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Ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2002, apesar de
não ser economista de formação, o psicólogo israelense Daniel Kahneman chama
a atenção por seu estilo extremamente atencioso para com seus interlocutores.
Autor da chamada "Teoria da Perspectiva", juntamente com Amos Tversky, em 1979, o psicólogo mostrou que as decisões
econômicas dos indivíduos nem sempre são racionais. A pesquisa econômica até
então assumia que pessoas são motivadas por incentivos materiais e tomam
decisões de modo a sempre maximizar os ganhos.
Kahneman e Tversky mostraram que isso não é bem
assim.
Aos 75 anos, o professor de psicologia na Universidade de
Princeton, nos Estados Unidos, é uma das estrelas do 5º Congresso Anbid de Fundos de Investimento, que começa hoje. A
participação de Kahneman será amanhã. Por telefone, ele falou ao Valor e
disse que o atual otimismo dos mercados pode ser considerado irreal. Para
Kahneman, as mudanças regulatórias adotadas pelo governo americano ajudam,
mas não são capazes de evitar novos problemas.
Valor: Os investidores tendem a colocar muito peso na
performance passada das aplicações. Como a atual turbulência afeta as
expectativas das pessoas no que se refere a seus investimentos?
Daniel Kahneman: Não tenho certeza se haverá grandes impactos no
comportamento do investidor. Os mercados estão atualmente otimistas, por
diferentes razões, porque a situação não está tão ruim quanto se esperava. E
quando as coisas não vão tão mal quanto se esperava,
as ações tendem a subir. Você perguntou se haverá grandes mudanças na forma
como as pessoas pensam o mercado acionário e eu acho que é ainda muito cedo
para dizer.
Valor: Temos visto os mercados acionários se recuperando rapidamente.
Isso pode ser uma bolha?
Kahneman: Você sabe que sou um psicólogo, e acho que, hoje, nem os
economistas sabem responder essa pergunta. Houve uma queda grande dos
mercados e agora há uma recuperação muito rápida,
mas acho que nenhum economista seria capaz de responder a essa pergunta.
Alguns economistas conhecidos estão muito pessimistas, mas eles já estavam
pessimistas no passado...
Valor: O senhor trabalha na fronteira entre a psicologia e a
economia. Quais dificuldades e desafios você enfrenta nesse trabalho?
Kahneman: As finanças comportamentais são uma abordagem da economia
muito influenciada pela psicologia, mas não acredito que os mercados são
perfeitos ou profundamente racionais. Algumas teorias sobre a percepção do
mercado estão completamente erradas. Na minha opinião,
um dos mais importantes momentos da crise é o que chamo de "a confissão
de Alan Greenspan", quando o ex-presidente do
banco central americano disse no Congresso que sua teoria, de que os bancos
agem como agentes racionais, estava errada. O fato de essa teoria ter se
provado errada levará a maiores precauções na economia por um bom tempo e, no
momento, está aumentando a credibilidade das finanças comportamentais.
Valor: Por que esse momento foi o mais importantes da crise?
Kahneman: Não tenho certeza se foi um dos mais importantes momentos
para a economia, mas foi importante para seu desenvolvimento intelectual.
Alan Greenspan representa aqueles que não acreditam
em regulação, que acreditam no mercado, na racionalidade das instituições. A
atitude dele, portanto, foi particularmente surpreendente. Ele era claramente
a figura mais importante na aplicação dessas teorias.
Valor: Na Teoria da Perspectiva, os investidores se mostram frequentemente irracionais em suas decisões. Na outra
ponta, há economistas que acreditam que o mercado é eficiente. Como o senhor
vê esses dois pontos de vista nesta crise?
Kahneman: Pelo menos nos Estados Unidos, está claro que houve
irracionalidade das pessoas que especularam com imóveis. No que diz respeito
à especulação feita pelo bancos, é difícil chamar de
irracionalidade, porque os banqueiros já são ricos. A teoria de que bancos ou
instituições financeiras podem ser agentes racionais caiu por terra. Não há
conexão com o que aconteceu e a Teoria da Perspectiva, mas há a uma ligação
direta com as ideias de que o mercado corrige os
erros. Os bancos, ou seja, o mercado, amplificaram
os erros.
