Psicanalista trabalha o peso dos aspectos emocionais nas decisões de consumo
Que razões levam as pessoas
a gastar mais do que ganham? Por que compramos coisas que não nos serão úteis?
Por que agimos por impulso na hora em que devíamos decidir com a razão? Afinal,
por que temos dificuldade em ser consumidores conscientes? Os dilemas e
angústias dos indivíduos na sociedade do consumo é o tema da entrevista que a
redação do Akatu realizou com
a psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia
do consumo e professora do curso extensão de Psicanálise e Psicologia
Econômica, da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo).
Ela gosta de pensar em si
mesma como pesquisadora do mundo mental,
como alguém que se interessa, de modo especial, pelo funcionamento da
mente, com ênfase nos aspectos emocionais. A professora trabalha com o
tema de tomada de decisões nos âmbitos econômicos por dentro - ou seja, procura destrinchar como a nossa mente
opera ao ter que fazer uma escolha entre diversas alternativas.
Depois de passar em
primeiro lugar no vestibular, Vera Rita se formou em Psicologia
pela PUC-SP. Também estudou na State
University of New York, em Buffalo, nos EUA, especializou-se em Psicanálise
no Instituto Sedes Sapientiae, e
sua experiência no atendimento a pacientes clínicos a levou, nos anos 80, a se interessar pelo trabalho com Psicologia
Econômica.
AKATU - Quais os
principais alicerces da Psicologia Econômica?
VERA RITA - Próxima à Economia Comportamental
e às Finanças Comportamentais, a Psicologia Econômica existe há mais de
100 anos na Europa e nos EUA, com ampla produção de pesquisa e bibliografia.
Ela surgiu no final do século XIX, e foi usada pela primeira vez por um
cientista social francês, Gabriel Trade. A teoria tem
se desenvolvido bastante no exterior, mesmo assim ainda é uma área pouco
difundida em
nosso país. A Psicologia Econômica demonstra que as escolhas
financeiras têm sua eficiência limitada pelas emoções das pessoas que decidem,
e procura trabalhar esses conflitos. A
economia por si só é racional, coisa que as pessoas não são.
AKATU - Como e por que a
senhora chegou à Psicologia Econômica?
VERA RITA - Nos anos 80 e 90 vivemos um
período de descontrole da inflação e de grande turbulência econômica.
Assistíamos aos sucessivos planos e pacotes que procuravam dar cabo dela sem
sucesso. Percebi, nos meus clientes, como a situação econômica mexia, afetava
as pessoas, as suas vidas e de suas famílias. Alguns desses clientes se davam
muito bem com
a inflação e outros, ao contrário, se davam muito mal.
Percebi que aqui havia um terreno fértil para verdadeiramente desvendar os
aspectos psíquicos dos fenômenos econômicos. Se por um lado, buscamos o prazer, de outro,
precisa haver o reconhecimento de que os recursos para isso são limitados.
AKATU - Quais as orientações da
Psicologia Econômica, além das que já são transmitidas no planejamento
financeiro?
VERA RITA - O planejamento financeiro
contempla a realidade financeira do indivíduo, quanto ele pode ou não pode
gastar. Mas por que esse planejamento é tão difícil de ser seguido? Por que as
pessoas têm de fazer a sua parte e não fazem? Simplesmente porque outros
aspectos devem ser levados em conta, aspectos psicológicos, comportamentais e
não apenas o racionalismo proposto pela economia. A verdade humana é exatamente
o contrário disso, a razão é escrava da emoção. A Psicologia Econômica traz
essa visão para complementar o planejamento financeiro.
AKATU - Quais as razões
psicológicas que levam as pessoas a comprar por impulso?
VERA RITA - Numa sociedade voltada para o
consumo, o prazer imediato é buscado de maneira incessante. Muitas vezes a
realidade é frustrante e as pessoas acreditam que ao comprar um celular de
terceira geração, vão encontrar a felicidade. Ao não encontrar a felicidade nas
compras, vem uma frustração ainda maior. Para piorar, o endividamento
desse indivíduo vai trazer mais angústias, criando um círculo vicioso.
