Cartões querem substituir o dinheiro
Os cartões de crédito,
débito e loja foram muito eficientes em substituir o cheque como meio de
pagamento nos últimos dez anos. O mesmo não ocorreu com o dinheiro, que
continua sendo usado por grande parte da população nas compras, especialmente
as de menor valor, quando chega a representar 90%, mostra uma pesquisa feita em
setembro pelo Datafolha.
A pesquisa ouviu mais de 4
mil pessoas em 11 capitais, tanto consumidores que têm algum tipo de cartão,
quanto aqueles que não têm. Em todos os casos, o uso do cheque como meio de
pagamento é muito baixo. Quem declarou não ter cartão, por exemplo, só 3% usam
o cheque para pagar compras e 100% usam o dinheiro. Nas compras abaixo de R$
10, nada menos que 90% são pagas em dinheiro; entre R$ 10 e R$ 20, as pessoas
usam o dinheiro em 77% dos casos.
Só para as compras de maior
valor é que o cartão é mais usado e as pessoas apontam como vantagem o fato de
poder parcelar o valor. Acima de R$ 500, o plástico fica com 82% dos pagamentos
e só 2% são pagos com cheque.
"O grande desafio é
como combater o dinheiro e não mais o cheque", afirma Carlos Rodrigo
Formigari, diretor de produtos da Associação Brasileira das Empresas de Cartões
de Crédito e Serviços (Abecs) e responsável pela área de cartões do Unibanco.
Nos últimos dez anos, o dinheiro tem respondido por 60% dos pagamentos da
economia, valor que permaneceu estável em todo o período.
Segundo Formigari, uma das
formas de incentivar o uso do cartão é tentar melhorar os pontos fracos citados
pelos entrevistados ouvidos pelo Datafolha. Juros altos, taxas elevadas, demora
no atendimento do call center e temor de descontrole de gastos são os pontos
fracos dos plásticos apontados na pesquisa. Já os pontos fortes são o
parcelamento, praticidade, aceitação e segurança. Em uma escala de zero a dez,
o cartão recebeu nota 7,1 da população (o call center ficou com nota 4,6 na
demora e 5,1 para a resolução de problemas).
Muitos citam a preferência
pelo dinheiro porque não há restrições de uso. No cartão, para se ter um
plástico, é preciso, por exemplo, comprovar renda e apresentar documentos. A
pesquisa mostra que nas classes D e E, 40% das pessoas possuem algum tipo de
cartão, frente a 82% nas classes A e B e 63% na classe C.
Segundo Heitor Martins,
sócio da Consultoria McKinsey, o processo de substituição do cheque pelo cartão
no Brasil foi um dos mais rápidos do mundo, superando países como Estados
Unidos, Canadá e França. Um dos fatores que ajudou isso foi o parcelamento das
compras sem juros no cartão, que só existe no Brasil, e foi criado para
substituir o cheque pré-datado. Hoje, 51% das compras feitas com cartão são
parceladas.
Para o consultor, há ainda
locais, como os táxis e o segmento de saúde, nos quais os cartões são pouco
aceitos e têm espaço para crescer. Em média, 13% dos gastos das pessoas são
pagos com cartões. Martins acredita que esse valor pode saltar para 20%,
seguindo a média dos países desenvolvidos. Para ele, o setor ainda tem
potencial para continuar crescendo em ritmo acelerado nos próximos anos.
Altamiro
Silva Júnior, de São Paulo
Valor Econômico
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