestre para 3,3% nos três meses seguintes. Por princípio, a
redução da poupança é considerada pelas autoridades competentes uma coisa ruim.
O governo quer reduzir o papel do consumo na economia promovendo o que o
presidente Barack Obama
chama de "modelo de crescimento pós-bolha", baseado em parte nas
exportações e manufatura.
"Uma das principais lições desta última crise é que muito de nosso
crescimento era movido pela dívida: cartões de crédito usados no limite e
hipotecas residenciais contraídas para financiar compras", por exemplo,
disse Obama nesta semana em uma reunião do Conselho
Assessor de Recuperação Econômica.
"Os consumidores reconheceram sabiamente, acho eu, que não podem ficar tão
endividados." Ou, como disse Paul Volcker,
ex-diretor do Federal Reserve, que chefia o conselho
assessor: "Não podemos consumir tanto".
Tradução: Deborah Weinberg
Sarah O'Connor – Financial
Times
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/2009/11/05/ult579u2939.jhtm
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