AKATU - Como é possível
atingir o equilíbrio entre prazer e realidade?
VERA RITA - É exatamente aí, nesse
equilíbrio, que reside o grande desafio. Esse é o foco, é o eixo do trabalho da
psicologia econômica: colocar o indivíduo em equilíbrio com a realidade de sua
vida. Todo mundo tem aversão ao sentimento de frustração, de perda e de finitude, que bem ou mal é o destino de todo ser humano.
Sempre há uma carência interna difícil de escapar e alguns tentam
resolver isso por meio de compras. As pessoas que são mais suscetíveis à
compulsão, em geral, vivem uma angústia interna muito grande. Às vezes a pessoa
pode ficar mais de uma hora em conflito se deve ou não comprar algo. Isso está
muito longe de se transformar em felicidade. É preciso encontrar outras formas
de lidar com a
angústia.
AKATU - E os apelos de
consumo? A sedução da publicidade?
VERA RITA - Vivemos numa sociedade que pode
ser definida como infantilizada. Estamos todos infantilizados. A cultura do
endividamento, do crédito, do consumo, apela para sentimentos infantis. A
publicidade não precisa fazer tanta força para nos convencer. Nós queremos ser
enganados. Mesmo que no fundo todos saibamos que os momentos de satisfação são
provisórios. É o modelo de comportamento do bebê que chora de fome e, se o
leite demora a vir, começa a chupar o dedo. Com isso ele 'engana',
durante algum tempo, o desconforto causado pela fome. A ação motora, nesse
caso, tem o objetivo de 'descarregar' a tensão, mas não obtém leite
realmente. Essa medida tem prazo de validade, e o bebê acabará por abandoná-la
por se mostrar infrutífera para matar sua fome de fato. Mas enquanto durar, ele
poderá se enganar, e se manter na ilusão de que solucionou o problema,
modificou a situação.
AKATU – E hoje vivemos
também a urgência de mudanças em busca da sustentabilidade...
VERA RITA – As pessoas precisam entender que
os nossos recursos são finitos. Mas é muito difícil falar de questões
ambientais, de sustentabilidade, para aqueles que nem mesmo conseguem cuidar de
suas finanças pessoais. Em palestras que faço sobre psicologia econômica ainda
tem muita gente que estranha a relação entre finanças e sustentabilidade.
AKATU - Qual o perfil
das pessoas que resolvem esse conflito entre consumo x sustentabilidade?
VERA RITA - É exatamente o sujeito que
suporta, que agüenta estar em contato com a realidade. É
aquele que tem noção de todo o processo, ou seja, a noção do quê os seus atos
desencadeiam desde o momento que decide pela compra.
AKATU - Esse cidadão
pode ser chamado de consumidor consciente?
VERA RITA - Pode sim. É aquele que consegue
fazer as suas escolhas com consciência do significado e das conseqüências de
seus atos de consumo. O princípio é que você deve ser responsável pela sua
própria vida e por todo o desencadeamento provocado por suas escolhas.
AKATU - Diante desse
quadro como fazer escolhas e empoderar o
cidadão/consumidor?
VERA RITA - O nosso trabalho, além de buscar
o equilíbrio pessoal, é contribuir para harmonizar a relação das pessoas com o
meio em que vivem.
Buscamos exatamente revelar em cada indivíduo, um
cidadão que sinta-se capaz de fazer escolhas. O consumidor só tem poder se ele
se sentir seguro de suas escolhas e da sua capacidade de dizer sim ou não.
AKATU – Quais são os
principais conselhos para que uma pessoa adote comportamentos mais equilibrados
nas suas relações de consumo?
VERA RITA - Vai ser preciso abrir mão da
satisfação imediata. Mas só se consegue fazer isso após realizar um processo de
autoconhecimento que
permita fazer mudanças e tomar decisões que contribuam para uma vida mais
equilibrada, psicologicamente e economicamente falando.
Para ir à livraria
ver o livro, clique aqui
Fonte:
Instituto Akatu
http://www.akatu.org.br/central/especiais/2008/consumo-no-diva