Se não for
acompanhado de educação financeira, todo o crescimento do crédito pessoal
observado nos últimos dois anos pode levar as pessoas ao consumo excessivo e
ao sobreendividamento, com conseqüências
desastrosas não só para o orçamento pessoal e familiar, mas também para a
própria saúde do sistema financeiro. A análise é de especialistas que
participaram ontem do painel "O Dinheiro Consciente", do Congresso
de Cartões e Crédito ao Consumidor.
Segundo dados apresentados pela seguradora
Cardif, em uma pesquisa intitulada "Proteção
do Orçamento Familiar", divulgada no último painel do primeiro dia do
congresso, a participação do crédito no Produto Interno Bruto (PIB)
brasileiro subiu de 23% a 24% em 2002 para 28% em 2005, e a projeção é
superar 35% nos próximos dois anos.
"Há uma absoluta inconsciência"
dos brasileiros no momento da compra, que geralmente é feita por impulso,
dentro da lógica de que "se (a prestação) cabe no bolso, dá para
comprar", observou Vitor Morgensztern,
consultor em desenvolvimento de pessoas e organizações da consultoria Dossier e da World Business Academy, entidade internacional dedicada à administração
de empresas.
Citando o filósofo Jean Beaudrillard, Helio Mattar, um dos fundadores e atual
presidente do Instituto Akatu Pelo Consumo
Consciente, relacionou a atual demanda por crédito à insegurança em relação
ao desemprego que atinge todo o mundo capitalista. Essa insegurança, disse,
tem gerado "uma sociedade ansiosa e dominada pelo medo", no qual as
pessoas são levadas a crer que devem viver apenas o presente, sem se
preocupar com o futuro. "É o mundo do aqui e agora, onde, naturalmente,
o crédito é o instrumento central para antecipar os prazeres que não podem aguardar",
afirmou Mattar. O resultado é que o consumidor perde a noção do limite de
seus rendimentos e da capacidade de se endividar.
Para Mattar, essa é a síndrome que atinge
os Estados Unidos - país sempre tomado como referência entre os formuladores
de políticas de crédito, públicas e privadas, como exemplo de como o dinheiro
emprestado é acessível e cria riquezas. Dados do Federal
Reserve (Fed, o banco central americano),
revelam que, somando os débitos tradicionais mais as hipotecas para compra da
casa própria, os americanos devem hoje US$ 9 trilhões, o dobro do que deviam
dez anos atrás. A dívida per capita no país, de US$ 7 mil, já acendeu o sinal
de alerta dos economistas em todo o mundo. Eles prevêem uma catástrofe de
inadimplência se, em algum momento, o Fed for
obrigado a elevar muito a taxa de juros. "Estudos mostram que a dívida é
a causa de 76% dos divórcios nos Estados Unidos", apontou Mattar, para
ilustrar um dos aspectos sociais negativos da expansão exagerada do crédito
no país, que é considerado o paradigma do mercado financeiro para toda a
América Latina e o resto dos países emergentes.
Embora já existam no Brasil algumas
iniciativas isoladas e incipientes de educação para o crédito, estes
especialistas dizem que é preciso fazer muito mais e que as empresas e
instituições financeiras devem tomar a frente do processo, já que
dificilmente o governo será pró-ativo nesta questão. "O cerne de tudo é
a educação. Num país em que a educação (em geral) não é prioridade da
sociedade, fica difícil educar para o crédito", avalia Osório Roberto
dos Santos, um psicanalista que dá consultoria em desenvolvimento de pessoas
para o Banco Real ABN AMRO, onde trabalha há 25 anos. Santos crê que de nada
adianta a disseminação de "cartilhas" de crédito consciente se as
instituições financeiras não "olharem para os clientes que estão tomando
empréstimos" e procurarem orientá-los adequadamente, ao invés de só se
preocuparem com a oferta de produtos e serviços para os clientes. Para ele, o
mau uso do crédito pode significa a própria destruição do mercado que agora
está em franca expansão, após décadas de declínio por causa da inflação.
Janes Rocha De São
Paulo
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