Classe média entra na fila dos serviços sociais nos EUA
São Francisco, 2 de Março
de 2009 - No distrito de Contra Costa, no Estado da Califórnia, 40 mil famílias
se candidataram a apenas 350 vales para o aluguel ou compra de moradias a
preços acessíveis. Os estoques dos serviços de distribuição de refeições
mantidos pelas igrejas estão terminando. Os pedidos de ajuda mais do que
dobraram na cidade de Antioch, onde o Centro para
Famílias em Dificuldades ocupa o local de um ex-banco.
A pior crise financeira dos
EUA em sete décadas obriga milhares de trabalhadores, antes com renda média, a
buscar serviços sociais, sobrecarregando as entidades locais de ajuda, clínicas
e organizações sem fins lucrativos. A cada mês, 16 mil pessoas, ganhando antes
entre US$ 60 mil e US$ 100 mil/ano, recorrem aos quatro escritórios do distrito
especializados em ajuda financeira, médica ou alimentar.
"A não ser que façamos
as coisas de forma diferente, não apenas continuaremos a depender de
assistência, mas o poder da máquina vai acabar", disse o supervisor do
condado, Federal Glover, que representa Antioch e as
cidades de Pittsburg e Oakley
cerca de 80
quilômetros a leste de São Francisco.
A região suburbana de
Contra Costa, com mais de 1 milhão de pessoas, cedeu milhares de hectares de
terras agrícolas para a construção civil há duas décadas, tornando-se uma
alternativa acessível a morar em São Francisco. Agora,
a área foi atingida por um golpe duplo, pois o desemprego aumenta a demanda por
serviços sociais, e a queda acentuada do valor das moradias reduz a receita de
impostos do distrito e, consequentemente, os
orçamentos dos serviços sociais.
As autoridades do condado
cortaram US$ 90 milhões no orçamento de US$ 1,2 bilhão neste ano fiscal e
pretendem reduzir mais US$ 56 milhões no próximo ano. A expectativa é que a receita com impostos
sobre imóveis só terá uma "recuperação gradual" em 2012 ou 2013,
segundo o administrador do distrito, David Twa.
A rede de segurança social
está sendo pressionada "em todo o país", disse Jacqueline Byers, diretora de pesquisa da Associação Nacional de
Distritos em
Washington. "A ex-classe média, que perdeu empregos,
moradias, ou os dois, de repente pede ajuda pela primeira vez."
Em todo o território dos
EUA, a demanda por vales-alimentação, um dos primeiros benefícios procurados,
cresceu desde o início da recessão no país, em dezembro de 2007. Cerca de 31,1
milhões de pessoas receberam os vales em novembro, uma alta de 13% em relação
ao fim de 2007, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA, que administra o
programa.
O número recorde de 4,99
milhões de americanos recebeu seguro-desemprego na semana encerrada em 7 de
fevereiro. A taxa de desemprego em Contra Costa, atualmente em 9,3%, contra a taxa
nacional de 7,6%, provavelmente deve chegar a até 12%, diz Twa.
As filas se formam às
portas dos serviços de emprego e ajuda humanitária em Antioch.
No escritório da cidade de Richmond, as histórias das
pessoas que se candidatam à ajuda, sobre arrestos de suas residências e
devolução de carros, estão afetando os funcionários, a quem a organização
está oferecendo terapia, disse a supervisora Renee Giometti.
"As pessoas estão
passando por uma morte lenta", disse Karen Stewart, corretora que há
apenas três anos ganhava US$ 80 mil anuais e agora tem apenas US$ 700.
"Não há ajuda e os sistemas de assistência estão sumindo."
Recentemente separada,
Stewart, de 45 anos, disse que está sem renda fixa desde 2006 e que vive
com um cartão de débito para comprar alimentos emitido pelo
distrito. Sua casa em Brentwood, comprada por
US$ 500 mil foi retomada pela financeira.
Gazeta Mercantil/Caderno A
Bloomberg News
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