Hipocrisia: uma triste ou indiferente realidade
A “desipocritização” das organizações será uma das
mais árduas tarefas que os grandes gestores do futuro terão pela frente.
Quero abordar um assunto pouco
discutido no meio acadêmico ou empresarial, mas que pode comprometer o
ambiente, o desenvolvimento e o futuro de uma empresa: a hipocrisia. O
dicionário Houaiss define a hipocrisia como: 1. característica
do que é hipócrita, falsidade, dissimulação. 2. ato ou
efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções;
fingimento, falsidade. 3. caráter daquilo que carece
de sinceridade.
Em poucas palavras, poderíamos dizer
que a hipocrisia é a manifestação fingida de bons sentimentos. No contexto do
comportamento humano, parece-nos que a hipocrisia – nos dias atuais – é uma
característica comportamental observada em alguns ou vários momentos nos
contextos que fazem parte da vida do ser humano.
Jacques Anatole
France, poeta e romancista francês, dizia que “não há castos: somente doentes,
hipócritas, maníacos e loucos”. É lógico que tal afirmação é radical demais
para um observador mais sensato, porém acreditamos que poucos discordarão de
Napoleão Bonaparte quando disse que “quem sabe adular também é capaz de
caluniar”.
Tenho a impressão de que,
atualmente, a hipocrisia está tão impregnada nas relações humanas que em muitos
momentos ela é – mesmo quando percebida – consentida e bem
recebida pelas pessoas, especialmente as inseguras e com baixa
auto-estima ou carência afetiva. Quem nunca fez um elogio a alguém apenas para
ser gentil ou enaltecer uma qualidade inexistente como forma de incentivo? Ou,
ainda, quem nunca foi bajulado escancaradamente?
A realidade é que a hipocrisia está
aí e, portanto, também está presente no mundo dos negócios e das organizações.
Quantos comerciais veiculados diariamente nos vários meios da comunicação são absolutamente
verdadeiros na intenção, na mensagem ou nas imagens?
Será que não é possível uma empresa
patrocinar um atleta, equipe ou clube e, ao invés de dizer que faz isso em prol
do desenvolvimento do esporte e da juventude em nosso país, afirmar que só
espera um retorno em aumento das vendas, de clientes, da produção e do lucro?
Caro leitor, você acharia isso normal e compraria o produto dessa empresa?
Outro campo onde a hipocrisia é
muito marcante é o da responsabilidade social. Nos últimos vinte anos,
tornou-se cada vez maior o número de empresas que sentiram a necessidade de
passar uma imagem corporativa socialmente responsável e o fizeram através da
propaganda, a forma mais fácil de construir e oferecer ao mercado uma imagem
saudável e positiva. Porém, o lucro – e só ele – parece continuar a ser o único
propósito de muitas empresas!
Inúmeros projetos e programas são
inquestionavelmente excelentes em suas concepções e fundamentalmente
importantes para a sociedade, contudo, é preciso criar uma nova essência de
valor para tratar a responsabilidade social sem hipocrisia.
Nas empresas
Vamos agora abordar
a questão da hipocrisia dentro das empresas. Todo profissional com alguma
experiência sabe que pessoas desleais e individualistas existem em quase todas
as organizações. Sabe também que puxões de tapete, promoções absurdas,
protecionismos incompreensíveis e desrespeitos pessoais ou profissionais não
são ocorrências tão raras. Se tudo isso acontece em tantas empresas, é também
fácil supor que a hipocrisia, por estar tão impregnada no comportamento humano,
seja uma realidade comumente observada dentro das organizações.
Seguramente, você já passou por
alguma situação característica de um comportamento hipócrita. Dentre os
inúmeros exemplos que podem ser mencionados, eis alguns:
• Empregados que ficam após o
expediente a fim de mostrar comprometimento e responsabilidade para seus
superiores;
• Funcionários que chegam na empresa e só
cumprimentam os superiores;
• Subordinados que só almoçam com os chefes e evitam os colegas;
• Aqueles que só elogiam o chefe, mesmo após uma decisão equivocada ou
precipitada;
• Aqueles que agradecem, mesmo não concordando, pela explicação do porquê
a promoção foi concedida a outro funcionário e não para si;
• Aqueles que se desculpam junto ao superior após receber uma “bronca” que
não mereciam;
• Aqueles que elogiam um colega quando ele está presente e, quando o mesmo
se retira, criticam-no abertamente;
• Aqueles que dizem sentir-se privilegiados por fazer parte de uma equipe
da qual discordam totalmente.
A realidade é que a hipocrisia está
sempre presente e é difícil dimensionar com que frequência ela se torna um mal efetivo para as organizações.
Um mal necessário?
Neste ponto,
levanta-se a seguinte questão: é possível criar um ambiente interno
absolutamente isento de hipocrisia? É muito difícil, senão quase impossível.
Primeiramente, em razão da natureza humana, que, em tantas circunstâncias,
engana-se ao aceitar a hipocrisia como uma atitude sincera, educada ou
motivacional. Em segundo lugar, porque no mundo corporativo, apesar do
esgotamento dos atuais modelos de gestão, ainda não se conseguiu desenvolver um
novo modelo em que prevaleça – nas palavras, nos gestos e nas ações – a
sinceridade absoluta, o respeito em todos os graus e a franqueza custe o que
custar.
Imagine um ambiente em que, por pior
que fosse a crise, a direção chamasse todos os funcionários e anunciasse, com
total franqueza, o corte de alguns deles para viabilizar a manutenção da
operação com a lucratividade mínima imposta pelos acionistas. O que aconteceria
com o moral e comportamento dos funcionários que ficassem? Como seriam
escolhidos os demitidos? Como fazer um corte sem protecionismos ou preferências
pessoais? Qual seria a posição do sindicato diante dessa situação?
Suponha agora um funcionário atender
uma reclamação em razão da qualidade e concordar com o cliente que, apesar da certificação ISO 9000, o produto adquirido é o que
de melhor a empresa consegue fazer, que o produto do concorrente é superior,
mas que espera que, como cliente, ele entenda a situação e continue
comprando em razão da franqueza demonstrada. Ponha-se no lugar desse cliente. O
que você faria ou diria?
Certamente, ainda estamos distantes
de um ambiente corporativo isento de hipocrisia. Mas não custa sonhar – e
desejar – que um dia isso será possível se, desde já, for iniciada uma mudança
de conduta de nossas lideranças, com práticas diárias onde prevaleça a franqueza (em tudo que for possível) e o incentivo ao
aprendizado sobre o que é hipocrisia e seus malefícios para as pessoas e para a
organização.
A “desipocritização”
(embora a palavra não exista) de nossas organizações será uma das mais árduas
tarefas que os grandes gestores do futuro terão pela frente. Por ora, talvez
tenhamos que concordar com Rafael Russon quando ele
afirma que “a hipocrisia no ambiente de trabalho começa na entrevista de
emprego e só termina com aquele e-mail de despedida ao sair”.
É uma triste realidade, infelizmente!
Por Carlos Alberto Zaffani (administrador de empresas e contador, membro do
Instituto de Marketing Industrial e do Banco de Pensamento da Escola de
Marketing Industrial)
HSM – Online - 18/11/2009
http://br.hsmglobal.com/notas/55441-hipocrisia-uma-triste-ou-indiferente-realidade?utm_source=181109_gestao&utm_medium=181109_gestao&utm_content=181109_gestao_hipocrisia-uma-triste-ou-indiferente-realidade&utm_campaign=181109_gestao