Dez agrados para o crédito maltratado
A cada mês, as taxas dos financiamentos aumentam, sua composição se deteriora e
a inadimplência sobe. O caráter regressivo da situação é visível; os pequenos
tomadores estão sendo mais afetados. No último relatório do Banco Central, o
volume das operações acima de R$ 10 milhões aumentou 3,1% e o das inferiores a
R$ 5 mil caíram 2,7%; a taxa para aquisição de bens para pessoa jurídica
atingiu 19,0% e subiu 2,4% em 2008; a do cheque especial alcançou 174,9% e
subiu 36,8% no mesmo período. A bem da verdade, o
aumento do custo médio dos recursos livres é maior que o informado pelo Banco
Central (BC), pois este faz o cálculo usando o estoque existente como base de
ponderação, em vez de considerar apenas novas operações.
Uma deterioração do crédito
era esperada por conta da piora do quadro econômico, mas não na proporção que
está acontecendo, especialmente para os microempresários e para as pessoas
físicas de renda média e baixa. Acontece num momento delicado da economia
brasileira, em que o preço das commodities despencou,
a demanda por exportações de produtos industriais brasileiros caiu e o real foi
desvalorizado. O impacto na economia é visível: queda nas vendas, férias
coletivas, aumento das concordatas, projeções de crescimento em queda e a maior
incidência do "favor" - "favor segurar o cheque";
"favor esperar até o mês que vem". Os problemas no setor financeiro
estão, aos poucos, emperrando a economia.
As reações do governo foram
focadas nos sintomas: o Fundo Garantidor de Crédito criou linhas de crédito
para bancos, o BC reduziu o compulsório (ainda continua o mais alto do mundo) e
direcionou recursos para exportadores, o BNDES colocou
mais financiamentos para grandes empresas e o governo anunciou uma maior
disposição dos bancos oficiais de emprestar mais a taxas mais baixas para
forçar a concorrência. Embora bem intencionadas, as medidas não vão reverter a situação, pois não focam nas causas. Só se usa o
retrovisor, trata-se tudo como se fosse efeito do que
está acontecendo lá fora. Não é. Corre-se o risco de um agravamento.
Os problemas dos
financiamentos são anteriores à turbulência internacional, que apenas catalisou
o que aconteceria de qualquer maneira. Com ou sem desordens no exterior, a
crise do crédito já estava em formação e era uma questão de tempo apenas para
que as dificuldades florescessem. São várias causas, onde a básica é que o país
nunca teve uma política de crédito, uma preocupação institucional sistemática com a intermediação
bancária. Insiste-se em práticas ultrapassadas, como tributar o crédito, manter
compulsórios elevados e não modernizar o quadro institucional, mesmo quando a
realidade mostra o contrário.
Os depósitos compulsórios
são um contrassenso. Na prática, a única vantagem
desse instrumento é que barateia o custo de captação de recursos pelo BC. O seu
efeito no crédito é devastador. Além de empoçar a liquidez - o pior dos efeitos
agora -, aumenta os spreads, acentua a volatilidade dos mercados, pressiona a
taxa de juros real e emperra os mecanismos de transmissão da política
monetária. É uma heterodoxia econômica tupiniquim que comprovadamente não
funciona. Todavia, insiste-se. Em dezembro, totalizavam 15% do crédito ociosos
no BC.
A tributação do crédito é
outra medida que atua para agravar o quadro. Num momento em que a palavra de
ordem é baixar o custo dos financiamentos, os impostos atuam na direção
contrária, encarecendo-os. Como parte dos impostos é proporcional à taxa
cobrada, há uma perversidade: quem paga os juros mais altos
também paga mais impostos, além de ter menos margem de negociação do
crédito.
A crise agravou a situação
diminuindo ainda mais a liquidez - a fonte de recursos externos para bancos e
empresas secou e direcionou grandes tomadores para o mercado interno,
deteriorando os termos de troca e reduzindo as expectativas de crescimento.
Todavia, os problemas do crédito têm causas internas: além das travas dos
compulsórios e da tributação, o limite de endividamento dos tomadores, a falta
de liquidez sistêmica, abusos de poder de mercado em alguns segmentos, o quadro
institucional obsoleto e o momento delicado que a economia está atravessando. É
imperativo reverter o quadro. É uma situação singular que exige ações
especiais. Nesse sentido, a prescrição a ser considerada consiste de dez
medidas:
I) Eliminar
os depósitos compulsórios, aumentando consideravelmente a liquidez do sistema
bancário; II) prorrogar os prazos de todos os impostos federais em um mês. A medida
teria o impacto de um crédito para todos os agentes econômicos que pagam
impostos, aliviando temporariamente a demanda por crédito; III) reduzir o prazo
de pagamento dos cartões de crédito ao comércio dos atuais 30 dias para sete
dias (no resto do mundo a demora é de dois dias); e IV) modernizar o
redesconto. Essas quatro medidas atuariam como um choque de liquidez, evitando
o racionamento de recursos, reduzindo a demanda de crédito e aumentando a
oferta de recursos.
V) Zerar
todas as alíquotas de impostos que incidem sobre o crédito; VI)
subsidiar os juros em 2009, incluindo uma dedutibilidade no imposto de renda
correspondente a 10% dos juros pagos para aquisição de bens, na declaração de
2010. Essas duas medidas complementariam as quatro anteriores, reduzindo
rapidamente as taxas de juros finais.
VII) A
implantação de um programa amplo de reestruturação de débitos, focado em
limitar a inadimplência esperada e melhorar a capacidade de endividamento dos
tomadores de crédito, em especial dos pequenos; e VIII) uma fiscalização
e penalização de abusos de poder de mercado. Há distorções que podem e devem
ser corrigidas rapidamente.
IX) A preparação de um
diagnóstico abrangente da economia brasileira e das ações que o governo
pretende adotar.
X) Elaborar uma política de
crédito para o país.
As medidas propostas são
razoáveis e ajudariam a economia brasileira a superar as atuais dificuldades. O
crédito deixaria de ser parte do problema e faria parte da solução. O sistema
financeiro brasileiro é sólido, sofisticado e competitivo, tem um papel
fundamental no desenvolvimento e já superou mais de uma turbulência maior que a
atual.
Roberto Luís Troster é sócio da Integral Trust.
E-mail: robertotroster@uol.com.br
Valor Econômico