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Quem é bom de bolha?


Fora dos EUA e Europa, cresce debate sobre alta de juros e de medidas para conter risco de novas bolhas financeiras


O MEDO DA BOLHA parece complicar por toda parte o debate sobre as "estratégias de saída" da crise. "Bolha" é o nome que se dá de modo impreciso e tentativo a aumentos rápidos e exagerados do preço de ativos como ações ou imóveis, altas que podem ser invertidas ainda mais rapidamente, detonando quebras em cadeia nos mercados.
"Estratégia de saída" é o clichê que nomeia medidas que terão por objetivo reduzir os estímulos às economias hecatombadas pela crise. Isto é, medidas como elevar juros e reduzir gastos do governo a fim de evitar danos devidos ao excesso de estímulo, como inflação de preços e ativos. Governos de diversos países alertam que seus bancos centrais não devem começar a apertar as cravelhas cedo demais, de modo a não abortar a recuperação econômica.
Mas as políticas fiscal (gastos públicos) e, em especial, monetária (de juros) muito frouxas podem não só resultar em inflação de preços de bens e serviços mas em inflação de ativos financeiros e correlatos ("bolhas", outra vez, embora ninguém saiba definir muito bem o que seja uma bolha, até que elas estourem).
Nas economias ainda deprimidas e mais assentadas como a dos EUA e da Europa, essa discussão parece menos intensa que no mundo dito emergente ou nos países mais periféricos. No Brasil, os alertas de fogo começaram no paiol da moeda e da Bolsa. Alhures, a fumaça aparece em lugares mais ou menos diferentes.
Mas é fumaça. O combustível, em toda parte, são políticas expansionistas de gastos e crédito, que têm seu efeito multiplicado pela vastidão de dinheiro barato que os EUA colocaram para rodar no planeta. Na Índia, os "analistas" locais dizem que a inflação está pegando, e que o BC indiano pode adotar medidas para conter a expansão de crédito bancário antes de começar a aumentar sua taxa "básica" de juros.
Na Austrália, na Coreia, em Hong Kong e na Noruega, os preços dos imóveis estariam subindo rápido demais, dada a oferta de crédito barato, dentro e fora do país (os australianos, os "primeiros do G20 a elevarem" os juros depois da crise, dizem que um dos fatores principais da alta de juros foi o mercado de imóveis aquecido demais).
Malásia e Tailândia interferem no mercado de câmbio a fim de evitar a supervalorização de suas moedas. Na vizinhança, há preocupação com o assunto, pois o yuan chinês afunda com o dólar, o que pode prejudicar as exportações e a retomada econômica.
Apesar do zum-zum-zum, há vasta divergência sobre os riscos e os meios de atenuá-los: 1) Pelo mundo, há "analistas" de bancos e consultorias para quem "os emergentes estão caros" (com preços exagerados para moedas, ações, imóveis etc.) e há quem diga o oposto, no mesmo dia, com as mesmas fontes de dados e usando os mesmos truques estatísticos; 2) Ainda há muita autoridade econômica e/ou monetária para quem não se deve tentar furar ou evitar bolhas com instrumentos como taxas de juros (uma arma sem mira para tal tipo de problema).
Mas há muita gente preocupada com bolhas. A relativa simpatia com que (lá fora) foi recebida a taxação de investimentos em carteira indica que algumas ligeiras heterodoxias podem vir a ser praticadas por aí. E algumas outras por aqui também.

Autor(es): VINICIUS TORRES FREIRE
Folha de S. Paulo - 27/10/2009
http://clippingmp.planejamento.gov.br/






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