Educação é dinheiro
Entrevista:
Eric Hanushek
Especialista
em combater com números os mitos sobre a sala de aula, o economista americano
mostra como o bom ensino pode ser decisivo para o crescimento econômico
"Com
o baixo nível apresentado pelos alunos brasileiros hoje,as
chances de a economia deslanchar são mínimas"
Poucos
estudiosos se dedicam a compreender a educação com uma visão tão
científica quanto a do americano Eric Hanushek. Professor da Universidade Stanford e doutor em economia pelo Instituto
de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ambos nos Estados Unidos, é dele a mais
extensa pesquisa já feita sobre os efeitos de um bom ensino no crescimento
econômico. Nos últimos trinta anos, Hanushek vem
travando embates com ideólogos da educação e os sindicatos de professores. É
figura controversa, entre outras coisas, por ter sido o primeiro a afirmar
que aumento de salário não influencia a qualidade do ensino – a não ser
quando obedece a uma política de premiação aos melhores em sala de aula.
Seus estudos
recentes comprovam uma forte relação entre educação e crescimento econômico.
Com o Brasil nas últimas colocações em rankings internacionais de ensino, o
que se pode dizer sobre a economia? Com esse desempenho, as chances de o
Brasil crescer em ritmo chinês e se tornar mais competitivo no cenário
internacional são mínimas. Digo isso baseado nos números que reuni ao longo
das últimas décadas. Eles mostram que avanços na sala de aula têm peso
decisivo para a evolução dos indicadores econômicos de um país. Olhe o caso
brasileiro. Se as notas dos estudantes subissem apenas 15% nas avaliações, o
Brasil somaria, a cada ano, meio ponto porcentual às suas taxas de
crescimento. Isso significaria, hoje, avançar em um ritmo 10% maior. Vale
observar que o que impulsiona a economia é a qualidade da educação, e não a
quantidade de alunos na escola.
O Brasil
colocou 97% das crianças na sala de aula. Isso não tem impacto na economia? A
massificação do ensino, por si só, tem pouco efeito – e a matemática não
deixa dúvida quanto a isso. Os dados mostram que a influência da educação
passa a ser decisiva apenas quando ela é de bom nível. Aí, sim, consegue
empurrar os indivíduos e a economia. A relação é simples. Países capazes de
proporcionar bom ensino a muita gente ao mesmo tempo
elevam rapidamente o padrão de sua força de trabalho. Quando uma população
atinge alta capacidade de raciocínio e síntese, torna-se naturalmente mais
produtiva e capaz de criar riquezas para o país. Nesse sentido, a posição do
Brasil é desvantajosa. Faltam aos alunos habilidades cognitivas
básicas, e isso funciona como um freio de mão para o crescimento. Esse
cenário, que já era preocupante décadas atrás, agora
é ainda mais nocivo.
O que
mudou nas últimas décadas? A relação entre boa educação e desenvolvimento
econômico é antiga – mas a qualidade do ensino nunca foi tão relevante para o
crescimento dos países. Isso porque, em sociedades altamente tecnológicas, a
produtividade passou a depender ainda mais das habilidades desenvolvidas na
escola. Os números lançam luz sobre o tipo de conhecimento que faz mais
diferença: de todas as disciplinas apresentadas aos alunos, são as ciências
exatas que, hoje, têm o maior peso para o crescimento econômico. Afinal,
exige-se o tempo todo dos profissionais que sejam capazes de lidar com novas
tecnologias e de solucionar problemas de alta complexidade. Ocorre não apenas
na rotina de quem ocupa um cargo de alto escalão, mas também nas linhas de
produção mais simples. Quanto mais gente preparada para enfrentar tais questões,
mais chances um país terá de avançar.
Os
Estados Unidos são a maior economia do planeta, mas não figuram entre os
países de melhor ensino. Isso não é contraditório? Não. Além de uma educação
de bom nível, dois outros fatores têm impacto decisivo sobre o ritmo de
crescimento de um país: o grau de abertura de sua economia e a segurança
institucional que ele oferece, medida pela capacidade de garantir o direito à
propriedade privada. Historicamente, os Estados Unidos sempre estiveram muito à frente dos demais países nesses dois quesitos.
