Previdência é uma despesa que tem de estar no orçamento
A pesquisa de orçamento familiar divulgado pelo IBGE
na semana passada mostra que mesmo o brasileiro que ganha mais de R$ 6 mil
mensais tem dificuldades para chegar ao fim do mês com o salário que recebe. É
um dado extremamente relevante. Mais de 50% dessas famílias está com problemas
no orçamento e estão na faixa de maior renda da população.
Chegou a
hora de chamar a família para uma boa conversa, pois vocês estão gastando além
da conta. Quem avisa é o atuário José Roberto Carreta, consultor sênior da Mercer, uma das maiores empresas do mundo nesse setor.
Segundo ele, numa perspectiva muito otimista, você que recebe R$ 6 mil vai se
aposentar com metade do seu poder aquisitivo. Isso quer dizer que, se você já
tem problemas hoje para financiar seus gastos, o futuro é sombrio quando
receberá metade do que ganha atualmente.
O mercado de previdência
está em verdadeira ebulição. Aspectos como longevidade e quebra do modelo
tradicional de previdência têm levado sérias preocupações a gestores de
carteira, governos e famílias. Se você não tem acompanhado esse debate, está
bastante atrasado.
Quanto maior sua renda,
maior também será o problema para financiar a aposentadoria. Isso porque a
diferença entre o que você ganha e o que vai receber do governo aumenta. A
outra razão é que a expectativa de vida para os mais ricos é maior. Segundo
Carreta, a expectativa de vida do brasileiro está, em média, acima de 68 anos.
Mas, no grupo de pessoas de renda mais alta, a expectativa de vida está acima
de 80 anos. "Na verdade, é um problema grave já para quem recebe acima de
R$ 4 mil", diz o executivo. O impacto da longevidade sobre sua necessidade
de construir um patrimônio é direto e veja que esta análise de Carreta está
restrita aos aspectos de previdência. "Some-se a este problema os custos
com saúde durante sua aposentadoria e aí você terá um grande problema",
avalia Carreta.
Se você conseguir acumular
R$ 1 milhão, poderá retirar mensalmente R$ 5 mil durante a aposentadoria.
Trata-se de um valor médio, segundo Carreta, e que já leva em conta a
expectativa de vida atual. "O ideal é que você consuma 0,5% de sua reserva
da aposentadoria para que ela seja suficiente para toda a sua vida", diz
Carreta. "Há quem estipule 1%, mas acho muito arriscado", acrescenta.
Para ter R$ 1 milhão daqui
a 30 anos, você precisará investir R$ 175 mil numa aplicação hoje que lhe renda
6% ao ano sobre a inflação. O outro caminho é fazer aportes mensais e deixar
que as taxas de juro compostas façam o trabalho mais
difícil para você. "Você precisa separar 10% do seu salário para esta
finalidade", diz o executivo.
Aos 35 anos de idade,
explica Carreta, para cada R$ 10 que você acumula na aposentadoria, R$ 7 vem da
capitalização das aplicações e apenas R$ 3 são de contribuição efetivamente, ou
seja, de você colocar a mão no bolso. Aos 45 anos de idade esta relação já fica
em 50%. E, aos 50 anos de idade, a relação se inverte e fica R$ 3 de
capitalização para R$ 7 de contribuição.
Carreta insiste que essas
famílias que estão na faixa mais alta de renda e ainda assim não estão
conseguindo viver com o que ganham têm um enorme problema. "Eu aconselho
fazer um orçamento, pois, provavelmente eles não tem
sequer um orçamento", diz. "Esta é uma despesa extremamente
importante e que tem de fazer parte do orçamento doméstico", acrescenta.
Tempo e dinheiro é questão
de pragmatismo, segundo ele. "Muitas pessoas dizem que estão sem tempo e
passam horas na frente da televisão", afirma. Com dinheiro ocorre o mesmo,
diz ele. Basta um olhar mais acurado no orçamento para enxergar ralos por onde
podem estar escoando os dias de boa vida durante sua aposentadoria.
"Quando fizer seu
orçamento pense primeiro em você", diz o executivo. Caso contrário, você
terá de encontrar alguém que pague seus custos depois de aposentado ou terá que
mudar seu padrão de vida. "O problema da aposentadoria é individual, não
espere que alguém resolva para você", diz Carreta.
Mara Luquet é editora da revista ValorInveste e autora do livro O Assunto é Dinheiro,
escrito em parceria com o jornalista Carlos Alberto Sardenberg
Valor Econômico
http://www.fenaprevi.org.br/Site/853/21651.aspx