Governo taxa capital estrangeiro para segurar real, evitar bolha
SÃO PAULO
(Reuters) - O governo decidiu taxar o capital estrangeiro que entrar no país
para aplicações em renda fixa e ações com o objetivo de evitar uma valorização
exagerada do real e a criação de uma bolha decorrente do excesso de liquidez
internacional.
O ministro
da Fazenda, Guido Mantega, anunciou a medida
informando a tributação, a partir de terça-feira, por meio de IOF com uma
alíquota de 2 por cento.
Segundo Mantega, a taxação irá se dar de
uma vez na entrada do capital. Desse modo, quanto mais tempo a
aplicação durar, mais diluída será a tributação.
"O
que determinou (a medida) por um lado foi o crescente interesse pelo Brasil,
que é uma das economias que mais oferece possibilidade de rendimentos e, por
outro lado, um excesso de liquidez na economia internacional, que poderia
causar sobrevalorização do real... prejudicando o emprego no Brasil,
prejudicando a produção", disse Mantega a
jornalistas.
O ministro
argumentou que 25 por cento da produção industrial do país é direcionada à
exportação.
"Com
o câmbio valorizado, vai exportar menos, vai perder concorrência, inclusive com
outros concorrentes que nem usam as mesmas regras que nós", disse, citando
que a China voltou a adotar um câmbio controlado.
Ele
reforçou que o regime adotado no Brasil continua sendo flutuante, e que Banco
Central seguirá "comprando o excesso de dólares".
"Podemos
até pensar em outras medidas para atenuar algo que é quase inevitável, que é o
interesse crescente que existe hoje pelo Brasil."
INVESTIMENTO
DIRETO SEM TAXAÇÃO
No caso do
investimento direto estrangeiro, "não muda nada, não há tributação
adicional de IOF".
"Estamos
mantendo o estímulo no investimento externo. São bem-vindos, continuarão a
vir", afirmou o ministro, que disse ter convencido apenas nesta
segunda-feira o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a necessidade da
medida.
"Estamos
adotando (as medidas) para evitar que haja um excesso de especulação na bolsa
ou no mercado de capitais em função da grande liquidez que existe hoje no mercado
externo e forte atrativo que o Brasil exerce no mercado internacional."
Segundo Mantega, a taxação não visa melhorar a arrecadação, que tem
demorado para se recuperar, apesar da retomada
econômica.
"O
IOF é um imposto regulatório, o objetivo não é a arrecadação, o objetivo é
regular o fluxo de capital. Quando são excessivos você
coloca um tributo para diminuir seu impacto."
Mantega ressaltou que as medidas não devem levar a uma
desvalorização do real. "Mas podemos evitar um excesso de
valorização."
Até agora
neste ano, o real teve uma valorização de 36 por cento. Nesta segunda-feira, o
câmbio encerrou com o dólar cotado a 1,712 real para
venda.
"Nossa
preocupação é com excesso de aplicações especulativas de curto prazo que venham
a fazer uma bolha na nossa bolsa", explicou.
"A
nossa bolsa de mercadorias e futuros é muito sadia, sólida... não queremos que
isso seja deturpado pelo excesso de investimento, de aplicações que poderiam
ocorrer."
No ano
passado, o governo alterou duas vezes o IOF sobre investimentos estrangeiros em
uma tentativa de interferir no fluxo de capitais para o país.
Em março,
a taxação foi reintroduzida --dois anos após ter sido retirada-- para reduzir o
ingresso de dólares no país e limitar a apreciação do real. Diante dessa
decisão, os investimentos estrangeiros em renda fixa caíram cerca de 5 por
cento no mês seguinte. Em outubro, em meio ao agravamento da crise financeira
global e da alta do dólar, o governo voltou a retirar a taxação.
Para
participantes dos mercados financeiros, a medida deve ter um efeito limitado,
ainda que negativo no curto prazo.
"A médio prazo, a medida terá efeito limitado... não é com
medidas administrativas que você muda uma tendência", disse à Reuters
Roberto Padovani, economista-chefe do WestLB. "Mas isso cria um ruído de curto prazo: haverá
menos confiança dos investidores na estabilidade das regras."
O ministro
informou que não há um prazo determinado para a validade dessa taxação e que o
governo vai acompanhar as reações do mercado e pode fazer ajustes se considerar
necessário.
Por Paula Laier
http://portalexame.abril.com.br/agencias/reuters/reuters-negocios/detail/governo-taxa-capital-estrangeiro-segurar-real-evitar-bolha-571343.shtml