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Consumidor mantém seus gastos e a economia agradece


Nos últimos dois anos, os consumidores passaram por um teste após outro, da disparada dos preços da gasolina à queda brusca do mercado imobiliário residencial. Agora, novos temores estão surgindo com as hipotecas subprime, um mercado de ações nervoso e os crescentes temores de que a economia como um todo possa estar em risco. Será que 2007 será o ano em que os consumidores finalmente deixarão de gastar?

Não conte com isso. Em todos os apuros, mercados de trabalho fortes sempre correram em socorro, e este ano não deverá ser diferente.

A desaceleração da economia nos últimos trimestres tem se mostrado confinada quase que exclusivamente aos setores industrial e da construção. Uma coisa está passando quase que despercebida entre as manchetes de jornais sobre a recessão no mercado imobiliário residencial e os dados pouco animadores sobre a produção industrial: o vigor duradouro do amplo setor de serviços. Esta é a área da economia americana que vem gerando muitos empregos e renda.

Os setores que produzem serviços representam 58% do valor de todos os bens e serviços finais produzidos nos EUA, e respondem por 81% de todas as folhas de pagamento do setor privado. O crescimento econômico do setor, medido por sua participação no PIB real, na verdade acelerou no ano passado, com um ganho de 2,4% no primeiro semestre, 2,8% no terceiro trimestre e 3,8% no quarto trimestre, o maior crescimento trimestral em quase três anos.

Certamente as perspectivas envolvem novos riscos: o nervosismo do mercado está deixando as empresas um pouco mais cautelosas, e o tamanho do impacto da débâcle do mercado de empréstimos imobiliários subprime sobre o mercado de crédito ainda é desconhecido. Alguns proprietários de residências vão sofrer na medida que o crédito ficar mais escasso, mas a criação constante de novos empregos e o aumento da renda vão ajudar a aliviar qualquer impacto mais duro sobre os gastos do consumidor. O aperto de crédito raramente se torna um problema para o setor imobiliário residencial, contanto que o mercado de trabalho esteja forte.

Até agora, as companhias do setor de serviços mostram pouca hesitação em contratar. Aumentos recentes nas folhas de pagamento sugerem que a maioria das empresas do setor continua comprometida com a expansão de suas operações, o que está se mostrando um suporte importante aos gastos das famílias americanas. E novos números sobre os patrimônios líquidos das famílias mostram que os consumidores ainda continuam gerando riqueza.

No mercado de trabalho, as folhas de pagamento aumentaram em 97 mil trabalhadores em fevereiro, mas isso refletiu um aumento e 168 mil trabalhadores nas folhas de pagamento das empresas do setor de serviços, em comparação a uma queda de 62 mil no setor da construção e 14 mil na indústria. Os serviços de cuidados com a saúde, serviços profissionais, entretenimento e serviços alimentícios foram os grandes ganhadores.

Fevereiro trouxe até mesmo algumas boas notícias do setor industrial. Embora os empregos nas fábricas tenham caído, o padrão das horas trabalhadas, incluindo um aumento das horas extras, sugere uma recuperação da produção industrial no mês passado. Esse pulo, que provavelmente será confirmado por dados sobre a produção industrial que serão anunciados, estaria consistente com os resultados de outras pesquisas recentes sobre a atividade industrial. As empresas parecem estar progredindo no alinhamento de seus estoques à demanda. Os estoques cresceram apenas 0,2% em janeiro, dando continuidade à desaceleração dos grandes aumentos mensais do ano passado.

O clima foi um grande fator na contratação e nos gastos do consumidor no mês passado. As vendas no varejo em fevereiro mal cresceram em comparação a janeiro, mas muitas lojas perceberam o quanto o inverno rigoroso afetou suas vendas. Os consumidores fizeram muitas comprar do conforto de seus lares. As vendas por catálogo e pela internet aumentaram 2,8%, depois de ganhos mensais médios de só 0,5% durante o ano passado. As vendas gerais em fevereiro ainda estiveram num nível alto o suficiente para sugerir que os gastos reais do consumidor no primeiro trimestre vão crescer cerca de 3%.

O cálculo pelo Departamento do Trabalho do número de pessoas que disseram não estar trabalhando no mês passado por causa do clima ruim apresentou a maior leitura desde a nevasca de janeiro de 1996, e esse número foi mais do que o dobro do registrado em fevereiro de 2005. Parte da queda do número de empregos no setor da construção refletiu uma fraqueza genuína nos imóveis residenciais, mas as folhas de pagamento também diminuíram bastante em áreas em que o crescimento é forte, como a da construção corporativa.

Mesmo com os dois grandes obstáculos dos setores industrial e da construção, as folhas de pagamento registraram no geral ganhos mensais médios de 162 mil empregos nos últimos seis meses, um pouco abaixo dos 171 mil mensais dos seis meses anteriores. Mas dê uma olhada nos empregos no setor de serviços. Durante os mesmos dois períodos, os ganhos no setor se aceleraram, totalizando 188 mil empregos por mês, em comparação a 157 mil.

O vigor do setor de serviços é o motivo da taxa de desemprego continuar caindo. Ela atingiu 4,5% em fevereiro e se o ritmo recente de crescimento do nível de emprego prosseguir, ela será rápida o suficiente para continuar derrubando a taxa de desemprego. Além disso, considere que o desemprego na construção aumentou quase dois pontos percentuais ao longo do último ano, para 10,5% em fevereiro. Fora da construção, os mercados de trabalho estão ainda mais apertados do que a taxa geral de desemprego de 4,5% sugere.

O aperto contínuo na maior parte dos setores do mercado de trabalho está contribuindo para a pressão de alta dos salários e ajudando a gerar ganhos sólidos na renda dos trabalhadores que estão sendo mais do que duas vezes maiores que a taxa da inflação. No geral, o salário por hora dos trabalhadores na produção cresceu 4,1% em fevereiro em relação ao mesmo período do ano passado, número que em 2005 foi de 3,1% e em 2004 de 2,6%, e a remuneração do setor de serviços está liderando o crescimento. Além disso, o governo diz que os ganhos de salário provisionados do quarto trimestre, na forma de bonificações e opções, vão aumentar a renda pessoal no primeiro trimestre.

Além dos bons ganhos salariais, os orçamentos domésticos no geral também estão em excelente condição. O patrimônio líquido familiar - ativos menos obrigações - cresceu para o recorde de US$ 55,6 bilhões no quarto trimestre. Como porcentagem da renda após os impostos, este é o maior nível em mais de seis anos.

Ao longo desse ciclo de negócios, os consumidores repetidamente têm mostrado uma resistência surpreendente. No entanto, por causa dos mercados de trabalho apertados, dos ganhos de renda sólidos e dos orçamentos saudáveis, uma continuação dessa capacidade de permanência em 2007 não deverá ser uma surpresa.

BusinessWeek
Valor Econômico





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