Bem-estar na aposentadoria depende mais do investidor
Nem governo e agora nem
empresa. A responsabilidade pela aposentadoria está cada vez mais nas mãos do
indivíduo. E isso vale tanto para o mercado internacional como para o Brasil. É
o que mostra pesquisa realizada pela Mercer em 33
países sobre práticas e tendências no segmento de planos de previdência de
contribuição definida, que será divulgada hoje. Obtido com exclusividade pelo
Valor, o estudo envolveu mais de 1.500 empresas e 6 milhões de participantes de
planos de aposentadoria que representam patrimônio de US$ 440 bilhões. No
Brasil, foram ouvidas 115 empresas que reúnem 700 participantes com R$ 88
bilhões.
As empresas patrocinadoras
de planos de previdência vêm abandonando a postura paternalista de assegurar
aos empregados uma aposentadoria adequada, encorajando-os a assumir esse papel
de planejar o futuro, revela a pesquisa. Do total de companhias entrevistadas,
apenas 27,2% têm como meta oferecer um plano que atenda adequadamente às
necessidades do empregado na aposentadoria. A maioria (55%) oferece a aplicação
como ferramenta de educação financeira para que o indivíduo possa planejar sua
aposentadoria. Para os 18% restantes, o benefício só existe para cumprir com a
legislação ou por ser uma prática do mercado.
No Brasil, isso é mais
evidente, com um percentual ainda menor (17%) de empresas com o perfil
paternalista, afirma a consultora-sênior de previdência da Mercer
no Brasil, Carolina Wanderley. A maioria, com 56%, oferece plano de
previdência, chegando até a fazer também contribuições, mas delega para o
empregado a responsabilidade de definir os aportes que vão garantir um
benefício adequado durante a aposentadoria. Os outros 27% oferecem o plano por
ser uma prática de mercado.
"Hoje, claramente as
empresas têm optado por adotar uma linha mais de facilitadora da
aposentadoria", afirma Carolina. Ela ressalta, no entanto, que os
indivíduos não estão preparados para assumir essa responsabilidade, nem para
tirar o melhor proveito dessa ferramenta.
O plano empresarial,
segundo Carolina, é muito mais competitivo do que o individual e isso, no fim
das contas, traduz-se em retornos mais altos. Além disso, como a maioria dos
planos aceita contribuições voluntárias, os empregados têm liberdade para usar o
instrumento para planejar a aposentadoria, aumentando, inclusive, os aportes
para ter um benefício melhor no futuro.
"No Brasil, o plano de
previdência privada aberta (PGBL e VGBL) é um dos melhores instrumentos de
poupança no longo prazo", destaca Carolina. O primeiro grande benefício é
o fiscal, no caso do PGBL, dado pela ausência de imposto de renda (IR) na fase
de acumulação e ainda pela tabela regressiva. Nos planos empresariais, a grande
vantagem é a contrapartida da empresa, além do custo menor. Isso porque as
companhias têm poder de barganha para negociar melhores taxas e até isenções.
Ela destaca, ainda, o fato de no Brasil a contribuição da empresa, na maioria
dos casos, representa o mesmo valor que é colocado pelo empregado. Lá fora, o
percentual é menor.
A demanda por planos de
aposentadoria, contudo, é alta. O resultado global mostrou que, em 67% das
empresas, a taxa de adesão é de mais de 70% do quadro de funcionários. No
Brasil, esse número é de 61%. A expectativa da maioria das empresas (53%),
contudo, é de que a adesão fique entre 90% e 100%. Na visão de Carolina, isso
só será possível se as companhias investirem em comunicação e programas de
educação previdenciária, uma vez que a postura agora é de "facilitar"
a aposentadoria, não assegura-lá. Na pesquisa feita
no Brasil, o maior desafio a ser enfrentado pelas empresas, com 59% das
respostas, é o entendimento limitado dos participantes. Outra preocupação (com
38% das citações) é o aumento dos custos operacionais. No levantamento global,
com 60% das citações cada, destacam-se entre os maiores desafios o entendimento
limitado dos participantes e o baixo retorno dos investimentos.
No Brasil, segundo
Carolina, o rendimento das aplicações não está entre os principais desafios,
mas aparece com 29% das citações. A especialista atribui esse resultado a pelo
menos dois fatores: o juro alto no país em relação ao resto do mundo e o
conservadorismo das opções de investimento. Enquanto globalmente 30% das
empresas oferecem de 11 a
15 opções de investimentos, no Brasil 91% estão na faixa de 1 a 5 opções. Isso, na prática,
se reflete num plano balanceado, mas conservador, ou seja, com uma parcela
pequena de ações. "Essa característica acabou protegendo o Brasil na
crise; lá fora, tinha muita gente próxima da idade de aposentadoria em ações, o
que colocou em risco aposentadoria", diz Carolina.
Por Alessandra Bellotto, de São Paulo
Valor Econômico – 22/10/2009
http://www.andima.com.br/clipping/clipping.asp