Valor: A crise veio após alguns anos de exuberância. Isso
levou os investidores a tomarem mais risco do que estavam preparados?
Kahneman: Não há dúvida disso. O maior desafio ao se tomar risco
acontece não porque as pessoas tomam esse risco, mas porque elas não conhecem
o risco que estão correndo. Até certo ponto, é o que pode ser ver nesse
otimismo irreal. Há uma importante contribuição do livro "Cisne
Negro", escrito por Nassim Taleb,
antes da crise, mostrando que há sempre mais risco do que as pessoas
conhecem. Ele diz que todo evento é maior do que as pessoas pensam, esperam.
Valor: Certa vez o senhor disse que as pessoas seriam
melhores investidores se tomassem menos decisões. A atual turbulência mostrou
que os indivíduos tendem a comprar na alta e entrar em pânico quando os
mercados caem?
Kahneman: É absolutamente o caso. Em geral, quando se observa os
fundos de investimento, por exemplo, e as pessoas que investem neles, vê-se que as pessoas compraram no pico. Há um grande
número de indivíduos que negociam com o comportamento errado. Está muito
claro que, na média, eles fazem isso de forma muito simplista. E quanto menos
as pessoas fizerem isso, melhor.
Valor: Alguns dizem que a origem desta crise está no fato de
os americanos gastarem mais do que podem e pouparem menos do que deveriam. O
senhor concorda?
Kahneman: Isso é um fato. O grau de poupança nos Estados Unidos está
historicamente baixa, até negativo nos últimos anos.
Estava claro que essa era uma situação insustentável. Talvez não tenha
precipitado a crise, mas com certeza foi um dos seus motivos, e não há sinais
que isso deve voltar ao normal tão cedo.
Valor: Os reguladores estão ajudando a tornar o sistema
financeiro mais frágil ao encorajarem a consolidação dos bancos? Isso pode
ser perigoso para os investidores?
Kahneman: Aqui também vou voltar ao meu amigo Taleb.
Para ele, a globalização tende a trazer um crescimento muito rápido para as
instituições, mas também deixar sua situação mais frágil. Ele diz que nós
temos um sistema que é naturalmente robusto, mas a consolidação das
instituições contribui para sua fragilidade. Acho que é ingênuo não acreditar
nisso.
Valor: As medidas dos governos serão capazes de prever
futuros problemas de crédito?
Kahneman: Haverá um ambiente regulatório mais restrito nos EUA por
causa da crise. Taleb diz que devem ser tomada as devidas precauções para evitar uma crise como esta.
Mesmo assim, não será possível evitar os 'cisnes negros', os eventos
imprevistos, mas provavelmente se reduzirá a incidência e amplitude. As
medidas podem tornar o sistema mais eficiente. O meu palpite é que haverá uma
forte onda regulatória nos EUA, mas se isso vai funcionar ou não está
totalmente fora da minha expertise.
Valor: Depois dessa crise, as pessoas mudarão a forma como
encaram suas finanças?
Kahneman: Aparentemente, houve um efeito de longo prazo depois da
Grande Depressão. As pessoas que viveram nessa época são muito mais inseguras
quanto ao futuro. O que estamos vendo agora não é tão severo quanto a Grande
Depressão. Acho que as pessoas vão pelo menos pensar um pouco mais, pelo
menos por um tempo. Elas terão menos confiança no futuro e provavelmente irão
poupar um pouco mais, o que é bom. Claro que, no curto prazo, há um paradoxo,
pois poupar agora não é bom para a economia.
Valor: O plano de resgate da economia americana mudará a
visão sobre a teorias econômicas?
Kahneman: Haverá algumas mudanças
nas teorias, principalmente nas que dizem respeito à estabilidade dos
mercados, e isso vai influenciar os governos. Nos EUA, hoje, há uma situação
interessante, em que as finanças comportamentais têm uma grande influência na
administração de Barack Obama.
Particularmente, uma das figuras principais nesse campo (Cass
Sunstein) será responsável pelas regulações na Casa Branca. Ele não aceita a tese de que
as pessoas são racionais ou o mercado é perfeito. A teoria que influencia o
governo irá mudar. Ou melhor, já está mudando
Por Luciana Monteiro, de São Paulo
Valor Econômico - 26/05/2009
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