Freud explica o movimento do mercado financeiro
Mesmo para quem vive
diante de um computador acompanhando o movimento das bolsas pelo mundo, é
impossível prever com exatidão o que vai acontecer nos próximos cinco
minutos. O que um gestor de recursos faz é buscar pistas na tentativa de
identificar tendências.
Essas pistas começam pelo próprio movimento dos mercados, observado por meio
de análises e informações das operações financeiras em tempo real, compiladas
em gráficos de todos os tipos. Toda a nossa preparação é para que a avaliação
dessas pistas seja feita no menor tempo possível, para que possamos reagir
como se estivéssemos no meio de um furacão. No final, os jornalistas entram
em cena para relatar os estragos causados e as histórias daqueles que se
salvaram e, eventualmente, ainda conseguiram obter algum lucro.
Neste cenário caótico, vivido diariamente por quem trabalha no mercado, é
muito natural que as decisões tomadas tenham, em última análise, uma forte
influência instintiva. Diante de tantas pistas, chega um momento que a mente
humana passa a responder de maneira automática, baseado no aprendizado de
erros passados e tentando se antecipar e se prevenir contra possíveis
problemas futuros. Daí surgiu um novo campo de estudos da economia que vem
avançando rapidamente, o das finanças comportamentais.
Recentemente, diversos livros vêm sendo escritos sobre o assunto. Dentre os
brasileiros, podemos destacar "Finanças Comportamentais - Pessoas Inteligentes
também Perdem Dinheiro na Bolsa de Valores", de Eduardo Camilo e Claudio
Barbedo. No cenário internacional, os economistas
George Akerlof, Prêmio Nobel de 2001, e Robert Shiller
lançaram este ano "O Espírito Animal", no qual investigam aquilo que
costumamos chamar de efeito manada. A expressão quer
dizer que mesmo, se consideradas as diferenças de cada investidor, é comum
que haja padrões em comum que se manifestem na maioria do rebanho em
situações específicas, de euforia ou medo. As finanças comportamentais, ou a
psicologia aplicada ao mercado financeiro, é capaz de explicar fenômenos que
desafiam a teoria tradicional, baseada na racionalidade dos agentes
econômicos.
Foi assim que descobrimos que desenvolver o conhecimento sobre o ser humano e
o autoconhecimento é fundamental para o sucesso tanto de um pequeno
investidor quanto de um gestor de recursos e, consequentemente,
para todo o mercado. Hoje já se sabe que o ser humano tem uma grande aversão
à perda, por exemplo. É um sentimento tão grande que às vezes supera o desejo
de ganhar e pode causar grandes prejuízos quando alguém decide ficar comprado
em uma ação em queda, na esperança de recuperar ao menos o que investiu
inicialmente. Outra peculiaridade é que a maioria das pessoas só costuma apostar
nos ganhadores, quando, por um efeito conhecido como reversão à média, as
melhores oportunidades de ganhos estão no lado de quem perdeu ou, em termos
de bolsa, nos papéis que menos se valorizaram recentemente.
"É muito difícil quantificar essas coisas com o
rigor e a exatidão que seriam necessários para construir novos modelos. Mas é
possível fazer muita coisa. Existem vários índices que tentam medir a
confiança dos consumidores. O principal, publicado pela Universidade de
Michigan, foi criado por um professor de psicologia, George Katona. Os economistas veem
esses índices com ceticismo, mas os empresários prestam muita atenção neles,
porque sabem que a confiança é um fator importante nas decisões dos
consumidores", disse Robert Shiller em
entrevista ao Valor, no dia 29 de maio deste ano.
No último dia 11 de setembro, este índice de confiança apurado nos Estados
Unidos pela Universidade de Michigan ficou em 70,2 pontos em comparação aos
65,7 em agosto e acima do esperado pelos analistas, que previam um índice de
67,3 pontos. Trata-se de uma boa justificativa para a manutenção da mais
recente tendência de alta das bolsas mundiais, afinal o consumo responde por
cerca de dois terços da atividade econômica da maior economia do mundo. Mesmo
que os riscos dessa retomada ainda sejam razoáveis, esse é justamente um
exemplo de ressalva que precisa ser observada pelos gestores minuto a minuto.
Enfim, é preciso ler Freud, como, aliás, já fazia Lord
Keynes, enquanto produzia suas teorias que ajudaram os EUA a sair da Grande
Depressão. Isso poderia ajudar os governos a entender que o mercado não
precisa de mais regulação, mas de uma regulação nova, com uma forma diferente
de abordagem na própria economia. Como afirmou Shiller,
na mesma entrevista: "Precisamos de uma revolução na
macroeconomia."
Patrícia Branco
Valor Econômico - 16/10/2009
http://www.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/
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