Portabilidade do crédito ainda patina
A possibilidade de
os brasileiros mudarem de operadora de telefonia celular, levando consigo o
número, reaqueceu a concorrência entre as operadoras
do setor. No setor bancário, onde a portabilidade do crédito é possível há mais
de dois anos, os efeitos práticos da medida são pouco conhecidos. Lançada em
setembro de 2006 pelo governo como parte de um pacote para estimular a
concorrência e baixar o spread bancário, a chamada portabilidade do crédito
ainda não deslanchou. O Banco Central (BC) e a Federação Brasileira dos Bancos
(Febraban), procurados pela
reportagem, afirmaram que não existem dados sobre os efeitos concretos da
medida. O crédito consignado é o único segmento em que houve,
segundo executivos do setor, uma intensificação da disputa pelo cliente,
estimulada pela portabilidade.
Desde o lançamento do
pacote de estímulo à concorrência e de mudanças posteriores que ampliaram a
abrangência da medida, créditos como cheque especial, consignado, crédito
direto ao consumidor (CDC) e financiamentos de veículos e imóveis podem ser
levados de um banco para outro pelo cliente, em busca de melhores taxas. Para o
presidente da Associação Brasileira dos Bancos (ABBC), Renato Oliva, os efeitos
do pacote do governo são limitados porque nem sempre é interessante para o
cliente, o que limita a demanda pela portabilidade.
Oliva cita dois exemplos de
operações bem distintas. "Em créditos de curto prazo, de alguns meses como
o CDC, não vale a pena nem para o cliente nem tampouco para o banco entrar na
briga para estimular a portabilidade de uma operação de três ou seis
meses", explica Oliva. Já para o crédito imobiliário, de mais longo prazo,
o problema é outro, ligado ao modelo adotado no País. "Disputar esse
cliente, estimulando a portabilidade do crédito, sai muito caro e compromete
uma eventual redução na taxa de juros cobrada", diz o executivo, lembrando
custos como averbação do imóvel para o banco que assumirá o crédito, com a
avaliação do imóvel, certidões negativas, registro de nova hipoteca, entre outros.
"Negociações do setor imobiliário no Brasil são muito
burocratizadas."
Na prática, diz Oliva, a
portabilidade do crédito só acabou funcionando bem no segmento consignado.
"Neste caso, a formalização é mais fácil. O custo para a portabilidade do
crédito é muito pequeno e tem sido grande a disputa entre os bancos", diz
ele.
Para o professor de
finanças do Ibmec-SP Alexandre Chaia, uma
característica particular do mercado brasileiro dificulta a utilização maciça
da portabilidade. "O brasileiro preza o relacionamento com seu banco, com
o gerente, e ninguém quer perder este histórico de relacionamento porque isto é
importante", diz Chaia. "O nível de
fidelização no Brasil é muito elevado e a medida de portabilidade do crédito
esbarrou neste aspecto."
Quando o assunto é o
crédito consignado, lembra o professor do Ibmec-SP, a disputa pelo cliente
ocorreu, principalmente, entre os bancos médios. "Neste caso, é menos
comum o longo relacionamento banco-cliente. O vínculo é baixo, o que facilita a
portabilidade", explica. Para Chaia, no futuro o
que pode ajudar é o cadastro positivo, por meio do qual os bancos vão
compartilhar as informações do cliente. "Quando isso ocorrer, o
relacionamento banco-cliente perderá a importância na hora de conseguir um
crédito ou elevar o limite estabelecido, mas isso demandará tempo."
Procurados, Banco do Brasil, Bradesco, Santander e Itaú-Unibanco não falaram
sobre o assunto.
Gazeta
Mercantil/Finanças & Mercados
Jiane Carvalho
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