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Mantenha os olhos abertos mesmo no meio da neblina


Você sabe o que vem pela frente na economia e nos mercados financeiros? Se respondeu sim, é bom se acautelar. Para começo de conversa, os mercados financeiros andam mais animados do que a economia real. E vamos encarar os fatos: esse filme a gente já viu, não faz muito tempo, e ele não tem final feliz.

Daniel Kahneman (o Nobel de Economia que é psicólogo), esteve em São Paulo, no congresso da Anbid, em maio, e levantou diversos pontos importantes que convidam o investidor a refletir - em especial, se não estiver inteiramente satisfeito com suas aplicações e se tiver boa digestão. Porque o que ele disse não agrada a todos. Portanto, daqui para frente, é por sua conta e risco, leitor.

1) Temos auto-controle limitado e não devemos nos esquecer disso. Para ilustrar isso, ele citou - e elogiou - Richard Thaler, o pioneiro da economia comportamental nos EUA e um dos principais defensores da estratégia de arquitetura de escolha, os chamados "nudges", que pretendem empurrar as pessoas em direção a melhores decisões. Ou seja, a premissa aqui é que as pessoas não são plenamente racionais - se fossem, não precisariam desta ajudinha externa, certo? Talvez para ressaltar a importância deste debate, vale lembrar que outro de seus paladinos, o advogado Cass Sunstein, está na administração Obama. Para completar, defendeu que Thaler também deveria receber um prêmio Nobel!

2) Sobre risco, ele disse textualmente que "as pessoas correm riscos porque não sabem que estão correndo riscos" e, como costuma fazer, alertou enfaticamente sobre os perigos do otimismo excessivo que, aliás, costuma andar de braço dado com a autoconfiança excessiva também... A gente sempre acha que com a gente não vai acontecer, certo? A seu ver, correr riscos seria o resultado de uma combinação de ignorância com otimismo e aversão à perda. Como já vimos, não temos sempre aversão a risco, mas temos, invariavelmente, aversão à perda - e ela pode ser tão poderosa que, ao fim e ao cabo, nos impele a correr riscos - tudo em nome de tentar não perder!

3) Kahneman destacou que enxergar o mercado como se fosse uma pessoa, atribuindo-lhe características humanas, é um equívoco. Ele brincou que, a julgar pelas descrições que encontramos na mídia (o mercado está otimista, pessimista, descansando hoje depois de muitas oscilações ontem), ele seria uma pessoa bem nervosa! Mas não é por aí, porque além dos investidores individuais, há outros agentes importantes em ação, como as instituições, que operam de modo distinto. Conforme sua designação, investidores individuais funcionam quase direto no chamado Sistema 1, que é mais automático, rápido e sujeito a equívocos, associado a impulsos e emoções. Já as instituições podem funcionar mais dentro do Sistema 2, com operações mais racionais e ponderadas, negociando de forma diferente de investidores individuais.

4) Consequentemente, instituições ganhariam dinheiro a partir de equívocos cometidos por investidores individuais, mais sujeitos às suas próprias paixões (agora, em minhas palavras). O cutucão dele foi no sentido de que investidores têm uma visão primitiva do mercado e agem em função dela: dividem os cenários conforme os entendem como sendo seguros ou arriscados e realizam segundo esses critérios. Mas são visões muito sujeitas a vieses e parcialidades, que podem levar a erros. Assim, haveria quantidades industriais (para citar Keith Richards), de ilusão e otimismo irrealista no mercado. Consequentemente, compra e venda de ações erradas, nos momentos errados - e prejuízos, claro.

5) Enalteceu diversas vezes um livro que não é nem de economia, nem de psicologia econômica ou economia comportamental. É o "Cisne Negro", de Nassim Taleb, autor que se declara interessado unicamente nos eventos particularmente raros e extremos e no acaso. Kahneman o citou para alertar quanto à dificuldade que temos diante do que desconhecemos e como aguentamos mal esta condição. Rapidamente buscamos uma explicação qualquer para reduzir nosso desconforto. Em outras palavras, vivemos num mundo que não entendemos, mas mantemos a ilusão de que "está tudo dominado". De novo, cilada à vista! Com ilusão, não dá para aprender.

É possível que haja na economia mundial e nos mercados financeiros hoje mais brumas do que definições. Manter os olhos abertos, apesar de não enxergar com clareza, pode ser mais útil do que se entreter com miragens.


Vera Rita de Mello Ferreira é psicanalista, consultora, professora, representante no Brasil da International Association for Research in Economic Psychology (IAREP) e autora dos livros "Psicologia Econômica" e "Decisões econômicas - você já parou para pensar?"

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso destas informações.
Valor Econômico
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