O lado escuro da bolsa
Aos 16 anos, Danilo Bertasi era modelo, estudava no colégio
Bandeirantes, um dos melhores de São Paulo, e mergulhava nos livros para
passar no vestibular de medicina. Hoje, três anos depois, a realidade é outra.
Ele tem mais sintomas de paciente do que de um futuro médico.
Com pressão alta, toma remédios para dormir e engordou 20 quilos. Não fotografa
mais, desistiu da medicina e estuda administração de empresas. A mudança
começou quando, influenciado por um amigo, Bertasi
começou a investir na bolsa, especificamente em day trade - comprando e
vendendo ações no mesmo dia.
"Vi que um amigo estava ganhando e pensei: se ele pode, eu também
posso", conta o jovem. Bertasi entrou na
empreitada de maneira intensa e viu as horas passadas na frente do pregão se transformarem em vício. "Já acordei às 3 da manhã para
assistir à abertura do pregão de Xangai na Bloomberg",
diz ele, que não dorme mais do que quatro horas por noite.
Embora sua primeira operação tenha sido desastrosa, com um prejuízo de R$ 3
mil, Bertasi já acumulou algum patrimônio - que
mantém em segredo - desde que se tornou investidor. Suas ações preferidas são
as mais voláteis, como as das empresas LLX, MMX, OGX e MPX, do bilionário Eike Batista.
"Posso perder 10% em um dia e ganhar 20% no dia
seguinte", conta. O problema, no entanto, não é quanto ele ganha ou perde
com suas operações. Bertasi pode estar se tornando,
sem perceber, um viciado precoce num jogo.
"Esse tipo de comportamento é compulsivo. É um
desvio que, se não for tratado corretamente, pode acarretar consequências
graves", afirma a psicóloga Vera Rita de Mello, coordenadora do núcleo de
psicologia econômica da FipecafiUSP.
Hoje, o Brasil tem 521 mil pessoas que operam o chamado home broker. Destes, 6,6% são jovens de até 25 anos - e a grande
maioria, que ainda não trabalha, passa o dia diante da tela do computador,
dando ordens de compra e venda ou frequentando salas
de bate-papo sobre ações. É quase uma patologia.
"Os jovens que entram hoje na bolsa são mais
arrojados, correm mais risco, querem volatilidade e dificilmente carregam um
papel de um dia para o outro. São fascinados por day trade", constata Rodrigo Puga,
responsável pelo InvestBolsa, home broker da Spinelli Corretora.
Segundo Puga, jovens de até 25 anos fazem, em média,
o dobro de operações que investidores mais experientes. Assim, podem estar mais
expostos a prejuízos - em Las Vegas, capital mundial dos cassinos,
constatou-se que milhares de apostadores com menos de 21 anos também estavam se
tornando viciados em apostas
Assumidamente viciado na Bovespa, Bertasi
traçou uma meta. Disse que quer ter R$ 10 milhões antes dos 25 anos. E hoje ele
parece estar mais preocupado com isso do que em fazer coisas típicas da sua idade
- como, por exemplo, virar uma madrugada numa boate.
Até mesmo um blog para investidores ele mantém na internet. "Não bebo nem
fumo; meu único vício é comprar e vender ações." E o ganho de peso foi uma
decorrência natural. "Costumo comer na sala e a cada três garfadas volto
para o computador", diz.
Pode até ser que Bertasi realize sua meta e se
transforme num milionário. Ele, que mora com um irmão e com a mãe, já sustenta
sua casa e foi capaz de comprar um carro blindado. Mas os riscos, assumidos
precocemente, podem colocar em xeque seu próprio futuro. Foi o que aconteceu
com Stéfano Spinelli. Aos 13 anos, ele decidiu
investir na bolsa as economias do pai, Delanei.
Começou sem maiores preocupações, apostando no longo prazo.
No ano passado, quando veio a crise e sua carteira derreteu, Spinelli passou a
se sentir culpado pelo prejuízo. E fez uma aposta ainda mais arriscada.
Mergulhou no day trade. Resultado: recuperou parte dos prejuízos, mas repetiu de ano. O pai, a quem ele pretendia agradar, ficou
decepcionado quando soube que o filho fugia da escola e matava aulas para
operar na Bovespa. Levou uma dura e mudou o comportamento. "Percebi que
sem o colégio não vou entrar numa boa faculdade e trabalhar com
investimentos", diz o garoto.
Hoje, ele se dedica um pouco mais aos estudos, mas continua investindo. Tenta
apenas se impor uma certa disciplina. Como estuda pela
manhã, investe apenas no período da tarde e, depois disso, vai fazer atividades
típicas de meninos da sua idade, como jogar videogame e andar de bicicleta.
"Mas a bolsa é um jogo muito mais legal. Porque
tem estratégia, emoção e dinheiro", diz Spinelli, que, claramente, ainda
não se livrou do vício "Nas férias escolares, vou me dedicar para
recuperar ainda mais", diz. O jogo foi o que motivou também Caio Cordeiro,
paulistano de 25 anos, a entrar na bolsa. Mas ele transformou seu vício numa
profissão. Aos 19, começou a investir em simuladores na internet.
Quando passou no vestibular (relações internacionais na Faap), seu pai decidiu presenteá-lo com um novo
carro. O garoto não quis e pediu o dinheiro para investir em ações. Nunca mais
parou. "Eu operava na sala de aula. Passava o tempo todo com o laptop
ligado acompanhando o pregão", diz ele. De lá para cá, Cordeiro conseguiu
multiplicar seu investimento inicial por três. "Descobri uma
profissão", diz ele, que trabalha hoje em uma gestora de recursos de São
Paulo e quer, no futuro, abrir sua própria gestora.
Assim como Cordeiro, o estudante Guilherme Giron, 23
anos, que cursa o terceiro ano de economia na USP, também conseguiu transformar
a paixão pela bolsa em
profissão. Investe desde os 16 e trabalha no mercado
financeiro desde 2007. Com oito anos de mercado, é quase um veterano. Giron começou trabalhando na mesa de operação de um banco
de varejo e hoje está em um private banking.
"Não tenho tempo de ficar o dia inteiro
acompanhando o mercado e fazendo day trade. Além disso, onde trabalho há um limite mensal de
operações que podemos fazer em bolsa", conta. No entanto, o brilho da
bolsa sempre acaba transparecendo em seus olhos. "Se eu não trabalhasse,
passaria o dia inteiro fazendo isso", confessa.
Tais jovens, de perfis tão diferentes, mas que dividem o mesmo fascínio pelos
investimentos de curto prazo, tendem a crescer na
mesma proporção que a bolsa ganha popularidade. Em fevereiro de 2009, época
crítica da crise, investidores de até 25 anos movimentavam mais de R$ 680
milhões. Em agosto, esse número quase dobrou para R$ 1,2 bilhão. Segundo Puga, da corretora Spinelli, a queda da taxa de juros
influenciará uma entrada maciça desses investidores na bolsa nos próximos anos.
"São pessoas que não terão lembrança do que
significa taxa de juros alta. E não fará sentido para eles investir em renda
fixa", prevê. Na verdade, é até saudável que o
Brasil forme uma nova geração de investidores, dispostos a assumir riscos e a
participar do mercado de capitais. O problema é quando isso ocorre
precocemente, sem que esses jovens tenham a maturidade ou o equilíbrio
emocional para discernir o que é investimento do que é só um jogo - e que pode
ser de altíssimo risco
Ana Clara Costa
Revista ISTOÉ Dinheiro - 05/10/2009
http://www.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/
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