Outro antigo diferencial americano são as universidades, que ocupam o topo do
ranking da excelência. Há décadas elas funcionam como um poderoso motor para
o progresso científico e tecnológico, de valor inestimável para a economia do
país. Até agora, esse conjunto de fatores ajudou a compensar o desempenho
medíocre dos estudantes americanos no ensino básico. Essa vantagem, no
entanto, está ameaçada.
Por que
o senhor diz isso? Mais países começam a atingir graus de abertura da
economia e patamares de desenvolvimento institucional semelhantes aos dos
americanos. Também já aparecem, fora dos Estados Unidos, dezenas de
universidades onde podem originar-se descobertas científicas relevantes ou
mesmo um Prêmio Nobel. Significa que os americanos deixaram de ser os únicos a se destacar em áreas nas quais, bem pouco
tempo atrás, não tinham rivais. Caso a qualidade da educação básica ofertada
nos Estados Unidos não melhore, a liderança econômica do país ficará
seriamente ameaçada. Repare que me refiro aqui apenas aos estragos da má
educação. Não estou sequer levando em conta as
outras variáveis que podem contribuir para isso.
"Quando bons resultados no ensino vêm aliados a uma economia mais
aberta, o efeito no PIB é até três vezes maior do
que em países de mercado mais fechado"
O impacto da educação na economia varia de um país para outro? Os países que
mais se beneficiaram do investimento no ensino, como Coréia do Sul e
Finlândia, têm um ponto em comum: são economias abertas. Temos aqui um ciclo
virtuoso. Para competirem globalmente, esses países precisam de um exército
de pessoas com altíssima capacidade cognitiva – e, contando com elas, lucram
como nenhum outro com a concorrência. Quando boa educação vem aliada
a uma economia aberta, seu efeito no PIB é três vezes maior do que em países
mais fechados.
As salas
de aula estão repletas de experiências pedagógicas. O senhor chegou a alguma
conclusão sobre qual o melhor caminho para alcançar a qualidade acadêmica? De
todos os fatores numa escola, certamente o que mais explica a excelência na
sala de aula diz respeito à capacidade dos professores de despertar a
curiosidade intelectual dos alunos e lhes transmitir conhecimento. É algo
básico, mas freqüentemente ignorado. Veja o que revelam os números. Tendo um
ótimo professor durante cinco anos seguidos, uma criança egressa de um
ambiente de pobreza e analfabetismo poderá alcançar o mesmo nível de
conhecimento de outra vinda de uma casa em que os pais têm diploma de ensino
superior e boa situação financeira. A questão é que os diretores das escolas
raramente aplicam os critérios certos para rastrear os bons profissionais.
Por que
eles erram tanto? Valorizam tempo de experiência e cursos de especialização,
quando esses são fatores sem nenhuma relação relevante com a qualidade das
aulas. Os educadores resistem a aceitar essa idéia, mas as pesquisas não
deixam dúvidas: os Ph.Ds. não apenas não são necessariamente os melhores
professores, como muitas vezes figuram entre os piores. Já se conhecem,
portanto, algumas das características que não definem um bom professor. O que
não se sabe até hoje é o que, de fato, faz um profissional sobressair na sala
de aula.
O senhor
está dizendo que não há uma explicação estatisticamente confiável sobre as
características que determinam um bom professor? Existem muitas suposições,
mas nenhuma delas tem valor científico. Por isso fica tão difícil estabelecer
critérios prévios para a seleção dos melhores professores – e erra-se tanto.
É possível, no entanto, tomar medidas para segurar os mais brilhantes na
escola e eliminar os mal preparados.
