A interferência da queda dos juros no seu plano de aposentadoria
Em 1999, passei a atuar
no mercado de previdência privada. Naquela época, os planos eram
verdadeiras caixas pretas, por vezes, verdadeiros ovos de Colombo. Vendia-se
mais o conceito dos produtos, a necessidade e o temor do cliente com o
sistema público. Em segundo plano, ficavam a qualidade dos produtos, taxas,
rentabilidades e os benefícios do sistema.
Quando o cliente era
interrogado sobre a idade da aposentaria, imediatamente, a maioria respondia:
com 55 ou 60 anos. Se fosse sugerido ao cliente a
faixa de 65 anos, a resposta era “quer me ver de bengala e um cofrinho, aos
65 anos, estarei muito velho! … Nem pensar! …Quero poder aproveitar mais a
vida e não a morte”. A pessoa com plano de previdência era considerada de
vanguarda, à frente das demais.
Naquele momento, o
Brasil vivia uma verdadeira euforia. O presidente havia sido destituído.
Abriu-se o mercado para novos produtos e serviços. A crença era de que o
futuro seria melhor para. A inflação estava dominada.
Pela primeira vez, em
vinte anos, falava-se em produtos de longo prazo. Quem acreditou que aqueles
dias de estabilidade monetária vieram para ficar, está hoje colhendo os
frutos e que bons frutos...
Os produtos eram todos no
formato de “Renda Garantida”. TR ou IGP-M eram usados como indexadores, com
rentabilidade de 6% ao ano. Os ganhos excedentes eram divididos meio a meio
com o cliente. A taxa administrativa chegava aos 12% ao ano sobre a
contribuição.
Ao final de 1999, apareceram
os novos produtos que revolucionariam o mercado de previdência privada.
Tinham o formato dos norte americanos 401K.
Prometiam mais transparência ao consumidor. Maior segurança ao sistema,
pois não haveria mais o passivo atuarial da “renda garantida” com o
prolongamento da vida humana pela medicina. Assim, a maior parte do “risco de
sobrevivência” do cliente e do sistema era transferido para ele próprio.
Os novos produtos
tornaram as empresas de previdência privada mais sólidas. O sistema
ficou menos vulnerável e mais transparente. Assim, o cliente passou a ser
responsável por aquela reserva que antes era exercida pelas empresas. Ou
seja, precisará poupar cada vez mais para poder suprir sua necessidade
financeira, sempre crescente, com a sua maior longevidade.
Hoje, em que o Governo,
dito de esquerda, se torna mais ortodoxo em política
econômica do que um Governo mais à direita, se criou um novo “fato
previdenciário”: a queda da taxa de juros reais. Quem diria que, em tão
pouco tempo, a estabilidade passaria a ser fator de preocupação para todos
nós participantes do sistema?
Nos últimos 60 meses, até
setembro de 2006, tivemos um IGP-M de aproximadamente 66% e uma rentabilidade
aproximadamente de 125%. Foram tempos de muita volatilidade dos mercados que
deixaram um belo saldo em nosso planos de
previdência.
Com a taxa de juros
caindo para cerca de um dígito, todo planejamento traçado, baseado em taxas
reais de dois dígitos, terá que ser estrategicamente refeito
Há três alternativas para
o atual cenário:
1) Aumentar o
risco. Isso significa mais aplicações para buscar as perdas com taxas
menores.
2) Aumentar ou esticar a
data da aposentadoria. O período de descanso da pessoa chegaria alguns anos
mais tarde.
3) Aumentar as
contribuições.
Resolvi fazer uma
pesquisa, por conta própria, com um grupo de clientes com renda mensal
superior a R$ 10 mil ao mês e faixa etária entre 35 e 55 anos. São
executivos, profissionais liberais e pequenos e médios empresários.
Para minha surpresa, boa
parte deles falou candidamente que, dentre as três alternativas apresentadas,
a mais indicada seria o aumento da data para se aposentar. Ou seja,
esticar o período de contribuição até os 70 anos.
Posso afirmar, com toda
certeza, que esta seria a última hipótese há cerca de 10 anos. A mudança de
opinião deve-se à nova realidade: taxa de juros declinando para um digito
real, novas tributações de 10% a 35% e longevidade das pessoas da
classe A, chegando aos 90 anos.
Há duas novas realidades:
uma em que a torneira passaria só a pingar e o outro cenário em que o ralo
tenderia a ser maior para se obter o mesmo volume de recursos em nossa “caixa
d’água financeira”.
Na prática, isso
significa o seguinte: a pessoa terá mais dificuldade para atingir o objetivo
dela. Portanto, há duas opções: fazer mais esforço na fase de acumulação ou
retirar maiores fatias do total acumulado para obter as
mesmas receitas previamente previstas.
Hoje, a necessidade não é
só de uma previdência privada. No mínimo, seriam necessárias três. Uma delas,
para a sobrevivência diária. A outra renda seria para sustentar as despesas médicas e planos de saúde que, em alguns
casos, já são superiores as despesas com a sobrevivência. O terceiro plano de
previdência seria para os grandes imprevistos, incluído aí a própria longevidade
Viver mais é extremamente
caro. Além dos custos elevados para manter a qualidade de vida, há também
mais tempo para a pessoa adoecer.
É importante ressaltar
que a evolução dos produtos de previdência privada vem da qualidade e
segurança dos fundos, da solidez do mercado, da rigidez da fiscalização
da Susep, da transparência, cada vez maior, das
empresas.
Acredito que nosso pais poderá, em poucos anos, deixar as deprimentes e
assustadoras filas dos INSS ou de um posto de saúde. Que nossas famílias
possam enriquecer e transmitir essa riqueza para suas futuras gerações,
deixando para trás um período de empobrecimento familiar ,
pois um país forte se constrói com famílias fortes e, conseqüentemente,
mais ricas.
Augusto Sabóia - consultor financeiro
http://www.letraselucros.com.br/artigos/pages.aspx?id=48