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Se ou quanto investir em ações? O foco está mudando


Com a decisão do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) de reduzir a taxa Selic de 9,25% ao ano para 8,75% ao ano, o Brasil passou a ter a menor taxa básica de juros desde a sua criação, em junho de 1996. Essa situação reflete uma mudança estrutural e inexorável pela qual atravessa a economia brasileira, cujos fundamentos consolidam a formação de um cenário benigno caracterizado pela estabilidade de preços, pela sustentabilidade da dívida pública e pela melhora da percepção de risco pelos investidores estrangeiros.

Nesse contexto, um paradigma importante começa a ser quebrado: a fase do ganho fácil com os juros altos obtidos nas aplicações de renda fixa - conhecida popularmente como "ciranda financeira" - parece estar superada. Ela tende a ser substituída por uma nova etapa, em que o investidor deverá inevitavelmente correr mais riscos se desejar obter maior rentabilidade nos seus investimentos.

A principal alternativa à renda fixa no Brasil é, sem dúvida alguma, o mercado de ações (renda variável), onde o risco é maior. Entretanto, as oportunidades de ganhos também são. Esse mercado ganhou impulso considerável nos últimos anos por diversas razões, entre as quais podemos destacar:

1) O cenário econômico favorável contemplando queda na taxa de juros real estimulou a iniciativa privada a buscar financiamento para execução de seus projetos de investimento produtivo via abertura de capital das empresas, culminando na entrada de novas companhias na bolsa de valores;

2) O amplo processo de divulgação realizado pela Bovespa nos diversos setores da sociedade sobre a importância do mercado de ações despertou grande interesse por parte das pessoas físicas (incluindo-se, nesse público, a nova geração) em conhecer melhor as regras e o funcionamento desse mercado, resultando em maior presença desse tipo de investidor na bolsa;

3) As iniciativas governamentais no sentido de permitir a utilização parcial dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para a compra de ações - a exemplo dos papéis da Petrobras e da Vale - contribuíram para aproximar o pequeno investidor do mercado de ações.

Paralelamente a essa nova fase, algumas mudanças no comportamento dos investidores também têm sido percebidas, especialmente em relação à decisão de alocação dos recursos. Por exemplo, a questão básica se devo ou não investir em ações, aos poucos, está sendo substituída por quanto devo investir em ações. Em outras palavras, aquele receio natural do investidor brasileiro de aplicar o seu dinheiro na bolsa está ficando para trás. A dificuldade agora reside na calibragem de sua exposição ao risco nesse mercado (maior ou menor, dependendo de suas expectativas de retorno futuras).

Essa mudança natural do eixo de análise do investidor nos parece perfeitamente compatível com a evolução dos fundamentos macroeconômicos internos atuais e, sobretudo, com o cenário prospectivo. Sim, porque em um ambiente de juros real expressivamente menor, a prioridade de alocação de recursos tenderá para o financiamento da atividade produtiva em detrimento da atividade financeira especulativa. Isso beneficia o resultado das empresas, aumentando o valor de mercado das mesmas e, consequentemente, o preço de suas ações em bolsa.

A ponderação do binômio risco-retorno, portanto, se fará cada vez mais presente na mente do investidor, pois as decisões em relação à alocação dos recursos dependerão fundamentalmente do seu perfil de risco (conservador, moderado ou agressivo). Sendo assim, caberá a ele não somente aprofundar o conhecimento sobre a dinâmica do mercado de ações, mas, sobretudo, conhecer a si próprio em termos de tolerância ao risco. Dessa forma, a transição entre os estágios do "se" e do "quanto" se dará de forma madura, tranquila e consciente, aumentando as chances de sucesso nos negócios.

Por último, muita calma nessa hora! Mais do que uma mudança estrutural de paradigma e de conceitos, nós estamos vivendo um rico processo de aprendizagem e de reeducação financeira, processo este em que a pressa, definitivamente, não tem vez. Afinal, como se costuma dizer no métier desse mercado: "Bolsa tem todo dia!"
Boa sorte, muito sucesso e prosperidade para os investidores nessa nova era!

Gélio Luiz Barreto Barbosa é gestor dos fundos de ações e multimercados da Fator Administração de Recursos (FAR)
Valor Econômico - 10/08/2009
http://www.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/




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