Qual é a
melhor maneira de fazer isso? O método mais eficaz, sem dúvida, é aderir à
meritocracia. Entenda-se por isso oferecer incentivos financeiros
e carreira atraente a quem merece. É fácil identificar os mais
eficientes. São aqueles que, ao término de um período escolar, conseguiram
melhorar o desempenho de seus alunos em relação ao patamar do qual partiram
no início do ano. Para premiá-los, não quero dizer apenas pagar-lhes 200 ou
300 dólares a mais no fim do ano. O que defendo é mais radical – algo que nem
nos Estados Unidos, país à frente nesse quesito, foi implantado.
O que,
exatamente, o senhor propõe? Faria muito bem às escolas manter salários
mensais diferenciados para os bons professores, poder demitir os incapazes e
proporcionar, enfim, um ambiente tão competitivo quanto o de uma grande
empresa. Depois de tudo o que pesquisei, afirmo com segurança: reconhecer
concretamente os talentos individuais é a medida mais eficaz quando se trata
de preservar apenas os professores mais talentosos – e melhorar o ensino.
Infelizmente, não é tão fácil pôr essa idéia em prática.
Quais
são as dificuldades? Primeiro, é preciso desenvolver mecanismos confiáveis
para medir o desempenho de alunos e professores. O problema é que a maioria
dos países em desenvolvimento não conta ainda com um sistema de avaliações
que permita comparar resultados ao longo dos anos, algo em que o Brasil é uma
boa exceção. Um segundo obstáculo é o corporativismo dos sindicatos de
professores. Eles são os primeiros a se opor a qualquer medida em favor da
premiação ao mérito. Como essas organizações têm, em geral, grande peso na
definição das políticas públicas de educação, a meritocracia emperra. Tal é o
corporativismo sindical que sua principal bandeira sempre foi o aumento
generalizado dos salários. Dizem que só assim o ensino vai para
a frente.
Até que
ponto isso é verdade? Aumentar os salários de todos os professores de uma
mesma rede de ensino não contribui em nada para melhorar a qualidade das
aulas. Afirmo isso ancorado nos fatos, e não na intuição, como preferem
muitos educadores. Ao defender a isonomia salarial e repudiar aumentos
atrelados a resultados, os professores não se baseiam em nenhuma espécie de
evidência científica de que a medida funcione em favor do ensino. Lutam por
isso apenas porque é bom para eles.
"Ainda são raras as medidas na educação norteadas por evidências
científicas. As políticas costumam se respaldar em achismos
– e os países perdem muito dinheiro com isso"
Na educação, por que é tão raro que especialistas,
educadores e autoridades se rendam às evidências científicas? Além dos
interesses políticos, que passam ao largo da ciência, como ocorre em tantas
outras áreas, um segundo fator específico da educação pesa contra a
objetividade: não sendo uma ciência exata, as pessoas se sentem um pouco
especialistas no assunto. Agrava o problema o fato de a sala de aula ser um
lugar que, um dia na vida, todo mundo freqüentou. O resultado dessas crenças
é perverso: no mundo todo, ainda são raras as políticas na educação guiadas
por evidências empíricas, colhidas ao longo de estudos longitudinais e
realizadas com rigor científico, como ocorre em outros setores.
Políticas respaldadas em achismos
são desastrosas. Elas fazem os países perder dinheiro duas vezes.
Como a
falta de rigor científico nas medidas para a educação causam prejuízo a um
país? Ao se perderem em opiniões vazias de pretensos especialistas, os
governos desperdiçam a chance de se beneficiar de práticas já testadas com
sucesso. Ao contrário disso, investem tempo e dinheiro em medidas inócuas,
que não resistiriam a uma consulta rápida às experiências internacionais e a
um mergulho nos números. Eles logo revelariam sua inutilidade. Mesmo grandes
instituições cheias de boas intenções cometem erros básicos por subestimar os
fatos.
O senhor
citaria uma? Sim, o Banco Mundial. Ele erra ao investir em programas mais
focados na quantidade de alunos do que propriamente naqueles com o objetivo
de elevar o padrão do ensino. Chegar à escola é um primeiro passo – mas só
isso. O que determina mesmo o crescimento de um país é quanto de conhecimento
poderá ser extraído da sala de aula.
Veja
num. 2078 – 13/09/2008
http://clipping.planejamento.gov.br/